sexta-feira, 22 de março de 2013

St. Patrick's Day, Viela de Roda e Anunciação.


Eu sei que eu deveria ter postado antes e que estou devendo um post dedicado às cordas (não Raine, eu não esqueci! rs), mas as últimas semanas foram uma verdadeira loucura para mim, graças aos preparativos para o St. Patrick's Rio, que rolou semana passada, fora um um show em Porto Alegre, também no último domingo.

"Eu já escuto os teus sinais..."

Embora eu tenha utilizado a viela de roda em algumas poucas apresentações ano passado (nesta mesma data também, inclusive) eu acho que o fim de semana passado é que contou como a verdadeira estreia da minha Lyanna para o público.


Utilizei a viela em quatro músicas dessa vez, e a resposta do público sempre é muito interessante. Uma das canções em que eu fiz questão de utiliza-la - na verdade eu aprendi essa canção na viela por vontade própria sem pensar na banda - é "Anunciação", do Alceu Valença. Eu apenas amo de mais essa música. A letra, a melodia e as imagens que ela passa. Tudo isso casa muito bem com o som da viela, então para mim esta canção foi o ponto alto do show, simplesmente por conta da resposta do público.

Sabe, quando estou com a viela no colo eu reparo os mais diferentes tipos de olhares, algo meio "meu deus, mas o que esse menino vai fazer?!", então quando daquele objeto bizarro começa a sair uma melodia tão nossa, tão de casa, as pessoas meio que se encontram e piram! Foi lindo de mais ouvir os gritos e os aplausos quando nem mesmo a letra de "Anunciação" havia começado. Taí uma música que não sai mais do nosso repertório! Perdeu, sr. Valença! ;-)

No mais, a recepção em Porto Alegre foi tão boa quanto no Rio - tanto em relação ao Café Irlanda quanto à viela. As pessoas lá, contudo, pareceram agir com mais naturalidade em relação ao instrumento. Quem se manifestou veio apenas perguntar o nome do instrumento e me desejar boa sorte na jornada "solitária" de alguém que toca algo diferente.

Também aproveitamos o fim de semana para fazer umas fotos no veleiro da Marinha, o Cisne Branco. Então em breve mostro algumas fotos por aqui também!

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

De Bourges para o Rio de Janeiro, vielisticamente.



Eu estava do outro lado do oceano, segurando minha viela no colo e não assimilando muito bem o que ouvia.

Ok. Hoje em dia essa história de cruzar o oceano não é mais um big deal pra ninguém, com exceção de alguns poucos pseudo-caipiras como eu. Mas eu estava do outro lado do oceano, longe de tudo que me cercou a vida inteira e situações assim tendem a tornar as coisas um pouco confusas. Era a saudade indo de encontro à vontade que me move a lugares tão extremos. Estar lá teve um impacto inesperado, bem maior do que eu imaginei.

Viela de roda na faixada de um prédio - Bourges
A história viva que brilhava diante dos meus olhos e atravessava meus ouvidos era tão impressionante e rica que eu esquecia que estava ouvindo uma língua na qual eu não sou fluente. Uma catedral de quase mil anos, restos de uma muralha que presenciaram romanos e gauleses em batalhas e ruelas mais velhas que tudo o que eu conheço. A palavra que estava por todos os lugares era óbvia: Tradição.  

Essa minha estadia na França serviu para eu ver que isso que nos alimenta musicalmente às vezes pode ser também uma verdadeira prisão. Corri da música erudita por conta deste peso. Busquei refúgio na musica folk irlandesa e, ouso dizer, infelizmente encontrei o mesmo tipo de discurso. Não devemos tocar isso ou aquilo porque não é parte da tradição. Não vibrar num concerto romântico? Loucura! Vibrar numa tune irlandesa? Segurar o arco assim ou assado? Limpar a resina do seu instrumento? Que amador... E por aí vai.

Meus dias no conservatório de Bourges me fizeram refletir um pouco sobre esse peso da tradição; Eu cheguei na França me sentindo um adolescente abusado que força uma barra para ser aceito num grupo e saí de lá sentindo que o francês (musicalmente falando) na verdade era eu e eles é que eram uns adolescentes bobos. O medo de ser rejeitado por me meter a besta e mexer num aspecto tão concreto da tradição deles, antes tão palpável, se esvaiu.

Eu estava ali, diante de um verdadeiro ícone em sua própria terra - onde ele fez história com seu instrumento – e estava, para minha surpresa, escutando tudo o que eu não esperava. Me foi dito que a tradição, se utilizada como refúgio e bíblia, tende a ser de certa forma burra e limitada, deixando as mais diversas e grandiosas possibilidades passarem. Eu estava ali ouvindo que eu, por não ser parte daquela história, por não carregar o peso daquela tradição, estava livre para fazer o que eu quisesse. Fiquei chocado. E as regras? E toda aquela pompa de manter a tradição e seguir à risca tudo o que todo mundo tem feito há séculos? Não era o caso aqui. O valor da tradição me foi passado, não tenham dúvida, mas como um meio e nunca como um fim. E eu, que me considerava tão novo, tão aberto, me peguei quase julgando a postura do meu professor. Incrível.

Música é linguagem e teoricamente devemos sempre focar numa língua específica para nos expressarmos bem. Esse conflito linguístico-musical define a minha trajetória enquanto músico. Sempre num dialeto entre o folk e o erutido, nunca 100% um ou outro, ter que escolher um lado sempre me incomodou muito. E agora posso assumir que a ilusão de liberdade dentro da música tradicional caiu parcialmente por terra por mim. A palavra já diz, certo? Tradicional.

Foto de um artigo sobre a Viellistic Orchestra
Essas palavras ditas pelo Laurent tiveram um grande impacto em mim, porque se eu pensava que a viela de roda, dentro de seu esquecimento e rejeição, estaria livre da mão pesada da tradição, me enganei feio. A tradição existe sim, concreta e empoeirada, em cima de mais de mil anos de história. Sufocando as diferentes formas de expressão que podem brotar de lados que estão sempre presos no infinito de seus próprios universos. E pior ainda, apesar da tradição existir e meu professor ser quem é, ela não estava sendo imposta.

Para mim foi bem estranho estar ali. Você passa tanto tempo assimilando uma cultura (ou a sua visão de uma cultura) que quando você se encontra assim, no meio do furacão, presenciando tudo e vivenciando as coisas diariamente, as coisas entram em uma perspectiva diferente e algum choque acontece. Algo em mim mudou para sempre.

Descobri que as pessoas não tendem a olhar para a viela de uma forma saudosista. Na verdade, ela é muitas vezes considerada um subinstrumento, não só literalmente no fim de uma escala de importância, mas entre duas tradições que, como em qualquer esfera musical, se dividem entre clássica e popular. Erudita e folclórica.

Ainda assim, meu amor pelo instrumento só cresceu. Horas apenas ouvindo Laurent tocar, vendo o que fazer e como fazer. Partindo da música sacra do século XII até o jazz africano, passando pela renascença, pela realeza francesa e pelos mendigos cegos de poucos séculos atrás. Tudo isso saindo das mãos de alguém que nasceu na tradição e, fugindo da mesma, encontrou mil outras e viu que no fim, fazer o que se deseja fazer é o melhor. A lição que ficou mais bem colocada em minha mente foi essa: as possibilidades existem e não devemos deixar a tradição nos atrapalhar. Não quando queremos nos expressar e sermos nós mesmos.

Talvez o meu amor pela viela de roda tenha crescido por eu ver que me sinto como ela, há tanto tempo às margens da sociedade por N razões. Talvez por ter sempre me sentido anacrônico, vivendo numa época errada. Acho que é bem por aí, por mais brega que soe. E todos nós que nos envolvemos com a rabeca de roda somos assim: anacrônicos. Pessoas que tocam não só um instrumento, mas uma máquina do tempo.

Meus dias em Bourges serviram para eu ver que a tradição existe, não importa para onde eu corra. A grande sacada, amigos, é que embora eu tenha a carta branca do anonimato do instrumento em meu país, eu acho que é fundamental ficarmos minimamente íntimos dela - a tal tradição - para depois a ignorarmos da forma que ela merece. Eu estou completamente perdido, sem saber que direção seguir com meu instrumento. As possibilidades são tantas, mas tantas, que no final tudo o que me resta de concreto é a minha viela e minha vontade de fazer música com ela.

A roda não para de rodar, independente da melodia que é tocada. 
E ficar perdido nunca foi tão gostoso. ;-)


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Em Bourges II

Lidem com a epicness.

Interior da Catedral de Bourges
Bourges. A cidade onde o tempo parou. Se aqui no Brasil eu me sinto anacrônico por me sentir antigo a ponto de ultrapassar o conceito de brega ou retrô, lá eu me senti anacrônico por ser moderno de mais, novo de mais, em todos os sentidos. Ainda assim, há momentos em que eu desejo que o tempo tivesse parado para mim como parou para esta cidade tão mágica. 

Por exemplo, eu me lembro de uma época em que eu acordava cedinho aos sábados, feliz da vida por sair com um violino nas costas. Lembro das minhas primeiras aulas na escolinha de música do meu bairro e fico surpreso com a naturalidade e descontração que envolviam minhas manhãs. Não havia grandes cobranças ou mãos trêmulas na hora de tocar o que quer que fosse diante de meu professor. Não havia competição, gente escondendo fontes musicais ou querendo te ouvir para achar imperfeições. Sinto muita saudade dessa época porque lá atrás música era apenas música, completamente despida de todos os preconceitos que a famosa erudição e o falido bom senso artístico (?) nos enfiam goela abaixo.

É meio triste, mas a verdade é que tudo isso se perdeu em algum momento, quando anos mais tarde, num conservatório maior e de fato reconhecido, os concertos ficaram sérios e o peso da tradição erudita que o violino traz caiu sobre minhas costas. 

Esses dois primeiros dias em Bourges serviram para resgatar esse ar naïve do início do meu caminho musical. Acordar cedinho – mas feliz! – tomar meu café da manhã e partir para a escola de música foi um ritual magnífico, apesar do frio das manhãs da pequena cidade.  

Laurent, gentil como sempre, fez questão de me apresentar a alunos, professores e funcionários da escola. Todos foram muito solícitos e simpáticos, além, é claro, de me olharem como um E.T. por verem um brasileiro despencar pra lá por causa da viela de roda.

Esses dias foram cansativos, também. Me enganei se achei que as aulas se resumiriam a aprender tunes e ficar tocando o trompete o tempo inteiro. Laurent trabalha muito com nosso ouvido e com nossa visão. Eu passei algumas boas horas apenas ouvindo diferentes tipos de tunes, com diferentes ritmos. Olhando as suas mãos. Eu ouvi e ouvi MUITO, não só em casa antes e depois das aulas, mas durante as mesmas. O trabalho nos ouvidos vinha sem pressa para depois focarmos nas mãos esquerda e direita separada e repetidamente, para só então tentarmos juntar ambas numa mesma tune, trabalho este que pode ser desesperador. risos

O que eu achei engraçado é que nós tendemos a olhar para a mão direita como o verdadeiro problema da viela, por conta dos golpes de manivela. Contudo, de acordo com o tio Bitaud, é a mão esquerda que vai ditar se alguém é ou não um bom vielista. Segundo ele, é o dedilhado que nos faz acelerar, ralentar ou perder de vez o controle da mão direita. Isso foi bem esclarecedor para mim; e de fato os exercícios que fiz já tiveram um impacto considerável em ambas as minhas mãos. Dá-lhe escalas e arpejos... Mas tudo de uma forma bem tranquila e sem pressão. Ainda mais num ambiente como aquele.

Conservatório de Música e Dança - Bourges
O Conservatório de Música e Dança de Bourges é um lugar extremamente inspirador! Cercado por um pântano, um rio e paredes de vidro, a escola abriga quase mil alunos que partem de diferentes cidades para terem acesso ao ensino de instrumentos que vão do clarinete à viela de roda, espalhados por diferentes áreas como o jazz,  a música clássica e claro, a música tradicional (apesar de seu status - fofoca que guardo para o próximo post).

Enfim, não há, não há e NÃO HÁ ambiente mais estimulante para um pobre gringo brasileiro que veio buscar isso: a coisa verdadeira, os franceses vielistas da gema. Foi tudo fantástico, apesar do cansaço gerado por 7 horas quase consecutivas de viela, com direito a trompete, dezenas de tunes diferentes e muita conversa regada a chás e cafés.

Sim. É um rio.
Acho que eu estava meio que em choque o tempo todo, então focar 100% do tempo não foi tarefa fácil. Ainda mais que tudo ocorreu no bom e velho francês de Bourges - o que foi ótimo para treinar minhas habilidades na língua.

Bom, o saldo final da segunda semana foi mais que épico. Certamente, só os pequenos tours pela cidade e as refeições da Brigitte já faziam tudo valer a pena. Me faziam esquecer a quantidade hercúlea de partituras que me foi dada para "dar uma olhadinha" ao longo da semana seguinte e das 2 horas em que eu congelaria lentamente na conexão em Vierzon, de volta pra Paris.

A questão que se formava, por fim, era como eu seguiria sozinho após tanta orientação e informação. A viela de roda é tão diferente e ao mesmo dialoga abertamente com o universo do violino: de um lado, temos duas tradições conflitantes. Do outro, diferentes caminhos e atalhos secretos que podemos seguir - somos, no fim do dia, instrumentos basicamente melódicos com (uma falsa - falo disso depois) plena liberdade de expressão. Enquanto um está em tudo que é canto, o outro está há séculos adormecido, acordando só agora para encontrar seu lugar ao sol no cenário musical do século XXI. Ao mesmo tempo a viela, em toda sua excentricidade e liberdade, requer horas e horas de estudo minucioso de cada mão. A liberdade aqui serve para termos disciplina e mantermos o foco, sem nos perdemos no mar das possibilidades. Desta forma, o arco e a manivela se encaram e se reconhecem, mesmo que ambos finjam o contrário.

Esses dias serviram sim para colocar essas minhas duas ferramentas artísticas cara a cara, como num combate. O resultado? Um efeito estranho, como um espelho que nos exibe um reflexo bizarro mas desconfortavelmente parecido com nós mesmos. É.. Aquilo que eu via como uma dicotomia  tomou forma de soma. Uma equação a ponto de atingir um equilíbrio.

Podia ter escolhido a flauta, pensei eu com meu chá.
;-)


quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Paris e a Viela de roda: a plebeia se torna princesa


Theorbo (na parte de cima)
Ontem decidi literalmente cruzar a cidade para explorar o Musée Cité de La Musique. Foi uma visita absolutamente espontânea e não planejada, dica do Laurent num momento em que lamentávamos o fato de o museu dedicado à viela de roda, no interior, não existir mais. 

Ver tanta coisa de perto foi fantástico. Minha vontade era ter chegado lá às 9:00 da manhã e ficar até o museu fechar, mas falta tempo. Ainda mais nesses últimos dias aqui.. Mas bem, por onde começar? O ambiente é magnífico, com instrumentos de diferentes épocas agrupados por datas e/ou propósitos diferentes. O audio-guide é de graça e a moça do guarda-volumes é muito prestativa e tagarela. De quebra, tem uma loja do grupo Harmonia Mundi lá dentro. Ou seja, tive um dia inesquecível e fiquei pobre. 

Como eu tinha apenas uma tarde, passei meio que corrido por algumas coisas, como o último andar, dedicado à musica mais moderna, rock n'roll etc... Mas fiz questão de ficar bastante tempo no segundo andar, que é focado - a grosso modo - nos séculos XVII e XVIII. Me encantei ao ver instrumentos como o theorbo, o cravo (estes em diferentes tipos e tamanhos), o alaúde e a harpa. Eram tantos tipos de violões, bandolins e pianolas que eu quase me perdi.

Erhu em ação
Quando atingi o andar em questão, entre uma explicação e outra do guia, peguei no ar uma nota em glissando seguida por palmas. Na hora pensei, pronto, um violinista. Preciso ver isso. Ledo engano. No fundo da sala havia um senhor (chinês) tocando um Erhu. Que som e que potência! O glissando que ele usa nas notas vai fundo na gente. Absurdo, de verdade. 

Passado o furor causado pero Erhu, voltei pro início daquela galeria para ver com calma o que passou batido por mim. Daí me deparei com as musettes (gaitas de fole francesas, populares no século XVIII) e mal tive tempo de reparar em seus tecidos quando me deparei com ela, novinha como se tivesse sido feita ontem: uma viela de roda de Pierre Louvet.

Viela construída por Pierre Louvet - Paris 1740
Pierre Louvet (1709-1784) foi um dos maiores luthiers franceses ever. Fabricava instrumentos para a corte e para os músicos parisienses em seu tempo. Seus instrumentos, principalmente as vielas, que vocês podem ver aqui, servem há anos como modelos para luthiers contemporâneos do mundo inteiro. A minha viela, por exemplo, é baseada nela.

O que me deixou um pouco desapontado, entretanto, foi o fato de a viela estar lá como mais uma amostra de qualquer coisa. Sem desmerecer os outros instrumentos, claro. Eu entendo que é impossível cobrir a história TODA de todos os instrumentos existentes na França ao longo de sua antiga história. Mas por outro lado, estamos falando aqui de um instrumento que já tem pouco mais de um milênio de vida, que já foi extinto de vários países e beirou a extinção total algumas vezes, com exceção da França, onde sobreviveu apesar de suas idas e vindas. Enfim, dentro de toda sua trajetória, o foco que o museu escoleu dar ao instrumento se resume a um revival repentino que a viela teve durante o século XVIII. Até então, ela estava relegada aos músicos de rua,  pedintes cegos e vagabundos moradores de rua. Foi na verdade um capricho da corte, uma ideia romantizada sobre o "retorno ao campo" que fez com que instrumentos como a viela de roda e o tamborim voltassem à moda - mesmo que por um tempo. Como um milagre, a plebeia é eleita princesa dos salões de dança e das luxuosas tardes campestres ao ar livre. E é esse momento específico da viela que encontramos nos vidros desse museu.

Jean-Nicolas Lambert (1708-1759)
Nesse boom, outras formas do instrumento surgem, já que alguns luthiers experimentavam vielas com corpos de violões e alaúdes. Algumas das vielas que tive a oportunidade de ver, portanto, eram anônimas e estranhas (mas não menos fascinantes), com diferentes cores e tamanhos. 
Viela anônima 

Aliás, o museu nos permite ver que no que diz respeito à construção de instrumentos e busca por sonoridades novas, os caras lá trás não estavam nada distantes de nós. A quantidade de instrumentos experimentais de séculos passados é gigantesca e impressionante. Além dos violinos bizarros (eu precisaria de um outro blog só para os violinos, então deixemos quieto), pude passar um tempo em frente a uma pequena galeria de instrumentos experimentais mecânicos, muitos deles utilizando manivelas - que foi, obviamente, o que me chamou a atenção.

Manivelas
A grande maioria deles se resume a diferentes tipos de realejos. Os maiores de origem inglesa, os menores, franceses. A ideia dessas, digamos, caixinhas de música mais agudas, era imitar os sons dos pássaros; e aparentemente essa ideia veio da China. Muito interessante. Aliás,  coincidentemente, a peça que o carinha do Erhu tocou se chamava "os pássaros". 


Serrinette
Bom, depois de fuçar tudo relacionado a manivelas e vielas de roda, parti. Fiquei um bom tempo conversando com a moça do guarda-volumes, que vem das montanhas. Super caricata, ela tinha um cabelão enorme encaracolado, e uma pinta no canto esquerdo do queixo. Ela é uma bruxa, tenho certeza. Fiquei fascinado com a forma como ela falava. Me parabenizou pelas minhas escolhas e disse que o museu é naturalmente ignorado pelos turistas e que deveria receber mais atenção. Colocações com a qual concordei, obviamente. 

Serinette
Depois disso tudo só me restou sentar um pouco do lado de fora e curtir o ensaio de um quarteto de música sacra. Aparentemente o espaço que fica fora do museu mas dentro da Cité de la Musique é utilizado para concertos e apresentações gratuitas que ocorrem todos os dias. C'est pal mal, n'est pas?

Eu com certeza teria me arrependido amargamente não tivesse feito essa visita e visto com meus próprios olhos esses instrumentos que presenciaram e reinaram seculos atrás, num momento que, datas à parte, é bem parecido com o que vivemos atualmente. A viela passa mais uma vez por um revival, dessa vez o mais potente em sua história. Uma injeção de adrenalina num corpo que está há centenas de anos adormecido.

Ser parte disso é bem legal. ;-)


segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Chegando em Bourges, a cidade-conto-de-fadas.


Bourges. Inacreditável. Quando pisei fora da estação e respirei aquele ar gelado, foi exatamente isso que pensei.

A alguns quilômetros de distância do centro geográfico da França, a cidade se encontra na região de Berry, coração pulsante do universo da viela de roda tanto para a França quanto para o mundo. O trajeto, apesar da facilidade proporcionada pelos trens, não é nada fácil. Quase 3 horas na ida, passando por pequenas cidades, dentre as quais eu sempre preciso esperar 2 horas numa conexão para voltar a Paris. No frio.  Com um case gigante e uma mochila pesada. Mas ok, faz parte da aventura. O fato é que meu primeiro dia de aula não começou na manhã seguinte, como combinado, mas na noite em que cheguei lá.

Sempre pontual e muito bem vestido (sua esposa Brigitte faz as suas roupas, vejam bem), lá estava Laurent com seu rosto vermelho de frio e as chaves do carro na mão. Muito gentil e prestativo, me explicou que faríamos um pequeno tour pela cidade antes de irmos para casa.

Passamos rapidamente pelas ruas do centro e pude constatar que a cidade é de fato muito, mas muito antiga. A catedral, de longe muito mais linda e impactante que a própria Notre-Dame de Paris, é visível de qualquer lugar, como uma aranha gigante dormindo no meio da cidade. Passamos por ela rapidamente - e Laurent fez questão de estacionar o carro para vermos suas portas, suas gárgulas e estátuas. Seguimos para a escola de música de Bourges, o estabelecimento de ensino musical mais fantástico que já vi; e eu entendi que isso não era um exagero nos míseros 7 minutos em que entramos, deixamos as coisas na sala de viela de roda (!) e saímos. Eu fiquei tão de cara com o lugar que tudo que eu conseguia falar era d'accord enquanto ele me apontava cada centímetro daquele prédio IMENSO. O fato é  que mesmo que se tratasse de uma escolinha com 3 salas, só o fato de você ter uma seção dedicada à música folk (com uma sala especialmente para a gaita de fole e outra especialmente para a viela de roda) já diz muito sobre a qualidade do lugar.

Saímos de lá e partimos para casa, onde fui calorosamente recebido por sua esposa e alguns aperitivos deliciosamente tradicionais da região: galette à base de batatas, uma coisa crocante que não sei o que era, queijos e claro, vinho. E como eu dizia, as aulas começaram ali. Tudo naquela casa, sem exageros, tem alguma conexão com a viela de roda. Quadros, esculturas, fotos, livros, CD's, mapas, porcenalas, pinturas (algumas delas obras da própria Brigitte, que além de costurar divinamente e tocar viela de roda, também pinta!)... Você olha para um canto e voilá, você encontra uma referência ao instrumento. 

Entre taças de vinho e conversas, escutamos alguns discos que eu considero fantásticos (La Machine, Gregory Jolivet, Alexis Vacher, - estes dois ex-alunos do Laurent). A sensação de citar canções que você ama num lugar onde todos - mesmo que sejam duas pessoas - conhecem e agem com naturalidade em relação às mesmas não tem preço. Após muito papo, risadas e perguntas, veio a hora de dormir e dormir eu fui... Com meus presentes. Ganhei alguns CD's de apresentações passadas de alguns dos grupos de viela do Laurent (um com algumas canções do meu programa), umas fotos e o mais especial: uma figurine de um vielista tradicional. Já sinto um amor imenso por Bourges, e um sentimento que não sei descrever por estas pessoas. A gentileza delas ao me receberem assim, sem nunca terem me visto, é quase chocante. E a causa disso tudo é da viela, essa coisa que une pessoas espalhadas ao redor do globo numa mesma paixão. Isso é uma música largada às sombras vindo à tona depois de séculos com uma força que desconhece fronteiras. Isso sou eu aqui, do outro lado da poça, nadando dentro de uma cultura que me fascina de uma forma estupidamente concreta. Freakin'. Awesome.

Fui dormir com um sorriso de orelha a orelha, pronto para botar a mão na manivela na massa e trabalhar muito no dia que me aguardava.

É ou não é?

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Vielas em Villebon-sur-Yvette


Finalement, la France!

Estou aqui desde sexta-feira e a correria dos primeiros dias foi surreal. Corri atrás do que tinha que correr e ainda achei tempo para me divertir como podia. Antes de mais nada, tratei de voar numa loja que atende muito bem ao público do mundo folk, a Arpèges, aqui em Paris. Fui lá com minhas expectativas bem mornas, apenas buscando meu petit bourdon quebrado pelo tirano verão carioca; e qual não foi minha surpresa ao me deparar com um estojo rígido para vielas abauladas como a minha? Sonho! Morri numa graninha, mas valeu muito a pena, já que pude me preparar para a primeira aventura vielística em terras francófonas: a jornada de viela de roda em Villebon-sur-Yvette (tradução livre).

Este evento discreto e tranquilo nada mais é que um encontro onde alunos do meu professor aqui na França, o Laurent Bitaud, passam o dia inteiro trabalhando e revisando a técnica e a interpretação das peças estudadas no último ano. Como Villebon-sur-Yvette é uma cidadezinha - INHA - meio que distante de Paris, tive que enfrentar o sistema de metrô/trem que cobre a região de Île-de-France, que é relativamente complexa e cheia de baldiações.  Decidi contar com minha constante distração e voilá, me programei para sair mais cedo que o esperado. Tão mais cedo que...

Atrasado, só que MUITO ao contrário.

Erm... Cheguei na estação às 7:10, tendo duas longas horas à minha frente num delicioso clima de 2 graus. Ainda pensei em ligar para o Laurent, mas sei lá. Acordar um senhor francês cedo desse jeito não deve ser legal. Aliás, acordar qualquer pessoa desse jeito não É legal, então relaxei, li, escrevi e claro, tirei fotos até ser reconhecido pela Brigitte, esposa do Laurent. Ela chegou acompanhada de duas pessoas as quais eu amei conhecer: Michel Marc e Elisabeth Beduchaud, ambos parte da associação Chantevielle com Laurent, promovendo eventos temáticos riquíssimos em termos de pesquisa histórica e manutenção da tradição folclórica da França central.

Da estação, onde fui muito bem recebido, partimos ao charmoso conservatório de Villebon, onde nos acomodamos em uma sala super aconchegante, com direito a claraboias e harpas e partituras. O ambiente era ótimo; e apesar de um certo clima que fica no ar quando alguém estranho chega num grupo há muito fechado, todos foram muito gentis comigo. Os olhares curiosos eram bem engraçados. Provavelmente me considerando louco de despencar do Brasil para ficar aqui girando manivelas...


Vielles em Villebon
Como a proposta do encontro era dar um up nas peças que eles já haviam preparado (pelo o que entendi estão com algumas apresentações em vista), tudo o que eu pude fazer foi tentar tocar tudo de ouvido ler as partituras e me virar com algumas explicações do Laurent vez ou outra. Ainda assim, a manhã foi ótima e passou voando. Estar numa sala cheia de vielas de roda em que seus respectivos donos agem como se estivessem numa roda de violão é... Bem bizarro, essa é a verdade.
Mas o mais curioso ainda estava por vir: almoçamos na casa dos Beduchauds; e foi um verdadeiro evento. Fiquei boquiaberto porque vejam bem, eu aguardava um cafézinho na cafeteria do conservatório, ou algum prato básico numa lanchonete próxima a nós, não um verdadeiro e tradicional almoço dominical de uma típica família francesa: primeiro serviram cestas de baguetes com algumas pastas feitas de carne de porco e ganso, caçados e abatidos (!) pelo marido de umas das senhoras da turma. Quando pensei que aquilo ali seria nosso lanche e que justamente por isso toda aquela mesa era um exagero, serviram chucrute e salsichas. Comi um pouquinho só de salsicha, já bastante cheio... Para depois ainda aguentar bravamente uma rodada de queijos e mais pães, dessa vez com uma massa mais caseira, seguidos por, vejam só: duas galettes de rois, tortas à base de manteiga e amêndoas que carrega uma pequena estátua de um rei, título cedido (com direito a uma coroa!) a quem pegar o pedaço premiado. A galette é um prato super tradicional aqui na França, então fiquei todo bobo porque já havia lido sobre isso e não esperava vivenciar nada do tipo. ;-)
Galette des Rois
  Não preciso nem dizer que o resto da jornada pós-almoço não rendeu tanto, certo? O sono nesse frio daqui é quase irresistível, ainda mais com a barriga cheia de queijos e pães... Mas ainda assim, a atmosfera se manteve, e dá-lhe prática da mão direita em valsas, polkas e outras danças. O Laurent gentilmente me cedeu todas as partituras da jornada, então já tenho trabalho pela frente... Tanto que nem sei por onde começar.

E agora é isso aí, estudar e esperar minha primeira aula particular no conservatório de Bourges.


Allons-y!

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

2013 com o pé na porta


Quando eu idealizei sair do Brasil para buscar minha viela de roda, tudo o que já havia vivido no meu caminho musical parecia menor ou menos importante. É claro que só eu enxergava minhas aspirações com verdadeira paixão. Aliás, algumas pessoas conseguiram fazer com que eu me afastasse delas deliberadamente por conta de suas atitudes diante do meu sonho. Eu realmente acredito que devemos proteger e lutar por aquilo que desejamos. Veja bem, não me refiro a pequenas vontades e caprichos. Me refiro a algo que você deseje de verdade, com toda a sua alma. Poucas coisas na vida me despertaram o que essa minha obsessão pela viela de roda despertou. Muita gente ouvia eu falar dos meus planos e simplesmente me ignorava, talvez por serem educadas de mais para rirem na minha cara ou apenas por não saberem reagir diante de certos discursos que talvez soem muito rebuscados ou ingênuos de mais. Amigos, ingenuidade (para não dizer burrice) é desistir de sonhos. Fiquem sempre atentos às pessoas com quem vocês partilham seus desejos sinceros. Aqueles que nos ouvem e nos encorajam, estes sim merecem ouvir nossas melodias.

Bem, todo esse papo pseudo-xuxa-contra-o-baixo-astral é para dizer que se sair do Brasil por nove dias para pegar minha viela em Gales e de quebra tocar com minha banda na Irlanda (o festival era o evento principal, mas não para mim, entendam rs) já soava como um conto de fadas, passar um mês na França estudando viela de roda com um grande nome da viela naquele país me deixa sem palavras. 2013 vai ser isso: quebrar corda, remendar com outra, dosar algodão e resina para atingir um som perfeito em todas as oitavas, quebrando a cara, sim, na maioria das vezes. Mas dessa vez com mais experiência, tendo visto de perto alguns desses desafios que vão me acompanhar pro resto da vida.

"Captain Corageous" (1937)
Esse post não é só um desejo de um novo ano repleto de sucesso. É também uma pequena homenagem a todos aqueles que um dia foram tocados pela viela de roda e decidiram ir atrás da mesma, aceitando o que que ela trouxesse. Esse instrumento parece estar sempre mudando as vidas de quem o acolhe, como ocorreu com o famoso luthier inglês Chris Eaton, que deicidiu tocar o instrumento após vê-lo num filme. Isso é muito mágico, e ao contrário do que vivi com o violino, os vielistas realmente gostam de se ajudar. Foi assim com Chris Allen, que conseguiu me esperar por dois anos sem se desfazer da viela que escolhi, foi assim com um número de  vielistas a quem pedi indicações de professores na França; e foi assim com Laurent Bitaud, com quem terei o inenarrável prazer de estudar nas próximas semanas. Com um jeito de escrever todo dele e muita humildade, este gentil senhor se mostrou completamente aberto a me receber em seu lar para levar meu sonho a um nível que eu nunca nem havia cogitado.

Laurent Bitaud e um de seus últimos espetáculos em 2012
Apesar de trabalhar atualmente como professor titular de viela de roda na École Nationale de Musique e Danse, em Bourges, Laurent é mais um desses caras que vivia uma vida completamente diferente antes de se deparar com esse instrumento magnífico que é a viela de roda e ter seu rumo drasticamente alterado. Mesmo com um diploma superior em engenharia e um curso técnico em mecânica, foi seu envolvimento com um grupo de música e teatro infantil - fora o estudo da música - que despertou sua verdadeira paixão o levou de vez por este caminho. Pesquisador atento e minucioso, Laurent Bitaud tem seu nome ligado a uma série de ensembles musicais. Sua  dedicação tem sido desde então incontestavelmente grande, a ponto de seu nome estar relacionado a coisas como a segunda turma de vielas de roda numa escola de música em território francês, em Vierzon, em 1980; e diversos trabalhos dirigidos e idealizados por ele, sempre bem recebidos pela crítica devido à pesquisa histórica/folclórica por trás dos mesmos.

Para mim, tudo isso vai muito além de um sonho. Essa experiência, há dois anos atrás, soaria ridícula de impossível até mesmo para mim. Eu só tenho a agradecer pela força e amor incondicionais da minha família, que não mede esforços para alimentar meus sonhos. E àqueles que sempre me apoiaram nessa grande e atemporal aventura que se chama viela de roda, seja me perguntando como vão os estudos, seja apenas passando por aqui e lendo um post ou outro. São essas pequenas grandes coisas que fazem tudo (o calor, a dificuldade de atingir a afinação no verão, as cordas quebradas, as torcidas de nariz quando alguém não muito fã dessas sonoridades me ouve rs...) valer a pena. Obrigado.

Volto em alguns dias com novidades.

Que eu possa retribuir tudo isso, algum dia, de alguma forma.

Feliz 2013 a todos!

Vielisticamente (créditos ao tio Bitaud por essa saudação ÉPICA! ;-)),

Rique