domingo, 15 de setembro de 2013

A Viela de Roda no séxulo XXI - Loreena McKennitt e Nigel Eaton



Hoje fui pego de surpresa por uma pequena menção de meu nome no facebook. Uma futura (e bem sucedida) vielista brasileira - a querida Nayane - me citou ao postar que seu nome finalmente está em uma lista de espera de um luthier. Antes de mais nada fiquei absolutamente feliz por ela. Que linda, essa sensação de está chegando. Na  verdade, na verdade também fiquei lisonjeado com a menção, pois de certa forma já me sinto parte de sua história nessa estrada fascinante que é estudar a viela.

Eu digo fascinante porque estudar um instrumento não se trata apenas de toca-lo. Tocar é, sim, parte fundamental dessa aventura, mas não se trata apenas disso. Aprender um instrumento, seja ele qual for, é também lidar com toda a bagagem - a pesada história, muitas vezes obscura - que o instrumento carrega consigo. Lembro do meu último professor me dizendo que por eu ser brasileiro e, naturalmente, vir de uma cultura completamente diferente da dele, eu não "carregaria o peso da tradição nas minhas costas". Mentira, muito pelo contrário: é justamente por eu vir do outro lado do mundo que a tradição tem um grande impacto em mim. O que  sinto é como se eu tivesse pegado o bonde (e diga-se de passagem, que bonde!) andando. A viela de roda é nada mais nada menos que 700 (SETECENTOS!!!) anos mais velha que o meu país. E ainda assim, só agora, está sendo descoberta no mundo todo - e principalmente aqui. Então me digam, por favor, COMO eu não vou me sentir atrasado para a festa? É impossível ignorar a tradição; ou melhor, as tradições que flutuam ao redor da viela e sua roda.

Bem, fato é que a viela chegou por aqui e chegou para ficar. Estamos aqui hoje eu e meus colegas para provar isso. E sim, sabemos que hoje em dia é muito mais fácil chegar ao instrumento; as fontes já são bastante numerosas; e por isso decidi começar uma série de postas tratando dessas novas vias, tão fortes para nós aqui desse lado do mundo, pessoas que nunca tiveram contato com o folclore musical de países como Alemanha, Galícia, Hungria e França.

O primeiro artista que vou homenagear nesssa série de posts é um dos maiores virtuosos da viela de roda, e toca uma viela de três teclados inventada pelo seu pai (Chris Eaton, um dos maiores luthiers do mundo, em minha opiniã). Pois bem, estamos falando de Nigel Eaton, que ficou conhecido não só por tocar ao lado do Jimmy Page, mas também por acompanhar diversas vezes um verdadeiro ícone da música dita "new age" (ODEIO este termo, mas o que posso fazer? É como o mundo a vê): Loreena McKennitt.


Como já contei antes, eu só vi uma viela em ação para valer em 2006, mesmo que seu som já soasse mais ou menos familiar para mim graças à musica galega. A bendita alma que puxou para este mundo? Nigel Eaton e seu maravilhoso hurdy-gurdy de três teclados construído por seu pai (Chris Eaton, top 3 em minha opinião), mandando ver ao lado de Loreena em Alhambra, precisamente no solo de Caravanserai.

Foi aí que tudo mudou. A bem da verdade, apesar de fazer uso de milhões de influências que atravessam sua música, Loreena é uma grande difusora da viela de roda, carregando debaixo do braço singles que chamaram a atenção do mundo inteiro devido a uma série de coisas, dentre as quais, sem dúvida alguma, a viela se encontra com seus solos e rifs maravilhosos. É o caso de eternos clássicos, The Mummers Dance e Marco Polo.

Nigel Eaton também já integrou o trio The Duellists, foi parte do duo Whirling Pope Joan e ainda foi parte do Blowzabella, um dos maiores grupos de música folk do planeta; Seus dois discos como artista solo (The Music of The Hurdy-Gurdy e Pandemonium) trazem tanto melodias tradicionais francês e inglesas quanto suas composições e até mesmo concertos barrocos para a viela. Sua forma de tocar é marcada por uma energia intensa, e seu domínio da mão direita é embasbacante admirável. Não importa se você é músico ou não, a música do Nigel merece ser ouvida por todos. E essa dupla (Nigel Eaton e Loreena McKennitt) terá sempre meu carinho por ter me permitido ser abduzido para o mundo da viela de roda.



Loreena McKennitt estará no Brasil em outubro nos dias 27 (Porto Alegre), 29 (Rio de Janeiro) e 30 e 31 (São Paulo), não com Nigel ao seu lado, mas sim com o Ben Grossman, outro grande vielista.

Para ouvir um pouco do que o Nigel anda aprontando:
 https://soundcloud.com/nigeleaton

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

No Brasil: Luis FitzPatrick e os Gaiteros de Lume


Este post é dedicado ao mais novo vielista brasileiro existente - até onde eu sei, ao menos. De antemão devo dizer que a história do Luis é bem peculiar e incomum, já que a viela dele chegou por - palavras dele - desígnio divido ou sorte; portanto me parece bem oportuno escrever sobre ele no momento.

Luis vem de Burgos, na Espanha, e hoje integra a banda Gaiteiros de Lume, de Curitiba - PR. A banda toca um repertório tradicional de países de origem/influência celta de maneira (Galícia, França, Irlanda, Escócia etc), e o Luis faz sua parte mandando ver na belíssima gaita galega, motivo que o leva anualmente à Galícia para aprender e tocar com amigos. 

Belíssimo Trabalho do Xaime Rivas
Este ano, em teoria, tudo seguiria normalmente, e o foco de sua viagem seriam as aulas de gaita galega e irlandesa (Uillean Pipes), respectivamente na Galícia e na Irlanda. O que Luís não esperava, era voltar com uma viela de roda novinha em folha nas costas. Eu chamo isso de uma sorte do caralh%$ Dharma acumulado em MUITAS vidas. hahah

Segundo o gaiteiro, a viela de roda já era uma paquera de longa data em sua vida. Luís já a conhecia de vista (e de ouvido) através do grupo irlandês Planxty (o que é intrigante, já que o grupo só tocou UMA música com a viela em toda sua carreira) e da banda galega Milladoiro. Fora essas referências, Luis já havia visto a viela esculpida no famoso pórtico da Catedral de Santiago de Compostela, e sempre a considerou apaixonante e extraordinária.

Pois  bem, foi se dirigindo à Escola de Artes e Ofícios de Vigo para buscar um pito pastoril que ele havia encomendado a um professor/luthier da escola que a mágica da história resolveu acontecer: ao ouvir e seguir um som característico pelos corredores da escola, Luis se deparou com o (agora seu) professor e luthier Xaime Rivas da Costa tocando sua zanfona. Por sorte (e que sorte, porque como vocês sabem as pessoas às vezes esperam ANOS para conseguirem suas vielas), Xaime tinha um lindo instrumento prontinho para entrega, oportunidade sabiamente aproveitada pelo gaiteiro, que começou a estudar o instrumento diariamente.

Luis me disse que agora pretende montar um repertório que passe pela música galera, bretã, escocesa e irlandesa, e obviamente mal pode esperar para tocar sua viela nessa próxima etapa dos Gaiteiros, inserindo o instrumento no segundo CD da banda e claro, espalhando a magia da viela de roda lá no Paraná, onde outros vielistas já começam a surgir!

Tudo de bom ao Luis e aos Gaiteiros, e que essa roda gire muito!

Vielisticamente,

Rique

sexta-feira, 19 de julho de 2013

No Brasil: Terra Celta e a viela de Edgar Nakandakari


Todo mundo que lê isso aqui sabe que eu faço parte de uma banda de música irlandesa e provavelmente também imagina que esse tipo de banda por aqui, apesar de existirem num número maior do que imaginamos, ainda são poucas.

Uma das mais bandas mais antigas nesse estilo no Brasil é a fantástica Terra Celta, de Londrina - uma verdadeira e absurda fanfarra de vestimentas e instrumentos exóticos, que traz uma festa musical em canções divertidas, passando por alguns ritmos brasileiros e pela tradição de países de origem celta. Eu nunca tive a oportunidade de vê-los ao vivo, o que é uma pena, mas sei o quanto eles bombam não só pelo Paraná, mas em outros estados também.

Élcio Oliveira e sua Nyckelharpa
Antes de mais nada, vale lembrar que o Terra Celta já contava com um diferencial maneiríssimo, que é a nickelharpa (instrumento folk sueco) tocada pelo também fiddler e vocalista da banda, Élcio Oliveira. Aliás, se nós vielistas sentimos na pele o fato de sermos uma minoria, eu mal imagino como o Élcio não se sente sendo (até onde sei) o único nyckelharpista (?) do país.

Mas vamos ao que interessa: há pouco tempo o Terra Celta começou a integrar entre seus exóticos instrumentos a nossa querida viela de roda, comandada pelo Edgar Nakandakari, que também enriquece o som da banda com instrumentos absolutamente inesperados como o banjo, o clarinete e o bandolim; e também com os mais "comuns", como a tin whistle e a gaita de fole (!)

Viela de Roda em ação
Apesar de ter entrado em contato com a viela pela primeira vez em 2001/2002 assistindo à uma apresentação do grupo Neuma de música antiga, foi em 2010 que Edgar realmente caiu de amores pelo instrumento, ao assistir a um show da fantástica Blowzabella no festival de Saint Chartier (verdadeiro paraíso musical que reúne luthiers, músicos profissionais, estudantes, aspirantes e amantes da música folk/tradicional).

Viela Maestro, por Mel Dorries - EUA
                                                                        Em St. Chartier Edgar teve a oportunidade de testar uma viela de roda e achou  - e fez bem - que valia a pena se aventurar no instrumento. Após algumas pesquisas Edgar finalmente decidiu adquirir uma viela americana construída por Mel Dorries (mesmo luthier do Raine Holtz), optando pelo modelo Maestro -  uma viela  alto - por ser mais grave. Para sua sorte, Mel mora há poucos quilômetros de uma prima sua, então as coisas ficaram mais fáceis e mais uma dessas belezinhas pôde despencar aqui para o Brasil depois de mais ou menos um ano.

Mais uma viela que chega para ficar, certo? Eu particularmente fico muito contente em saber que uma banda que já é grande nesse pequeno cenário esteja fazendo esse trabalho lindo de divulgar instrumentos tão raros por aqui. Tenho certeza que a banda (e principalmente o público) só tem a ganhar com trabalhos assim. 

Atualmente Edgar foca em construir um repertório que consiste em  danças tradicionais como valsas, bourrées, schottishes etc; e que inclui também, naturalmente, as composições de sua banda. Eu tive a oportunidade de ouvir uma dessas composições, a faixa Intitulada Era Uma Vez, que trata dos contos de fadas na atualidade e traz o Terra Celta na sua vibe única, contando com a viela do Edgar. O trabalho deles é realmente fantástico. E o Edgar está de parabéns por sua versatilidade musical.

O Terra Celta se apresenta regularmente, então vale muito a pena ficar de olho na agenda da banda. 

Não demoro a voltar para apresentar mais um vielista brasileiro, então não sumam. ;-)

Vielisticamente,


quarta-feira, 17 de julho de 2013

Vielista


Desde que eu comecei nessa estrada tão incomum da viela de roda as pessoas vivem me perguntando se eu prefiro a viela ou o violino. Eu sempre digo que para mim é tudo música, e cada instrumento, à sua forma, uma parte continental de mim. São meus braços e minha voz. 

Partindo para um lado mais dramático, essa questão sempre me assombrou um pouco. Primeiro porque a resposta sempre foi muito clara para mim, segundo porque ela sempre soou, sim, errada de certa forma. Não se pode escolher entre dois braços, certo? - Errado. Nós sempre teremos um braço direito. Ontem eu aceitei isso.

Eu sempre penso num incêndio; no desespero de pegar o que mais importa e fugir, de poupar aquilo que significa mais para mim - e sim, quando esse filme passa pela minha mente eu sempre pego o estojo da viela antes de qualquer coisa. Isso soa tão infantil, mas eu sempre deixei essa história de lado, porque nunca precisei confrontar essa preferência de verdade. Eu toco numa banda de música irlandesa que eu amo de uma forma que não cabe em palavras. Eu cheguei a essa banda através do violino, e através do gosto iniciado e encorajado pelo mesmo, cheguei à viela e tenho vivido coisas maravilhosas - o que me torna uma espécie de traidor ao preferir cegamente a viela ao meu bom e velho violino, companheiro de tantos anos through thick and thin. O fato é que eu nunca deixei de amar o violino, e eu me sinto absolutamente feliz toda vez em que pego o píseog ou o trevo, seja para ensaiar, para compor ou (e principalmente) para tocar num show. Eu não sei se vivo sem eles - lembro que um mês na França sem ambos me deixou quase maluco... Mas sei lá. Há coisas e pessoas que chegam com uma força que não dá para medir, você só sabe que é pra sempre. Mais pra sempre que outras coisas. 

Nunca precisei lidar com essa escolha ou verbalizar isso. Não é como se eu fosse parar de tocar violino, nada disso vai mudar.  A questão é que nunca enfrentei minhas preferências até sentir, pela primeira vez, a vontade de ter uma tattoo que representasse quem eu sou musicalmente, que retratasse parte de mim sem vergonhas ou remorsos. Acho que depois de ontem minha preferência está muito clara e é pra sempre.

E eu nunca mais vou precisar responder tal pergunta, pelo menos não depois de explicar que o que carrego no antebraço pro resto da vida não é uma maçaneta qualquer.

Vielisticamente,

Rique

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Shows, gravação do EP e sim, novos vielistas à vista!

Foto por Davi Paladini
Ufa. Eu sei, eu sei. Praticamente anos sem postar, mas eu juro que isso é um bom sinal, porque significa que a vida está agitada, com muita coisa a se fazer e muitas novidades à vista.


Antes de mais nada, posso dizer que minha última apresentação com a viela foi um grande sucesso. O show do Café Irlanda no Circo Voador foi absurdo, graças ao público, que só de verem minha Lyanna já aplaudiram, antes mesmo de eu tocar. haha Muito bacana! Neste show, as músicas em que toquei a viela foram Shipping Up to Boston e o tema de Game of Thrones, ambas funcionam muito bem com o instrumento.

Não vou ser repetitivo e focar nas caras e bocas que fazem ao verem o instrumento pela primeira vez, então apenas deixo registrado que foi uma noite muito especial, e que é um sonho realizado ter tocado meu gurdy para uma plateia tão especial.

Mas como todas as noites tem um fim, nosso show naquela sexta-feira (dia 14 de junho) também não foi eterno; e logo na segunda-feira lá estávamos nós entrando em estúdio para começarmos a gravação de nosso EP, finalmente! A experiência até agora tem sido incrível, e eu mal tive tempo de pensar muito sobre tudo porque eu simplesmente gravei tudo em um dia só. Ok que são apenas 4 faixas das quais apenas uma vai trazer minha viela, mas ainda assim, gravar é sempre um trabalho árduo. E mais, se violinos já são chatos para caralho complicados de se gravar, imaginem a viela de roda. Aliás, imaginem a seguinte cena: comecei a gravar uma sessão da música em que toco o trompette (espécie de percussão da própria viela), ao som da qual o técnico de som parou de gravar e avisou "opa, pera aí, deu ruim! Tem algo errado." - ahaha só me restou rir muito e lhe dizer que não, não havia dado ruim, pois aquele é mesmo o som de uma viela de roda em perfeito estado. Essa vida de alien musical...

No estúdio - Por Pedro Costa
Bem, pelejas travadas à parte, eu estou contando os segundos para ouvir esse EP pronto, especialmente a faixa com a viela, obviamente. Primeiro porque além de se tratar de uma canção absolutamente brasileira e linda, nós pudemos mesclar o triângulo e a viola caipira (gentilmente cedida pelo nosso amigo Aluízio Kanter, verdadeiro arsenal de instrumentos) a intrumentos como o bodhrán, a Irish flute e a tin whistle. E no meio dessa fusão estou eu com um instrumento que não tem nada de irlandês e muito menos de brasileiro. O resultado, por incrível que pareça, soa tão brasileiro quando um chorinho, ou tão irlandês quando uma reel rolando numa session. E isso é bom. Ao meu ver, as melhores misturas são assim, naturais. Não soam artificiais. E né, musica boa é música boa, independente da mistura de instrumentos que a tocam. Quero muito contar qual é a música, mas vou segurar meus dedos aqui, até porque quem nos conhece já deve imaginar qual faixa escolhemos e porque escolhemos e todo esse bla bla bla... Por hora, vamos aguardar. Eu estou tão ansioso quanto qualquer pessoa que não faz parte da banda. Ansiedade é meu segundo nome.

No mais, amigos, aviso que o próximo show do Café Irlanda roladia 20 de julho, sábado, no Bar do Turco, em Niterói; e que não demoro a atualizar o blog. Tenho mais novidades para contar, principalmente no que diz respeito ao número de vielistas brasileiros! Sim, nossa pequena comunidade está aumentando e já temos mais dois vielistas/vieleiros/rabequeiros de roda para nos acompanhar. Em breve trago um texto sobre o primeiro deles. 

Até logo e vielisticamente,

Rique  ;-)


segunda-feira, 3 de junho de 2013

No Brasil: David Souza

Construindo sua futura viela

Há pouco, administrando o grupo de viela de roda no facebook, conheci um rapaz de São Paulo que se mostrou, como todo mundo, apaixonado pelo instrumento. Descobri que ele nunca havia ouvido falar na viela de roda até ela ser mencionada pelo seu professor, um luthier de violinos que curiosamente se referiu à viela pelo nome italiano, isto é, ghironda.

David ficou realmente encantado com o instrumento, e também - e isso é engraçado porque muita gente que ama a viela se interessa por isso - se mostrou interessado em construir um instrumento. Logo de primeira, como sempre, vieram os comentários dos mais experientes. Construir um instrumento (seja ele qual for) é algo muito difícil, uma viela, então... Nem se fala. Ainda mais se levarmos em conta a não existência de luthiers ou de qualquer material em português no Brasil. São tantas medidas, tantos detalhes e peças que o trabalho soa impossível.

Pois bem, apesar de tudo isso, David, que começou sua vida musical tocando a rabeca medieval até se auto-instruir em outros instrumentos, foi lá e meteu as caras tanto na internet quanto nas madeiras procedentes (pasmem) de uma demolição. Através de algumas plantas que ele mesmo buscou online ele pôde se dedicar à mecânica e à estrutura do instrumento, estudo esse que culminou, após alguns meses, na construção de uma sinfonia. Exatamente. David CONS-TRU-IU uma sinfonia. Claro que isso não veio do nada. David começou seus estudos de liuteria em São Paulo, estudando no Galpão da Cultura, o único lugar onde se pode estudar esta arte de graça. Lá ocorre um projeto super bacana de reutilização de materiais usados na construção de instrumentos, e é lá que ele ainda trabalha construindo suas peças. É um trabalho que obviamente requer mais prática e cada vez mais empenho, mas ainda assim, é realmente fascinante.


Fora o David, eu só sei de um rapaz que construiu ou está construindo uma viela de roda aqui no Brasil - que seria o Caviúna, em Minas Gerais. A diferença é que o Caviúna constrói vários tipos de instrumentos, como flautas, percussões e outros instrumentos medievais há um pouco mais de tempo, e eu realmente nunca tive a oportunidade de ver a viela em que ele estaria trabalhando.

Enfim, que a viela de roda é um instrumento de difícil acesso, todo mundo já sacou. É preciso se planejar, pesquisar muito, encomendar e muitas vezes, sem brincadeira, ir até o país do luthier buscar o instrumento. Reforço o último item justamente porque ele está diretamente ligado a nossa realidade aqui no Brasil: não há luthiers construtores do instrumento.

Longe de mim me referir a isso como uma tragédia - na verdade, eu acho mais que natural que isso ocorra, afinal a viela nasceu, cresceu e quase (bem quase) morreu lá do outro lado do oceano, na Europa, num ciclo que passou por diferentes países e estilos musicais. Fato é que conforme algumas mudanças sociais foram ocorrendo naquele continente, a viela foi seguindo um fluxo natural bem na dela, refletindo de forma passiva os conceitos de determinadas épocas, ora sendo restrita à igreja, ora parte do folclore, ora venerada quando a ideia de uma vida campestre entretinha alguns, ora sendo novamente largada aos camponeses - especificamente após a revolução francesa. O fato é que esse instrumento existiu por séculos e séculos sem que praticamente ninguém tomasse conhecimento de sua existência aqui desse lado... Até agora.

Se pensarmos dessa forma, vemos que se a viela não foi extinta até hoje, agora é que ela não vai sumir da face da terra. Nosso time de vielistas aqui no Brasil vem crescendo rapidamente (já somos 8!), isso é um fato. E esse post está sendo escrito justamente para celebrar não apenas isso, mas também esse passo interessante que foi dado no mundo vielístico aqui no Brasil. Posso afirmar que a popularidade do instrumento ainda é inversamente proporcional à dificuldade de acesso ao mesmo, mas isso está começando a mudar, graças ao poder que a viela exerce naqueles que ela fisga. Que o caso desse rapaz seja o primeiro de muitos!


David Souza trabalha como luthier e músico, tocando em eventos socioambientais, divulgando a arte de construir instrumentos a partir de materiais encontrados no lixo. Em suas apresentações ele toca instrumentos medievais como a harpa e alguns instrumentos de arco. Atualmente utiliza cordas de harpa e cello na sinfonia que em que toca. Para saber um pouco mais sobre David e seu trabalho, fica aqui uma entrevista com o próprio.

Deixo aqui meus parabéns e um abraço a esse rapaz claramente apaixonado por esse pequeno mundo da viela de roda. Desejo a ele toda sorte do mundo nessa jornada.

Vielisticamente,

;-)

quarta-feira, 1 de maio de 2013

No Shuffle


A adrenalina correndo nas veias já é uma velha conhecida minha, mesmo me surpreendendo todas as noites como se fosse a primeira vez. Dessa vez, entretanto, tudo era diferente. Nós estávamos em uma roda, de mãos dadas, minutos antes de encarar o público. O frio na barriga daquela noite tinha um tempero diferente: estávamos fazendo teatro.

Um tempinho lá atrás, se alguém me perguntasse uma situação em que eu não me imaginaria, eu responderia que dificilmente me veria tocando num musical. Melhor ainda, eu não me imaginaria tocando viela de roda numa situação dessas, ou levando a coisa para um nível maior de especificidade, diria que dificilmente me imaginaria tocando viela de roda num musical/comédia romântica em que eu precisasse usar orelhas de coelho. Pois é. Life has a funny, funny way.

É esta a razão pela qual eu tenho demorado tanto a postar, na verdade. Conciliar minha participação na banda do musical com os projetos do Café Irlanda e minhas outras coisas tem sido deliciosamente cansativo. Deveria ter sido óbvio que após me levar a Gales por um dia e me lançar na França por um mês a viela me levaria a territórios desconhecidos dentro da minha própria terra.

O espetáculo se trata de uma comédia dramática musical que tem sua história  parcialmente narrada por versões em português de algumas músicas do The Magnetic Fields, uma banda cujo vocalista/compositor é um homem completamente aberto à experimentação e sonoridades diferentes, proposta que fez eu e minha Lyanna sermos convidados a embarcar no projeto. #WeirdoPride

O mundo do teatro é um completo e desconhecido universo para mim. As marcações, as luzes, as técnicas, os costumes e orações antes de entrarmos no palco... A experiência não poderia ser mais assustadora. É estranho segurar meu violino e não ver nenhum dos meninos do Café por perto. Ainda assim, ao mesmo tempo que essa vivência é assustadora ela não poderia ser mais enriquecedora - como toda jornada artística (ou não) que nos conduz ao auto-conhecimento. Fui convidado por conta da viela de roda, sempre nova aos olhos de todos, mas nem sempre bem aceita, como pude comprovar nos olhos de um senhor numa das noites de espetáculo - este virava para trás toda vez em que eu tocava uma nota no instrumento. Mas aprendi muito sobre mim mesmo e meu violino também, já que o Pablo (diretor musical com um vozeirão LINDO) me deixou bem à vontade em minhas frases e isso, ao contrário do que possa parecer, é também um desafio.

Por fim, este post não é apenas uma explicação sobre meu sumiço do blog, mas também um grande obrigado às pessoas envolvidas no espetáculo. Hoje, caminhando para a terceira semana em cartaz, eu ainda preciso me vigiar para não me perder ao assistir a peça em vez de fazer parte dela. Ver pessoas tão talentosas e especiais fazendo o que amam na minha frente me inspira cada vez mais. Não há crítica boa que supere esse sentimento, nem crítica ruim que o diminua (e isso serve especialmente à gentil senhora que, para uma crítica do mundo das artes, soa mais como uma grande parede de concreto, encorpando preconceitos óbvios e uma estupidez sem tato algum).

Estar no meio dessas pessoas é um privilégio que só concretiza mais a vontade primeira que me move nesse mundo. Obrigado aqueles que antes mesmo de me ouvirem tocar já se mostram abertos e receptivos ao que tenho a oferecer. Obrigado aos que ouvem minha viela e mesmo não amando de primeira, se interessam e dão uma chance. Agradeço também àqueles que entendem do assunto e me apoiam e me encorajam a seguir em frente; e àqueles que reconhecem o que não é sua praia e ficam quietinhos porque não tem nada de bom para acrescentar.

Volto em breve com uma história interessante sobre um verdadeiro pioneiro no mundo vielístico brasileiro.

Em cartaz até dia 12, no Sesc Copacabana