quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Segundo Encontro Nacional de Vielas de Roda

Foto do Everton Rosa

Não é de bom tom contar para vocês, mas o segundo encontro de vielas de roda no Brasil quase não ocorreu. Não tínhamos uma data, um local e muito menos pessoas confirmando presença... Foi de última hora que minha amiga Aerith Asgard sugeriu que utilizássemos o II encontro  de Folk Metal do Paraná para nos reunirmos. A ideia foi a  salvação da pequena - e menor ainda na ocasião - pátria vielística.

Cheguei em Curitiba sábado pela manhã. Dividi o ônibus com minha viela e meu namorado (sim, rolaram passagens de ida e volta apenas para ela, assim evitei voar utilziando um case vagabundo por motivos de: segurança em primeiro lugar, me julguem.) e tivemos uma viagem maravilhosa. 

Ficamos na casa da Raine Holtz, que conseguiu ser uma anfitriã ainda mais maravilhosa que da última vez, tendo em vista que ela sabe usar os memes da Inês Brasil. Corremos para o Largo da Ordem, hall das já tradicionais apresentações da Raine; e de quebra conhecemos o Gabriel Inague, que recentemente trouxe sua viela diretamente de Gales. Um modelo super diferente, feito com uma cabaça africana e carinhosamente apelidado hurdy-gourdy por seu inventor, Neil Brook. Foi uma tarde LINDA. Não falamos de outra coisa que não fosse a viela de roda e sua história. E nossas experiências, ideias etc etc etc.

Luis Fitzpatrick e sua zanfona. Gentileza e talento.
Curitiba desta vez fez mais sentido para mim. Só de andar ali pelo Largo da Ordem,  ver as pessoas e respirar um pouco daquele ar já foi suficiente para eu entender mais a vibe da cidade. Amei. O que também contribuiu para eu cair ainda mais de amores por Curitiba, é claro, foi aproveitar um pouco de sua noite. Tive o prazer de assistir aos Gaiteiros de Lume tocando no Fitzpatrick's Irish Pub, estabelecimento recentemente aberto pelo gaiteiro, vielista, flautista, concerti... nista (?) e cantor Luis Fitzpatrick. Que prazer. De quebra ainda tivemos uma pequena session por lá e eu tive a sorte de tocar sua zanfona galega, construída pelo Jaime Rebollo.

Luis também cedeu seu pub para o grande evento no dia seguinte, que foi um sucesso. O pub estava repleto de estandes de venda, com hidromel, artesanato, acessórios e até instrumentos vikings. O palco, que fica bem no centro do pub como uma espécie de aquário, estavas sempre acolhendo alguém. E em algum momento estávamos lá eu, Raine e Gabriel, os únicos vielistas que realmente puderam comparecer ao encontro. No fim das contas falei apenas um pouco sobre o instrumento (quem curte folk metal geralmente sabe muito bem como a viela funciona) e toquei um pouco - digo, tocamos um pouco.



Spotted
Os vídeos completos de nossa humilde palestra/apresentação podem ser assistidos no canal da Aliança Folk.  Foi muito bom dividir esse momento com Raine e Gabriel, duas pessoas lindas que depois passaram parte da tarde comigo respondendo perguntas, deixando algumas pessoas tocarem seus instrumentos e claro, trocando ideias e experiências. Aliás, tive também o prazer de conhecer uma estudante de viela de roda lá de Curitiba, a Kakau Salinas, que tem estudado viela com o Luis e já está arrasando na técnica do chien. Muito, mas muito legal mesmo ver esse tipo de coisa. O dia foi maravilhoso. Voltamos para o Rio de Janeiro com um aperto no coração. Esse nosso encontro foi algo quase simbólico, para não passarmos o ano sem um evento voltado para nós. Foi uma reunião de amigos, algo extremamente informal; e justamente por isso, inesquecível e verdadeiro.

Deixo aqui meu sincero obrigado ao Luis e sua boa vontade, aos organziadores do evento, em especial à Aerith, tão gentil e atenciosa. Deixo também um abraço aos queridos colegas de instrumento que não puderam comparecer a este encontro, em especial à Nayane Teixeira e seu Wren, que fizeram tanta falta, e também aos meninos da Mandala Folk, Mateus Solowski e Fernando Kinach. Vocês e todo mundo do nosso querido grupo do facebook fizeram falta. Ano que vem organizaremos tudo com bastante antecedência e quero ver cada um de vocês conosco.



terça-feira, 27 de outubro de 2015

Enfrentando medos: tangentes.


Já se foram quase quatro anos desde que eu pude tocar numa viela de roda pela primeira vez. Estando no Brasil, absolutamente exilados do "universo" que rodeia o instrumento na Europa e até mesmo na América do Norte, nós acabamos nos tornando luthiers também, de certa forma - ou deveríamos, em teoria. 

Eu achei que já havia recebido minha parcela de perrengues de liuteria quando, há algum tempo, precisei não só retirar algumas teclas da viela antiga, mas também lixa-las na medida certa e coloca-las de volta sem problema algum. A humidade havia chegado de vez nela e algumas teclas haviam literalmente inchado. Filho da %$#@, pensei. Bem que o luthier avisou. A mesma coisa rolou recentemente quando meu dó grave quebrou. Eu havia sido avisado, fiquei possesso, mas tudo correu bem. O primeiro perrengue, contudo, foi muito tenso. Retirar teclas... Olhando o teclado de uma boa e velha viela de roda, a tarefa não pareceria tão assustadora, não fosse por um pequeno detalhe: as tangentes. (BOOM!)

Essas pecinhas fofas e delicadas que se encontram presas nas teclas são nada mais nada menos que a (s) alma(s) da viela de roda. São elas que encostam nas cordas, encurtando-as e produzindo as notas. Um poder que pode tanto simplificar quanto complicar a vida, daí o medo absurdo de brincar com elas.

Uma coisa que aprendi é que quando falamos da afinação de uma viela de roda não precisamos necessariamente mexer nas tangentes. Aliás, na maioria das vezes esse não será o caso. Quando tocamos viela de roda, temos de lidar com milhares de possibilidades que podem influenciar o instrumento, a saber: 

1) A quantidade de algodão nas cordas - Muito algodão deixa o som abafado e com interrupções - as notas precisam ser continuas, de forma natural. Pouco algodão, por outro lado, pode deixar o som meio arranhado e nada agradável.

2) A quantidade de resina na roda - Novamente, muita resina na roda vai resultar num som também arranhado, você não vai conseguir produzir uma nota que preste; enquanto pouca resina na roda vai deixar o som baixinho e distante. Algumas notas mal soariam.

3) A pressão das cordas na roda - Isso é regulado nas vielas mais tradicionais com pequenos pedaços de papel ou plástico colocados por baixo das cordas ali no cavalete, de modo que a corda não fique tão pressionada contra a roda, algo que também gera o som arranhado e uma série de barulhos nada bem-vindos.

Certa vez, depois de passar dias tentando consertar a forma como um dó sustenido soava, um luthier teve a  cara de pau de me dizer "ah, tudo bem. Você não vai usar muito essa nota, mesmo". Bom, eu tendo a concordar mais com uma professora minha que disse que pagamos caro por um instrumento e que todas as notas devem soar dignamente. Não existe uma tecla não funcionar, uma nota não existir. Devemos fazer tudo para que todas estejam em ordem. A questão aqui é que se nos certificarmos de que tudo que mencionei ali em cima está ok e ainda assim tivermos algumas notinhas soando fora, sejam elas mais agudas ou graves (geralmente as problemáticas são as mais agudas) teremos que mexer nas tangentes. .(NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOO!) - Sim. E acreditem, não é esse bicho de sete cabeças. Se eu tivesse tomado coragem de fazer isso há mais tempo, eu teria aproveitado muito mais minha antiga viela de roda. Mas enfim, vamos lá.

Exemplo tirado do site richard-york.co.uk
As vielas mais tradicionais possuem tangentes de madeira, como as da imagem ao lado. Para mexermos nelas, precisamos apenas de uma chave de fenda básica e um lápis. As tangentes estão presas em diferentes direções que não são nada aleatórias. Elas estão do jeito que estão por uma razão: a afinação. Para alterarmos suas alturas, precisamos apenas afrouxar um pouco os parafuzinhos que as seguram e girarmos elas levemente para um lado ou para o outro. Eu sei que isso soa extremamente simples, mas é necessário muito cuidado para não perdermos de vista a posição em que ela se encontra inicialmente. Um afinador eletrônico vai te ajudar muito, mas ainda assim, né. Ficar atento não custa nada. E POR FAVOR CERTIFIQUEM-SE DE AFINAR A CORDA SOLTA antes de qualquer coisa. Mesmo.

Além disso, existem dois aspectos fundamentais que precisamos ter em mente ao mexermos nas tangentes:

1) A direção para qual a tangente apontava originalmente. Antes de move-la, marque um pontinho com de lápis bem em frente à sua ponta, desta forma, se a afinação for de vez pro espaço você saberá para onde apontar a sua tangente novamente e recomeçar. 

2) Certifique-se de que ambas as tangentes (de ambas as cordas cantoras) encostem nas cordas ao mesmo tempo, para ter certeza disso é necessário que ambas as cordas estejam acionadas, isto é, fora do suporte que suspendem elas. Uma tangente encostar antes da outra nas cordas pode gerar problemas sonoros indesejáveis.

Exemplo tirado do drehleierworstatt.com - tangentes de metal
As minhas tangentes são de metal, um tipo mais moderno, como as da foto acima - de um instrumento também construído pelo Sebastian Hislmann. Estas tangentes são reguláveis tanto da esquerda para a direita como de baixo para cima, me permitindo assim ver pela marca do próprio parafuso  a altura correta para que ambas tamgentes tocassem as cordas ao mesmo tempo. Já em relação à direção, não foi preciso utilizar o lápis para marcar a posição original. O truqe aqui é afrouxar o parafuso na medida certa para que a tangente não fique tão solta, de modo que possamos move-la muito sutilmente até atingirmos a finação desejada. O resultado foi magnífico e o som ficou perfeito. Foi libertador, fazer isso. Praticamente um rito de iniciação.

Um outro aspecto importante que devemos levar em conta é a extensão completa da corda. Cada viela tem uma extensão específica que deve ir do local por onde a corda sai, até o cavalete. A minha eu descobri porque meu luthier fez questão de deixar isso claro para mim, então seria o caso de sempre perguntarmos. Caso essa distância seja alterada (geralmente porque aquelas madeirinhas ali no topo [ffoto ao lado] se moveram), também podemos ter problemas de afinação. Este seria um caso mais difícil de ocorrer, pelo que entendi, mas ainda é uma possibilidade.

O importante é manter a calma e tentar, sempre. Apenas assim veremos que somos capazes de mexer nesse instrumento tão complicado. Nós ouvimos o tempo todo o quão cuidadosos devemos ser com a viela, como é um instrumento delicado, que requer cuidados etc. Acho que isso nos inibe muito na hora de tomarmos atitudes em relação à manutenção. Vamos lembrar que esse instrumento está aí há pouco mais de que, dez séculos? São instrumentos que levam tempo para serem feitos, então não vão ser pequenas manutenções que vão quebra-los para sempre. Lembrem-se que afinação é fundamental para qualquer músico, em qualquer instrumento. E que nossa viela já foi muito rotulada como algo que soa dolorosamente ruim durante séculos. Tá na hora de darmos um desconto a ela. =)

Mãos à obra!

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Viela de Roda no Jornal - Rioshow

Fotinho pelo Davi Paladini
E dia desses (semana passada) saiu um matéria no Rioshow sobre instrumentos incomuns; fui convidado pela jornalista Paula Lacerda a conversar com pouco sobre a viela de roda, minha banda e minha história com o instrumento. Foi uma experiência bem bacana e os frutos apareceram domingo, na nossa session mensal em Botafogo. Muitas carinhas novas, animadas e encantadas não só pela viela mas por tudo que rola em nossa session. =)

Confira a matéria clincando aqui.


Vielisticamente,

(Logo logo retomo com novidades vielisticas sobre meu amado Rio de Janeiro)

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Busk in Rio ;-)


Sábado, 19:30 PM. Ipanema. Uma senhora sisuda e austera passa por nós de cara amarrada. Mais uns passos à frente para, olha pra trás e retorna. Gelei. Essa daí não gostou, não, penso.

- Que engraçado. Que instrumento é esse?

- É uma viela de roda.

- Nossa... Que inusitado. Parabéns, vocês são inusitados. Essa foi a coisa mais inusitada que vi hoje.

- Obrigado! =)

Ela se retira - dessa vez com um sorriso no rosto - para ceder ao impulso por uma segunda vez e voltar pro nosso cantinho.

- Olha, toma: não é dinheiro, não. Mas é inusitado também.

Assim eu e Pedro concluímos mais um dia de busking nas ruas do Rio. Ele com sua flauta doce, eu com minha viela de roda. Terminar o dia recebendo arte em troca de arte foi um momento extremamente especial, e agora dividimos a custódia da inusitada tela que abre este post.




Feirinha do Lavradio
Busking. Taí uma coisa que nunca havia pensado que ia amar fazer na vida. Ultimamente eu tenho refletido muito sobre a música que toco e o que quero, e tocar nas ruas é um ótimo lugar para fazer música de forma leve e descompromissada. Me ajuda a pensar. Além de ser também uma ótima forma de estudar sem se sentir muito observado - meus vizinhos obviamente sabem muito bem quando estou ensaiando, ao passo que na rua o meu público muda a cada alguns minutos.

A ideia é aparecermos aos fins de semanas em alguns pontos bem característicos, como a feirinha da rua do Lavradio, na Lapa; a rua Voluntários da Pátria, em Botafogo ou a praça General Osório, em Ipanema.

Essa experiência tem sido cada vez mais enriquecedora. Pessoas de todos os tipos param e ficam encantados pelo som da flauta com a viela, principalmente as crianças. O mais interessante é ver como algumas reações são previsíveis: durante algum tempo a sensação é de ser invisível. Ninguém dá a mínima... Até uma pessoa interromper seu trajeto e parar. Basta UMA alma fazer isso para que outras tomem coragem e parem, sorriam e te abordem. =)

Sei que pode parecer besteira, mas fica meu registro. E meu agradecimento às pessoas que chegaram aqui após pararem e terem tido a curiosidade de me perguntar sobre esse instrumento fascinante. Com o tempo vou postando uma pequena agenda dos locais e horários em que estaremos nas ruas com nosso pequeno projeto itinerante. 


Vielisticamente,

;-)

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Berimbau + Viela de Roda


Eu não consegui encontrar absolutamente nada sobre este projeto na internet - e não sei nada de alemão, mas uma brasileira com um berimbau e uma alemã (eu acho) na viela de roda deve ser no mínimo interessante. A ideia de unir uma viela a um instrumento tão diferente dela (e provavelmente mais antigo) me fascina. O berimbau pode ser - e é na maioria das vezes - tão intrigante quanto a viela para a maioria das pessoas lá fora. Achei a ideia simplesmente genial. 

Ficarei ligado para trazer mais informações. =)


Vielisticamente,

quarta-feira, 8 de julho de 2015

As Rosas Não Falam


As voltas que o mundo dá.

Passei a vida ouvindo falar sobre esta música. A ouvi uma vez ou outra. mas a descobri realmente no show de uma talentosíssima cantora... Irlandesa. E foi essa mesma canção que escolhi para esse vídeo gravado há algumas semanas pelo meu amado amigo Pedro Costa, companheiro de drinks, chás, tarots e Irish sessions.

Além de uma belíssima canção, As Rosas Não Falam foi também uma belíssima desculpa para eu brincar na minha corda dó, grave e poderoso atributo do instrumento feito pelo sagaz Sebastian Hilsmann. 

Espero que vocês gostem.

Vielisticamente,