terça-feira, 4 de novembro de 2014

No Brasil: Clanna Iúr e seu primeiro show.


Nossa primeira apresentação pra valer, a gente nunca esquece. Eu pelo menos nunca esqueci a minha; e a sensação gostosa de subir num palco pela primeira vez é bem menos assustadora do que parece.

Este post é justamente sobre a primeira apresentação do Clanna Iúr, projeto que vem do estado de São Paulo trazendo Nayane Teixeira como vielista de roda. O projeto trabalha tunes tradicionais de regiões de origem celta como a Bretanha, a Irlanda etc; e teve sua estreia no evento Orgulho Pagão 2014, que ocorreu dia 25 de outubro em São Paulo. A vielista em questão, Nayane Teixeira, é alguém que eu (ainda) não conheço, mas já admiro muito. Tocando hoje uma viela construída pelo Neil Brook (mesmo luthier da minha =)), ela passou um bom tempinho esperando seu instrumento chegar e hoje está aí, começando a tocar seu projeto ao lado de seu companheiro, que toca bandolim.

Para assistir a apresentação, basta clicar aqui.


Tudo de bom a vocês, Clanna Iúr. Nos vemos em breve. =)

Vielisticamente,

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Três.


Em termos de música, antes de mais nada - e apesar da manivela tatuada em meu antebraço - eu sou um violinista; e tudo o que consegui em minha vida artística, eu alcancei graças ao violino. Hoje um instrumento clássico por excelência, o Rei da orquestra sempre causa uma impressão carregada de imagens europeias muito comuns e eruditas; o violino vem, naturalmente, carregado de pré-conceitos quase tão antigos quanto a própria música. Escrever este post, agora, soa quase como uma blasfêmia; e eu me sinto desafiando a ira de um Rei, mesmo. 

Mas é aquilo, né. Depois de tantos anos, eu ainda tenho essa curiosidadezinha aparentemente barata por tudo aquilo que é deixado de lado pela maioria. Aquilo que é lançado aos cantos escuros e obscuros de seja lá o que for sempre me atraiu quase involuntariamente. Já era assim quando percebi que não era como os outros meninos da minha turma na escola; e foi assim quando optei por violino ao não conseguir vaga na aula de violão. E foi assim por anos, enquanto eu ignorava os concertos barrocos para aprender jigs e reels de ouvido, entrando em contato com o lado mais povão do meu instrumento. É engraçado pensar que o violino um dia foi um instrumento absolutamente popular, dedicado à música profana, do povo. Eu poderia dizer que essa dualidade me encanta, mas eu estaria mentindo. Eu simplesmente prefiro esse lado mais relaxado da música. E o mesmo quase se repetiu na primeira vez em que vi uma viela de roda. Mas reforço: quase. - Com a viela, tudo foi mais forte.

E digo isso porque a viela de roda é aquela moça estranha da sua adolescência, que cresceu e se tornou uma das mulheres mais lindas que você já viu. Uma mulher capaz de fazer todos caírem aos seus pés sem terem a menor ideia de seu passado torto e repleto de rejeições. Ela é aquele homem que você considera estranho sem saber porquê; e ainda sem achar razões, sente uma atração irresistível pelo mesmo. Não tendo tido o mesmo sucesso que seu primo distante, a viela sempre acabou sendo renegada, ficando em meio ao povo e ao campo.

Ironia. Eu toco um dos instrumentos cuja reputação nobre está entre as mais inabaláveis na história da música ocidental; e tenho mil imagens associadas a ele que são transferidas a mim involuntariamente: nobreza, delicadeza, sofisticação etc. And yet, aqui estou eu, tocando o que toco. Acho que por isso sempre me senti como se estivesse vestido de uma roupa um tanto desconfortável, afinal eu o uso para tocar músicas que pertencem a um povo marcado por tristezas e crises. Eu toco música folk, dessas ditas populares, que fazem você bater seu pé direito sem perceber. Eu nunca quis usar fraque e ser spalla. E eu toco uma música que fala de danças baseadas na beleza da simplicidade; e airs que traduzem não apenas a desolação da morte, mas de amores perdidos e pessoas roubadas pelas fadas. É sempre estranho desconstruir toda realeza do violino para quem quer que seja. Talvez por isso, com uma manivela em mãos, as coisas soem mais naturais para mim. 

Na viela de roda, essa subversão não ocorre. Ela vem sim, diretamente do povo. E nunca emplacou pra valer como um instrumento respeitável - apesar de seu curto período de ouro na música barroca do século XVIII. E depois de sair da igreja, passar por vilarejos, viver um tempo em Versailles e ser renegada ao campo após a Revolução, com o povo ela permaneceu; e com seus velhos vielistas ela quase desapareceu, como um fiel cachorro-escudeiro seguindo seu dono miserável pelas ruas.

Eu hoje tenho mais orgulho que nunca, por ser um desses vielistas. E tenho sido um por três anos, completos precisamente hoje.

Por mais que a viela conquiste novos territórios  - a prova disso é o número de amigos vielistas que estão, aliás, a ponto de realizar o primeiro encontro de vielistas do meu país - e por mais que a viela, mesmo tendo sobrevivido a mais de mil anosa de estigmas e esquecimento, seja agora considerada um instrumento digno de escolha, eu sei que posso afirmar com certa propriedade que somos especiais como nosso instrumento. Não é qualquer um que se atreve a girar essa manivela.

Eu nunca me envergonhei de ser singular em nível nenhum. E apesar de não ser um fato e eu detestar generalizações; ainda me pego pensando que a atração que a viela exerce sobre pessoas incomuns é quase inegável. A impressão que tenho é que todos nós temos um "mas e se..." tatuado em nossas testas; e isso é lindo. Nossas escolhas nos traduzem; e a viela é a minha escolha que mais fala sobre mim.

Há três anos eu estava segurando minha Lyanna pela primeira vez no colo, não tendo a menor noção do porquê de eu ter lutado tanto por ela; sem entender que ela representava única e simplesmente uma coisa: minha vida.

No fim do dia a viela de roda para mim é o símbolo de um caminho único, feito por escolhas incomuns. É um prazer estar mais um ano trilhando essa jornada épica que é estudar esse instrumento. Obrigado a todos que vez ou outra passam por aqui por qualquer razão. Esse espaço, apesar de extremamente pessoal, é para todos nós que fizemos ou estamos prestes a fazer essa escolha apaixonante que é a viela de roda.

Vielisticamente,

;-)



segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Ultimamente no Brasil II: Matthias Loibner


É muito estranho pensar que os poucos mestres da viela de roda que pude conhecer eu só conheci porque criei coragem (meses juntando $$$) e me enfiei na Europa. Encontra-los sempre foi uma aventura deliciosa, apesar da distância entre meu país e o mundo vielístico ser quase desanimadora. Digo que é estranho porque esse mês o Brasil teve o inacreditável privilégio de receber diretamente da Áustria Matthias Loibner e sua viela de roda - algo que eu jamais pensei que veria ocorrer - e eu , tão perto e tão longe, não pude vê-lo. 

Ganhador de prêmios e um dos grandes ícones da viela de roda no mundo, Matthias sempre teve uma relação forte tanto com a música folk como com a música experimental (daí o uso de seu laptop em seus concertos). Eu pessoalmente já conhecia o seu trabalho porque quado pesquisamos sobre o instrumento sempre acabamos passando por alguns vídeos em que ele apenas destrói a viela com sua mão direita, possuidora de uma técnica impecável e chocante.

Em janeiro, quando estive na Basilea, tive a oportunidade de ouvir falar bastante dele. Tobie Miller já estudou com Matthias e eu imaginava como deve ser fantástico ter a oportunidade de estudar com alguém tão talentoso - ele é considerado o Jimmy Hendrix da viela de roda, ok?


Pois bem, Matthias esteve por aqui e passou por Curitiba e Brasília para tocar no projeto Viva Mais Cultura, da Caixa Cultural. Como sua passagem não incluiu Rio ou São Paulo e eu só soube disse dois antes das datas, infelizmente eu não pude nem dar um oi. (#recalque) Contudo, entretanto, todavia, meus caros amigos da comunidade vielística não só o viram tocar, como o levaram para passeios e, claro, tiveram algumas horas de aula VIP.


Augusto e Matthias
Começemos por Brasília. Dia 11 de setembro foi a vez do Augusto Ornellas, vielista de Brasília, aproveitar Matthias e sua viela. Apesar de essa ser a segunda data da curta passagem de Matthias, vale começar por ela. A palestra de Matthias em Brasília pode ser vista aqui, aqui, aqui e aqui.

Fico extremamente contente em saber que além das palestras meus amigos puderam conhece-lo e trocar ideias. É fundamental que esse tipo de interação role, porque UMA diquinha que seja que alguém desse porte nos dê é o suficiente para poupar-nos de meses e meses de desespero por não sabermos mexer ou solucionar um problema sonoro na viela. Estamos literalmente exilados do resto do mundo, então toda informação é bem-vinda.

A respeito do dia 9 de setembro, passo a palavra à Letícia Goularte, que nomeou Curitiba a capital nacional da viela de roda. Nada mais justo, galera. Tá todo mundo lá. ahah 

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"Matthias Loibner em Curitiba – por: Letícia Grockotzki Goularte

No dia 09 de Setembro de 2014 o austríaco Matthias Loibner se apresentou no teatro da Caixa Cultural em Curitiba-PR e tive a oportunidade de conhecer seu trabalho e conhecer também sua simpatia. Foi um show mais que agradável no qual Matthias demonstrou sua percepção das coisas através da música, mais especificamente, sua percepção das pequenas coisas e da graça da vida, coisa que ele deixou claro em suas atitudes. E claro, sua envolvente viela de roda, a qual ele toca (e nos toca) de maneira incrível.

Em suas composições Matthias explora o instrumento indo além de como estamos acostumados a ver e a ouvir. Não se limitando a girar a manivela e apertar as teclas, ele usa glissandos, pinça as cordas, utiliza harmônicos e até pequenos gestos percussivos.

Após o show tivemos a oportunidade de ter um contato mais próximo com ele e ali começamos a descobrir o ser carismático que é. Não fui ao bar na terça a noite (vídeo aqui), mas no dia seguinte me encontrei com ele a tarde. Matthias não fez questão de conhecer muito os “postais” de Curitiba, se contentou em conhecer o Bosque do Papa, perto de onde estava hospedado, o Museu Oscar Niemeyer e, após o almoço, sentar-se na grama da praça entre o museu e o bosque para conversar sobre sua filosofia de vida, entrar em ‘ressonância’ com o mundo e as pessoas, como ele mesmo diz.

“Eu anotei as coisas que gosto em um papel, a lista foi ficando tão grande e hoje eu posso dizer que sou mais feliz.” (Mais ou menos as palavras dele).

Um pouco antes da palestra que aconteceria na Escola de Música e Belas Artes do Paraná (UNESPAR), achei uma sala do prédio da universidade para que ele pudesse estar à vontade com sua viela. Queria tirar algumas dúvidas, mas mais que isso, ganhei uma aula de viela de roda. A minha viela ainda não chegou, mas não foi empecilho, pois ele simplesmente retirou sua viela da capa e a colocou em meu colo e assim conheci de perto quanto às técnicas que ele usa e tive minha primeira experiência no instrumento. Matthias também é um ótimo professor, daqueles que literalmente pede para que você feche os olhos e sinta a música.

Letícia, Mateus e Matthias
Quando ele estava terminando de me ensinar as primeiras noções, chegaram o Mateus Sokolowski e o Fernando Kinach (vielistas de Curitiba, da banda Mandala Celta) que eu havia convidado para que também pudessem ter esse tempo com o Matthias. O resultado foi uma sessão de reparos na viela dos dois (Matthias já fez curso de lutheria) que não deixou de ser também uma aula, com dicas de como ele cuida de sua viela também.

Por fim, fomos à palestra, a qual também foi muito proveitosa e está gravada na íntegra em áudio e vídeo (disponível no youtube)

Matthias Loibner é essa pessoa que nos surpreende a cada passo, conhecedor e um professor, não só de música, mas também da vida. Excelente instrumentista da viela-de-roda, excelente músico, mas também humilde e muito amigável. Matthias, meu (e acho que de todos os vielistas e admiradores da viela-de-roda) muito obrigada!"



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O mais incrível disso tudo é que se olharmos para trás já podemos ver que o Brasil já contou com a presença de algumas das pessoas mais relevantes da cena vielística contemporânea (Nigel Eaton, Ariel Ninas, Germán Díaz e agora Matthias Loibner). Sendo que os últimos que por aqui passaram já viram que nossa comunidade está crescendo bem e crescendo rápido. Ponto para nós. E meus parabéns aos músicos que puderam usufruir dessas horas, tenho certeza que vocês crescerão muito e farão nosso querido instrumento ter cada vez mais visibilidade. 

Sites do artista e de seu luthier:




Vielisticamente,


sexta-feira, 19 de setembro de 2014

No Brasil Ultimamente 1


Wow.

Ufa. Eu sumo rapidamente e BOOM, tudo acontece no Brasil. Sim, este é um post amargo. Os últimos meses/semanas trouxeram dias absolutamente festivos para a pequena comunidade vielística brasileira e eu vou tratar de cada um deles.

O ideal era postar essas coisas conforme elas vão surgindo, eu sei. Contudo, entretanto, todavia, em minha defesa: 

1) Eventos como os que vou citar parecem surgir do dia para noite, não por  conta dos artistas maravilhosos que os integram, mas pela divulgação pobre e sem alcance feita em cima desses eventos, coisa que prejudica tanto o artista, que não tem seu trabalho devidamente promovido, como o público (eu), que sabe de tudo em cima da hora e não pode fazer nada. #recalque.

2) Essa vida está uma loucura, dentro e fora do mundo vielístico. Há um iminente encontro  nacional de vielas de roda para acontecer, nossa comunidade tem crescido rapidamente e... Bom, a vida anda corrida, enfim.

Bom, vamos ao que interessa, mesmo que a título de registro:

Estava eu dia desses vivendo a minha vida quando me deparo com um cartaz online de uma apresentação do Pablo Lerner (mestre da rabeca de roda húngara tocando música nordestina). Quase surtei, pois se tem uma pessoa que faz o elo perfeito entre o Brasil e a viela de roda, essa pessoa é o Pablo. Literalmente. Cheguei a entrar em contato com ele para tentar arrumar qualquer tipo de encontro aqui pelo Rio, mas infelizmente suas apresentações ocorreram apenas lá para as bandas de cima. Jamais superarei. Fim.

Fato é que concerto do Pablo integrou a série "Música no pôr do sol", organizado pelo SESC. O concerto em questão ocorreu no Ceará, mas Pablo também passaria por São Paulo, provavelmente também com esse espetáculo. Acho maravilhoso que pessoas tenham tido essa oportunidade fantástica de ouvir o Pablo tocando seu tekeroant com sons nordestinos. Não pude estar lá fisicamente, mas estava de coração e sei que foi fantástico. =)

Sobre o evento:

"Ao som da viela de roda, Pablo Lerner aproxima seu som ao da rabeca, violino popular brasileiro. Apesar da viela de roda [ser inexistente no Brasil] (risos)], as fortes reminiscências medievais das melodias nordestinas e seu modalismo faz com que o instrumento rime com elas. No repertório, estilos como coco, baião, maracatu e bumba meu boi."

Eu culpo meu inferno astral. Mesmo o evento tendo sido há uns meses atrás rs.

Vielisticamente,

Henrique


quinta-feira, 14 de agosto de 2014

No Brasil: Mandala Celta


Num país em que nem dez vielistas existem, uma banda com dois vielistas é de um abuso inacreditável! haha No bom sentido, é claro! Pasmem, uma das últimas novidades relacionadas à viela de roda no Brasil é a banda Mandala Celta, que tem sua estréia hoje mesmo. Com duas vielas de roda! Isso é apenas muito, mas muito maneiro.

A banda traz uma formação bem interessante para sua proposta, contando com Mateus Sokolowski na viela de roda, bandolim e bouzouki, Thomaz Ozatski no violão e na voz, Marcos Carvalho no contrabaixo (!) e na voz, Fernando Kinach Loureiro nas flautas, na viela de roda - ! - e na voz; e Eric Fontanini na bateria e na voz. Eu poderia parar o post aqui porque né, já deu pra sentir a vibe. Mas vamos lá.

Mateus já é conhecido aqui do blog porque foi um dos malucos da primeira leva a conseguir uma viela, quando o blog estava bem em seu início. Eu estava para escrever sobre ele há meses por conta de seu trabalho no Gaiteiros do Lume, mas como esse seu novo trabalho está saindo do forno agora, me pareceu mais sensato fazer este post.

A banda se propõe a fazer leituras originais de canções tradicionais de países de origem celta, traçando paralelos com o folk americano e até mesmo a música árabe. A proposta da Mandala, em suma, é provar que para a música não existem barreiras ou fronteiras. Aliás, nem precisaríamos ir tão longe, os próprios músicos, por serem brasileiros, já provam essa teoria. E esta banda é fruto das viagens que seus integrantes fizeram para diferentes países.

É engraçado isso, mas eu às vezes tenho a sensação de que pessoas, no geral, tendem a aproveitar viagens, sim; mas músicos tendem a aproveita-las mais. Em níveis que nem todo mundo compreende. A Mandala Celta é provavelmente uma prova disso também.

Ainda não pudemos ouvir seu trabalho, mas me parece que vem muita coisa boa por aí. Apesar de sermos uma pequena comunidade no Brasil - e aqui me refiro não à comunidade de vielistas, mas à comunidade da música tradicional/folk de países de origem celta - nós geralmente temos propostas muito parecidas, e até mesmo limitadas, então ver uma banda com uma formação tão original é bem maneiro, porque mostra que estamos evoluindo e começando a pensar fora de nossa caixinha. 

Bom, fato é que tudo isso é muito bom e muito lindo, mas não posso negar: o que mais quero ver é a interação entre as duas vielas. Esse tipo de formação assim, numa banda, é raro mesmo mundo à fora, salvo os duetos em encontros e masterclasses sobre música tradicional. É quase a mesma coisa com a gaita de fole: justamente por ser um instrumento de "personalidade" muito forte, sempre vemos uma por grupo, basicamente. É, estou bem curioso.

Deixo aqui meus parabéns aos músicos por trabalharem num projeto tão interessante. Toda sorte à Mandala Celta; e que a banda atinja todo sucesso que merece e seu trabalho alcance o maior número de pessoas possíveis.

Viela neles! =P

Mandala Celta faz seu show de estreia hoje no Teatro Universitário de Curitiba, às 20:00.


terça-feira, 12 de agosto de 2014

No Brasil: Meadfest

E os eventos medievais por aqui não param.

Ocorreu nesse último fim de semana o IV Meadfest em Curitiba, trazendo muitas fantasias, pratos deliciosos e claro, música boa agindo como máquina do tempo.

Não preciso muito dizer que apesar de alguns outros grupos bem maneiros como o Artilharia Pirata e os Gaiteiros de Curitiba, quem encantou os aldeões por lá foi o Through Waves, sempre catando mais fãs apaixonados pela beleza e pelo talento de Raine Holtz.

Segue um pequeno vídeo do evento para aqueles que, como eu, precisam de alguma maneira de acalmar o recalque de não ter estado lá.


Curitiba e seu estado tem crescido muito em termos de atividade nessa área. Fico impressionado com a capacidade que esse lugar tem de gerar vielistas e eventos vielísticos. =)

Aliás, acaba de surgir por lá mais uma banda que conta com não uma, mas DUAS vielas de roda. Falarei dessa galera no meu próximo post.

Vielisticamente,


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

A viela de roda no imaginário popular



Daí que não fui trabalhar hoje. Febre que não sái de mim. 

Na esperança de me fazer um pouco útil e na delícia que é tratar desse assunto com vocês, resolvi compartilhar um pouco do que tenho lido sobre nosso amado instrumento. Estou lendo um livro que tenho há mais de um ano mas nunca tinha tomado coragem de ler porque está em francês. Pois bem, semestre passado precisamos escolher um livro para fazer uma apresentação oral no curso de francês e voilà, tomei coragem e comecei a enfrentar a fera. E que fera. O livro em questão é "La vielle à roue dans la musique baroque française" e eu estou boquiaberto com o mundo de informações e curiosidades que esse livro traz. Se você toca viela de roda, saiba: vielistas deveriam falar francês só para ler esse livro.

Se trata na verdade de uma tese de doutorado escrita por Paul Fustier, que tenta explicar o porquê de, no curto período que vai 1725 a 1765 a viela de roda sair das ruas e passar a ocupar um lugar de prestígio dentro da corte francesa. Toda a questão do livro gira em torno da viela de roda ter sido um instrumento-símbolo de uma vida campestre idealizada e romatizada pela corte, uma ideia inspirada no mito da Arcádia; e uma tendência que acabou gerando um certo modismo vazio e até mesmo fútil. O livro é brutalmente enorme, porque ele trata de absolutamente TUDO relacionado à viela, o pensamento da época em relação ao instrumento, sua origem, o impacto que essa "era dourada" causa nos tipos de músicos que encontramos, nos luthiers, nas obras etc 

Eu terminei de ler semana passada um capítulo que tenta explicar o porque da associação entre vielas de roda e mendigos (em sua maioria cegos); e eu adoraria falar disso aqui em algum momento, não duvidem. Porém, o capítulo que comecei a ler essa semana me parece mais interessante de forma geral, já que trata da atração/estranheza que o instrumento gerava nas pessoas naquela época, coisa que até hoje é uma realidade. Aliás, realidade da qual eu e você, se estiver lendo isso, somos vítimas. =)

Deixo aqui uma tradução livre da introdução desse capítulo. Foi feita quase às pressas e as figuras que acompanham o texto foram gooogladas por mim, sendo as únicas que encontrei. Gostaria de poder ter acesso a mais imagens, mas realmente são coisas muito específicas. No mais, as danças macabras às quais o texto faz alusão são painéis ou quadros (às vezes afrescos) retratando a morte dançando com uma série de diferentes personagens da sociedade medieval. Aparentemente essas danças tinham como intuito retratar a igualdade de todos perante a morte. Algumas obras que são citadas ficam boiando para nós, já que: 1) minha tradução não é profissional e eu me confundi na sintaxe 2) não existem imagens online de tais obras.

Enfim, eis o texto. Espero que curtam. =)

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Capítulo 6
A infiltração imaginária
6.1 Um instrumento misterioso para quem o vê ou escuta

Aquilo de misterioso que é associado ao personagem do mendigo cego poderia muito bem entrar em ressonância com certas características da viela de roda bem suscetíveis a produzir uma impressão de inquietante estranheza, segundo a expressão de Freud que nós já citamos.

Estranho objeto que frequentemente incorpora a forma de um navio a velas (as vielas em formato de alaúde), que é um instrumento de teclas como o cravo, com a diferença de ser quase um instrumento de arco como o violino - ainda que a madeira do arco não tenha crinas e entre diretamente em contato com as cordas -  e que não se trate de um arco propriamente dito, já que é uma roda. E finalmente, cheio de contradições, ainda é utilizado como instrumento de percussão. Entendemos que aquele que o vê ou escuta é de primeira intrigado e sempre desejará saber <<como funciona>>, como se fosse decifrar algum tipo de mistério inquietante e atraente.

Este instrumento também é estranho porque vem do universo medieval do modalismo e é utilizado, no período barroco, para tocar a música tonal, ainda que os bordões tentassem impossibilitar completa ou parcialmente os tons, gerando alguma dissonância.

A roda é um arco. Esta é, então, circular como a representação de uma volta sem fim. Eliade à enxergará como a figuração de um tempo cíclico, anti-histórico, aquele das civilizações do eterno retorno.
A parte que nos interessa do Jardim das Delícias, de Bosch. 

Musicalmente, a roda fará com que o som não cesse jamais, e que o silêncio seja impossível. De fato, parar a roda seria parar os bordões; produzindo então um vazio brutal, um desaparecimento de um espaço musical, uma ausência e não um silêncio. O vielista não saberia se conter, a menos que ele de fato terminasse <de tocar>. Veremos que a viela pode despertar o atraente e assombroso dentro do seu movimento sem fim; esse movimento circular que outras culturas utilizam devido a seu efeito hipnotizante.

Eu diria que essa é a do Soldan, mas também podeira ser a que se encontra em Sion.
O site realmente não ajudava e eu fiquei sem saber. A ideia, porém, é essa.
A iconografia nos confirma que a viela de roda podia fascinar por seu mistério. Sonhamos com a utilização que Jérôme Bosch faz do instrumento na sua representação de universos fantásticos; sonhamos com as imagens de vielas que encontraremos em certas danças da morte. Citemos as que Georges Kastner traz à tona: a viela é associada a um dos quatro esqueletos-músicos presentes no manuscrito 7310 da Biblioteca Nacional da França. A encontramos também nas mãos de uma velha mulher vestindo uma cornette e que toca no meio dos esqueletos-músicos no icones mortis de Holbein. Ela aparece nas diversas representações do instrumento que podemos ver na Danse du grand Bâle, uma dança macabra de mulheres do fim do século XV que está no manuscrito 995 da Biblioteca Nacional de Paris, folio 24. A morte, também carregando uma viela de roda, acompanha Adão e Eva expulsos do paraíso numa placa de chaminé feita por Philippe Soldan em 1573. 

Painel La Chaise de Dieu
Datando da mesma época, também pensamos na dança macabra do painel La Chaise de Dieu, em que vemos um instrumento em formato de alaúde. Há também aquele reproduzido por Wilkins, do século XV ou XVI - aproximadamente da mesma época. E não podemos esquecer do conhecido quadro de Breughel, Le Triomphe de la mort. Citemos por fim aquela obra, que se encontra em Sion, na Suíça, representando o demônio armado de uma viela, provavelmente no momento em que Adão e Eva são expulsos do paraíso.

Le triomphe de la mort - Breughel (viela no canto inferior esquerdo, na carroça)
Falta consideramos se este aspecto perturbador da viela de roda explicaria o estranho comentário feito pelo Duque de Luynes. A rainha, Marie Leszczynska, não tocaria jamais esse instrumento às sextas-feiras, dia de penitência. Ainda que o praticasse nos outros dias da semana. “Apenas às sextas a rainha não toca a viela, mesmo em sua casa. É uma antiga prática de devoção.”



Referências feitas no texto:

ELIADE, Mircea.  Le sacré et le profane, 1957, tr.fr. Paris, Gallimard, 1965.
Kastner, Georges. Les danses des morts, Paris, Brandus, 1852.
Wilkins, Nigel. La musique du diable, Sprinmont en Belgique, Mardaga éditeur, 1999.

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Por favor, saibam que essa tradução foi feita de forma completamente despretensiosa, apenas para vocês terem uma ideia da riqueza de informações que esse livro nos traz. É interessante ver que mesmo lá atrás a viela de roda já era um instrumento estranho e apaixonante. Aliás, também podemos dizer que era um instrumento polêmico, já que dividia opiniões.

Logo volto com mais novidades sobre nosso exótico instrumento em terras brasileiras, ok? 
Muita coisa rolando por aqui. 

Vielisticamente,