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domingo, 30 de março de 2014

A Mão Direita

Imagem tirada do livo La Vielle Et L'univers de l'infinie Archet, do Valentin Clastrier

Se há uma coisa na qual todos os vielistas concordam, esta coisa é a dificuldade da técnica da mão direita. Ela é complicada porque precisamos fazer pequenos movimentos (golpes) com a palma da mão fechada, utilizando tanto a palma da mão em si como o polegar, gerando aquele bzz bzz característico da viela, que leva o som do instrumento a um outro nível, realmente. Eu nunca imaginei a importância que a forma como eu seguro uma maçaneta teria em minha vida, e se você está lendo isso, eu imagino que também seja o seu caso.

Pois bem, esse assunto é complexo, porque  - NEWSFLASH - cada músico, no final das contas, encontra o seu jeito mais confortável de acomodar sua mão na maçaneta, atingindo um melhor controle do instrumento. Bom, isso quer dizer, basicamente, que o seu jeito de executar os coups de poignet (golpes de pulso, na tradução literal) vai depender de: 1) o tamanho de sua mão 2) o tamanho da sua maçaneta (isso soa estranho, sorry) 3) o tamanho da roda do instrumento (já que isso afeta a circunferência onde os [a princípio] quatro pontos da roda se encontram.

Para ser sincero, eu não tenho a menor pretensão de dar uma aula de coup de poignet aqui, porque ainda estou aprendendo e porque a internet nos oferece grandes mestres abordando o assunto de maneira didática através de vídeos informais ou vídeo-aulas como a famosa Zanfona Sen Palabras, do Oscar Fernandez ou as aulas do Alexis Vacher, para os francófonos. Então depois de pensar bastante, achei que o mais válido seria falar da minha experiência pessoal com a Tobie Miller, porque suas aulas foram realmente um divisor de águas nessa minha estrada; e embora eu ainda não esteja da forma ideal, eu já entendi por onde seguir para chegar onde quero.

Bem, antes de mais nada, para aqueles que ainda não estão 100% familiarizados com a relação entre a manivela e o trompette, segue uma foto:

Hurdy-Gurdy Method, da Doreen Muskett
Existem esses quatro pontos principais da roda, pontos que podem ser "acionados" através de leve golpes que damos na maçaneta da manivela para gerar um som extra no instrumento. Esses pontos são fundamentais para colorirmos certas músicas; e cada ritmo musical (bourrée, scottish, valsa, polka etc) vai exigir uma combinação mais ou menos diferente de golpes. Por exemplo, num bourrée, os pontos 1 e 3 seriam seu ponto de partida, já que uma vez que estejamos à vontade tocando a gente pode incrementar esses golpes, e usar e abusar de suas intervenções. É quase como se estivéssemos tocando dois instrumentos ao mesmo tempo. =)

Anotações by Tobie Miller (Y)
Também é bom notar que nós vielistas geralmente usamos uma notação específica para praticar apenas os coups, e essa notação é 90% das vezes baseada apenas em números, principalmente porque muitos vielistas vem do universo folk/trad, e não necessariamente sabem ler/escrever música. Claro que se você sabe ler partitura a coisa fica mais fácil, porque estamos o tempo todo lidando com divisão de tempos e pausas, como vocês podem ver na foto ao lado. De qualquer forma, não sou o maior leitor de música que vocês já viram (eu sou bem emperrado, na verdade), e para quem acha que não tem muito ritmo pegar os golpes de vista/ouvido pode ser um bom exercício, e foi justamente assim que comecei a internaliza-los nesta última viagem que fiz à Basilea.

Tobie me ensinou primeiro o Bourrée de la Plaix, e já nessa música percebi o padrão através do qual eu deveria estudar. É uma espécie de rotina que usamos nas músicas que trabalhamos enquanto estive em Basel, a saber:

1) Antes de mais nada, aprenda a melodia. Seja de ouvido, seja lendo a partitura; aprenda de modo que você consiga tocar sem precisar ler. Sabe quando você toca algo tão naturalmente que consegue falar e tocar ao mesmo tempo? Nem eu, mas é por aí.

2) Uma vez que a melodia esteja bem internalizada, vamos deixar a mão esquerda descansar e focar na mão direta. Apenas na direita, faça o ritmo que a melodia pede. No meu caso a primeira música que trabalhamos era um bourrée, então eu teria que trabalhar com os pontos 1 e 3, basicamente. Algo meio 1,  1-3, 3-1, 1-3  (ummm * um-três  * trêsummmm * um-três), como numa valsa. Depois a coisa ficou um pouco mais complexa, mas não cabe aqui porque isto é um blog. Talvez lá pra frente, num vídeo. 

3) Agora você deve cantarolar a melodia que aprendemos no passo 1, enquanto gira a manivela no ritmo desejado. Faça isso exaustivamente, novamente, de modo que você consiga faze-lo sem pensar muito no fato de estar fazendo duas coisas distintas ao mesmo tempo. Essa é, provavelmente, a parte mais importante desse processo.

4) Finalmente, toque a melodia acompanhada do ritmo. Vale a pena diminuir um pouco a velocidade num primeiro momento, para que tudo se encaixe de forma não muito afoita.

Esses quatro passos foram seguidos a risca por mim, e a Tobie me deixava quanto tempo fosse necessário neles. Me lembro de uma aula em que estávamos trabalhando outra música, no caso um pouco mais complicadinha, e  fiquei tanto tempo nos passos 1, 2 e 3 que tivemos que deixar para terminar no dia seguinte.

Na verdade, essa é a chave do mistério: repetição. Você precisa fazer de novo e de novo e de novo, até atingir aquilo que quer. Tobie me mostrou que é possível fazer isso com calma, porque é uma questão de tempo, mesmo.

Um ponto importante para mim foi como o meu ponto 1 na roda - e provavelmente o de todo mundo - tem que ser muito bem medido, dependendo do ritmo que quero tocar. No bourrée, por exemplo, meu 1 podia ser mais livre, não precisa ser muito controlado. Já numa scottish, ritmo que nos permite usar os quatro pontos da roda, o meu 1 tinha que ser bem curtinho, para que eu tivesse tempo de chegar no ponto 2 com espaço suficiente para faze-lo soar e, consequentemente, chegar no 3 e no 4. Entendem como isso pode ser complicado? Pois é.

Outra coisa fundamental e life chaging foi a noção da roda da viela como uma roda no ar. Tentem imaginar a roda como um círculo girando no ar, diante de você. Você obrigatoriamente tem que passar por todos os pontos dessa circunferência, a cada revolução. Isso exige uma certa memória/noção de espaço, para saber exatamente em que ponto a sua mão está passando em cada nota da música. É essa noção de totalidade que a Tobie me passou e abriu um mundo de possibilidades.

Os coups não são nenhum mistério, os pontos estão todos ali, a gente só precisa achar a nossa própria forma natural de toca-los durante uma música. Eles estão ali para te servir, para embelezar sua música. Seu dever, consequentemente, é poder aciona-los sempre que quiser.  =)


Vielisticamente,

Rique

terça-feira, 6 de novembro de 2012

O Subestimado Algodão


Uma das peculiaridades da viela de roda (e uma que tende a assustar muita gente), é a manutenção quase que diária do instrumento. Se engana quem pensa que basta pegar o instrumento e tocar como se não houvesse amanhã. Acreditem, além de ter que checar a afinação a cada vez que formos tocar, devemos nos certificar de que a roda possui a quantidade certa de resina e de que as cordas possuem a quantidade correta de... algodão.

Isso é estranho, de fato, já que a gente não imagina que num universo tão peculiar como o da viela de roda a gente precise se preocupar com isso. E sério, eu mesmo nunca pensei que algodão se tornaria uma coisa tão importante para minha vida musical. Acho que aceitei esse fato quando me olhei no espelho dia desses e vi, casualmente ENROLADO em meu cabelo, um pequeno tufo de algodão.

Pois bem, lidar com algodão para hurdy-gurdy não é o fim do mundo, mas também não é ridículo... Antes de mais nada, temos que saber que tipo de algodão vamos utilizar, e este é o algodão hidropônico (cultivado por meio de hidroponia, até onde sei um cultivo fora da terra, em recipientes com água e soluções nutritivas), ou algodão cardado. Como o algodão para as cordas da viela devem ter fibras longas, já ouvi de diferentes fontes  - todas confiáveis - uma dica um tanto inusitada: pode-se utilizar o algodão encontrado em.... o.b. (sim, absorventes). Não julguem. Não sei quem tem teve essa brilhante ideia; e sinceramente, estou bem com o algodão que utilizo. Aliás, você deve estar se perguntando de onde vem este algodão e como eu o adquiri.

Estou há pouco mais de um ano lidando com a viela e já comprei e ganhei diferentes pacotes de algodão. Alguns comprados pela internet, outros comprados por pessoas diretamente em fábricas de tecido ou produtores de algodão... Enfim, acreditem, o fato é que por mais que você o utilize, o algodão dura por muito tempo, então vale a pena investir um pouquinho mais e comprar logo um caminhão o suficiente para pelo menos dois anos.  Particularmente falando, todos os meus pacotes me foram dados, assim, de graça mesmo. Acho que é um ato normal no mundo da viela de roda, luthiers e vielistas, sempre que possível, darem um pouco de algodão para seus colegas. =)

De qualquer forma, o site Hurdy-gurd crafters vende pacotinhos a US$ 3,00, enquanto o Neil Brook oferece uma alternativa (ele está sempre inventando moda, e digo isso no melhor sentido) para quem quiser testar novos elementos. Outra alternativa válida que encontrei foi via a Gurdypedia

Então podemos ver que adquirir algodão específico para seu instrumento é sim, muito fácil. A grande manha, no fim das contas, acaba sendo aprender como aplicá-lo. Por isso vou deixar aqui um vídeo tutorial em que Neil Brook explica direitinho passo a passo:


Sim. Isso faz um barulho horrendo. Você se acostuma.

Bem, eu realmente sinto muito por não postar eu mesmo um passo a passo da aplicação do algodão, mas a verdade é que isso acaba sendo um processo que envolve prática, ouvido, calma e sim, intuição - quase instinto; de modo que ver alguém pratica-lo é fundamental.

No mais, não esqueçam que algodão não é tudo. É necessário encontrar o equilíbrio perfeito (ou o mais próximo disso) entre a quantidade de algodão e a quantidade de resina, tópico do próximo post.

Dúvidas, questões, reclamações, correções e porque não, elogios, favor comentar aqui embaixo. =)

Até logo,


Rique


quarta-feira, 20 de junho de 2012

A Hora do Pesadelo: teclas emperradas



Se há algo que eu aprendi nesses poucos meses em que tenho estudado viela de roda, é que instrumento mais fresco está para nascer sons estranhos vivem rolando quando estamos tocando. Além das cordas, algumas variáveis com as quais temos que fazer malabarismo afetam o som diretamente, então precisamos estar atentos a mil coisas antes, durante e depois de tocar. Primeiramente, temos o algodão que envolve as cordas (mais sobre isso depois), mas não podemos deixar de lado a resina que passamos na roda (líquida ou sólida - como a dos arcos dos violinistas) e muito menos um fator que tendemos a ignorar: a madeira.

A viela é madeira pura, praticamente. Sendo assim, ela está inevitavelmente vulnerável às mudanças de clima, temperatura e umidade. Esse era um dos meus maiores medos quando trouxe ela de fora do Brasil. Imaginem só, deixar o outono galês, enfrentar mudanças de pressão devido aos vôos e ainda parar no Brasil, em pleno verão carioca. Complicado... Mas ainda assim, sobrevivi, e a viela também, que se comportou muito bem até o verão começar a se esvair. (sendo que eu sempre - SEMPRE - soube que mais cedo ou mais tarde a umidade ia voltar e me dar um belo chute no traseiro. Pois é, esse dia foi hoje.)

Mas não posso reclamar porque fui devidamente avisado a respeito do efeito da umidade na viela, principalmente no que diz respeito às teclas. Entretanto, antes de qualquer coisa, tenhamos em mente que o ato de tocar uma viela exige que empurremos a teclas para cima; e elas, por sua vez, voltem aos seus lugares devido seguindo a gravidade, sem esforço algum. Por conta disso, elas precisam estar soltas e leves em seus espaços, deslizando mesmo, de modo que, visto "de cima", na posição de tocar, a caixa de teclas fique assim:


Até aí, tranquilo, eu imagino. Essa visão inclusive nos auxilia no início da prática, já que podemos ver que teclas estamos acionando e como elas retornam às suas posições de origem.

Contudo, uma vez que a umidade entra em ação, as alterações nessa maciez das teclas é palpável, então é comum que algumas teclas passem a emperrar, levando um tempinho maior para retornarem às suas posições. Quando isso acontece, nossa primeira reação é praticar todo nosso repertório de palavrões ficarmos tensos, preocupados e o pior: sem saber como proceder.

Pois bem, a primeira coisa a se fazer é manter a calma. Vielas são instrumentos temperamentais e extremamente sensíveis a qualquer tipo de mudança, então a situação é natural e previsível.

Passado o pânico, você vai precisar de poucos itens: duas lixas para madeira (uma grossa e uma mais fina, para acabamento) e um lápis 6B (ou grafite em pó).

Uma vez que a tecla problemática for localizada, nós abrimos a caixa de teclas e marcamos com um lápis a posição de suas tangentes. Isso é estritamente necessário, já que vamos retirar a tecla e tratá-la (sim, ouço seus gritos daqui e sinto muito) e colocá-la de volta. Certifique-se de que as tangentes, uma vez fora da caixa, permaneçam na mesma disposição, ou seja, não confunda aquelas que pertencem à primeira fileira, com as da segunda. Cada uma deve voltar ao seu lugar.

O importante é manter a calma e saber o que está fazendo. As teclas são simples e geralmente escuras, então preste muita atenção para não apagar as marcas das tangentes, pois são elas que te guiarão na hora de botar tudo de volta em seu lugar. Também redobre a atenção na hora de retirar a tecla. Com muito cuidado, puxe a tecla aos poucos, já que muitas delas são muito próximas umas das outras e qualquer movimento brusco pode alterar a configuração de uma tecla vizinha.

Com a tecla em mãos, o que devemos fazer é procurar por partes mais brilhosas em sua superfície. São elas que estão em contato maior com a caixa de teclas, fazendo com que a tecla emperre no momento de voltar à sua posição. Estes pontos mais lustrosos podem estar nos lados e/ou nas partes de cima e de baixo. Pode ser também de que você localize apenas um ou dois desses pontos. Isso vai depender de muitas coisas, então nesse momento você só tem que localizar o "brilho" extra, como na tecla que tirei hoje e que você vê neste post.

Agora sim o trabalho começa, passamos a lixa mais fina aos poucos, depois passamos a mais grossa, também com calma, até a madeira voltar a ficar mais fosca. Faça isso de forma homogênea, com a lateral da ponta do lápis, e com cautela para não danificar o corpo da tecla. Uma vez que o brilho tenha ido embora, podemos aplicar o grafite nestas mesmas partes e também nas outras. Ou seja, cobrimos com grafite as partes que ficam mais em contato com a caixa de teclas. Isso deve deixar a tecla novamente deslizando sem problemas através da caixa. Depois é só colocar a (s) tecla (s) de volta na caixa, aparafusar as tangentes de acordo com as marcações feitas e voilá: seu gurdy está de volta. =)

É claro que estes passos são aconselháveis para teclas que não estão emperrando tanto. Algumas vezes elas podem ficar realmente presas, aí o melhor a se fazer é pegar um pequeno ... erm... raspador de madeira? E tirar muito (mas muito!) POUCO da área mais lustrosa da tecla. Essa foi a forma que o querido e inesquecível Chris Allen me ensinou, mas se mostrou necessária apenas em uma das minhas teclas, e uma que eu mal uso, que é a penúltima. Nas outras duas teclas em que precisei trabalhar, esses passos com a utilização da lixa (sugestão do grande Augusto Ornellas) foram mais do que úteis, me deixando bem satisfeito.

E é isso, boa sorte com suas teclas e logo estou de volta para tratar do pesadelo algodão que utilizamos em nossas cordas.

;-) See ya,

Rique

terça-feira, 29 de maio de 2012

Livros \o/


Daí que apesar de uma galerinha achar que a viela é um instrumento ridículo de se tocar - a doce ilusão de apenas girar uma manivela e sons maravilhosos surgirem no ar - há toda uma técnica por trás dela e pasmem, até métodos "oficiais" existem! Claro que não pretendo tratar de toda a bibliografia técnica da viela aqui, neste post. Vou introduzir, entretanto, alguns dos livros mais básicos e indispensáveis para quaisquer seres que pretendam entrar no fantástico mundo da viela de roda.

O primeiro é o Hurdy-Gurdy Method, de Doreen Muskett. Ela no momento não é mais uma vielista ativa, devido ao mal de Parkinson , que a atingiu =/, mas seu marido, Micheal, ainda toca e participa ativamente do mundo da viela. 

Apesar de ter sido lançado há uns bons anos (a primeira edição é de 1979), ele é uma das bíblias de todos os vielistas, contando com um pouco da história do instrumento e focando na técnica do mesmo. Nele você encontra algumas peças tradicionais com notação específica para viela, ou seja, uma notação voltada para os golpes da manivela, que também são trabalhados ao longo dos exercícios. É tudo muito didático, então o livro traz fotos, gravuras, gráficos... Vale muito a pena. Fora o charme de algumas sessões, como uma voltada para a symphonia e outras gentilmente escritas com o intuito de nos guiar na hora de adquirirmos - e até construirmos! - uma viela. Bem, acho que é bem claro que este livro por si só já é uma luz na vida de um vielista, certo? Mas não paramos por aí.

Na época em que eu estava desenrolando com o Chris para comprar a minha Lyanna (conto a origem do nome em outra ocasião), ele fez questão de que eu comprasse também um outro livro, este tão importante que já vem em três línguas (alemão, francês e inglês) ao mesmo tempo. O livro em questão se chama La Vielle (ou Die Drehleier/The Hurdy-Gurdy), escrito pelo luthier amador e músico, Philippe Destrem. 

Confesso que até hoje não tive tempo de sentar e mergulhar neste livro para valer, mas deixo claro que apesar de também se tratar de uma bíblia para nós vielistas, ele existe puramente para questões de manutenção do instrumento (e isso o torna tão fundamental quanto oxigênio, fikdik rs). Soa meio massante, não nego; e é um livro estranho no sentido em que cada página tem o mesmo conteúdo repetido três vezes, em línguas diferentes. No fim das contas, entretanto, isso acaba sendo o de menos, já que não estamos falando de um livro que pegamos para ler por horas e horas, como um livro de danças Francesas que descobri há algumas semanas:

"It's a festival!"

Achei este livro por acaso, mal lembro como... Se não me engano, soube de sua existência ao visitar o site do luthier que está por trás do livro, o Mike Gilpin (um senhor muito gentil e prestativo, aliás). O livro traz 126 tunes tradicionais francesas da região de Morvan (o que é ótimo porque a minha afinação [D/G] é muito comum na frança); e eu apoio o uso cada centavo neste investimento. As tunes são muito legais: bourrées, branles, polkas, mazurkas, marchas, valsas... Um tesouro.

Claro que sabendo procurar na web (a lista de links aqui no blog é um bom começo) você encontra milhares e milhares de partituras (fora os vídeos e as músicas para aqueles que, como eu, tocam de ouvido também). Sem contar os inúmeros sites que tem surgido nos últimos anos com todas as informações necessárias para nos mantermos vivos com o instrumento.  É algo bonito de se ver, esse revival, mas ainda assim, somos músicos que tem uma forte conexão com o passado (eu deveria falar só por mim, mas quem se importa?), então duvido que vocês não gostem da ideia de abrir um bom e velho livro na estante e tocar/ler algo com cheirinho de papel. 

Por hora é isso. Ainda estou pesquisando no meu próprio ritmo essas questões bibliográficas, então mais para frente volto a citar alguns livros que possam servir como guias nessa jornada estranha e apaixonante, ainda tão nova para mim. 

E vamos ser sinceros, qualquer jornada é mais emocionante se temos livros ao nosso lado. =)


terça-feira, 15 de maio de 2012

Além da Roda - A Viela e Suas Partes

A Cabeça e as cravelhas
E nem só da roda vive a viela.

O monte de coisa acontecendo no ato de tocar uma  viela de roda faz com que aqueles que a vêem pela primeira vez sigam por dois caminhos:  inferir que o mecanismo é mais simples do que realmente é ou achar que tudo é absurdamente complexo - novamente, mais do que a coisa realmente é. Tendo essas visões extremistas em vista, vou tentar explicar aqui de forma geral o que acontece com a viela, suas partes principais e seu mecanismo mais básico. Isso vai ser interessante porque não há uma terminologia oficial na língua portuguesa para todas as partes deste instrumento, então vamos trabalhar com algumas traduções pensadas por mim e pelo querido amigo, o vielista (e também gaiteiro) Augusto Ornellas.

A imagem que abre o post mostra a cabeça seguida de seis cravelhas. Vocês podem inferir que são as cravelhas que seguram as cordas, certo? Se não, tudo bem. É ali que amarramos as pontas de cima das cordas, amarradas também lá depois da roda, no cavalete, como um violino mesmo.

Um dos "F's" da viela
Aliás, a viela de roda em si é como um violino mecânico: temos uma caixa oca (o corpo da viela), uma alma, pequeno cilindro de madeira que fica lá dentro e canaliza a vibração para que o som deixe a caixa através de dois pequenos espaços (os F's no tampo harmônico).

Cordas melódicas, ré 4 (à esquerda), e sua oitava, à direita.
Bem, as cordas, uma vez presas, podem ser acionadas (tiradas de uma pequena suspensão, aqueles ferrinhos ali dentro <<<) de modo a estarem em contato com a roda, que é posta em ação por uma manivela. Algumas vielas mais modernas possuem outros tipos de mecanismos para acionar as cordas, mas isso não vem ao caso no momento. Na imagem ao lado, o que vemos são as duas cordas principais, estas são as chanterelles (ou cantoras, como ouvi meu amigo Augusto Ornellas chamá-las certa vez). Elas são responsáveis pela melodia, ou seja, são afinadas em oitava (no caso da minha, em Ré Maior) e são acionadas pelas tangentes, movidas ao pressionarmos as teclas.
Teclas e suas tangentes
Além das cantoras, temos as cordas que ficam acima acima e abaixo da caixa de teclas. São os bourdons ou drones (são os bordões e não sofrem alteração em sua altura, ou seja, produzem o tempo todo a mesma nota, como os drones de uma gaita de foles); e aqui todos produzem a nota ré em diferentes alturas.

Respectivamente os grande e pequeno bordões,
seguidos pelas cordas simpáticas.
Abaixo do teclado temos bordões fundamentais. A corda mais grossa se trata do bordão grave - ou grande bordão - (gros bourdon, também em ré), abaixo da qual temos mais um ré, desta vez uma oitava a cima (porém uma oitava abaixo da cantora mais grave), chamado de pequeno bordão (petit bourdon). Abaixo destes, como podem ver, existem quatro cordas mais finas, que são as cordas simpáticas. Elas não são acionadas por nada além da vibração, e estão aí para soarem quando você parar de girar a manivela. A afinação delas varia muito de músico para músico. Às vezes são afinadas em quintas, às vezes estão todas fazendo a mesma nota etc.

Vale dizer que o grande bordão não costuma ser muito usado, embora eu não saiba dizer ainda exatamente o porquê. Ainda assim, seu tom grave - que, aliás, é uma corda de cello - encorpa o som de uma forma absurda.

Acima da caixa ou teclado (pense no instrumento em seu colo, com as teclas para baixo) temos mais duas cordas extremamente importantes: o trompete ou corda rítimca (trompette) e a mouche (que seria um bordão barítono, e que em francês significa mosca), esta por sua vez afinada uma quarta ou quinta abaixo do trompete. A corda em questão, para a minha viela, que é em ré, seria um sol. É a única corda que foge de ré (com exceção das simpáticas, dependendo do instrumento).

Da esquerda pra direita: o trompete e a mouche
O porquê de a corda que faz uma quarta ou quinta com o trompete se chamar "mosca", nunca saberemos, creio eu. Entretanto, o trompete tem este nome por uma razão bem específica e audível: ela não é apenas uma corda, mas sim parte de um sistema de percussão próprio da viela de roda.

Trompete e cão
(poético ;-] )
A corda em questão é conectada por uma pequena cordinha (a tirante, que é ajustável) a uma pequena peça, o cão (a tradução literal do francês chien, nome proveniente de seu formato), um pequeno cavalete apoiado no tampo da viela, mas não completamente preso à mesma. Ao enfatizarmos nossa força através de pequenos golpes no manípulo, o cão é acionado, saltando e gerando uma espécie de som percussivo - como um bz bz bzzz - muito característico. Este som é muito (muito rs) utilizado dentro da tradição francesa. E estes golpes seguem toda uma técnica baseada na divisão de pontos na circunferência percorrida pela manivela.

Manivela e Manípulo

In a nutshell, o que vimos até aqui foi: As cordas melódicas (dois rés, em oitava), o trompete, o bordão barítono (um a 5ª ou 4ª abaixo do trompete), o grande bordão e o pequeno bordão - ambos em ré - e as cordas simpáticas.

Vale lembrar que esta configuração diz respeito ao meu instrumento, que está na afinação de Ré/Sol Maior. Para as vielas em Dó/Sol, as melódicas ficam geralmente em sol, em uníssono (podendo às vezes serem afinadas em oitavadas). Já o trompete fica em sol, a mouche em dó, e os outros bordões em sol novamente. Algumas alterações nesta configuração pode e deve ser feita, caso o músico queira tocar em sol ou em dó.

Eu sei que à primeira vista a quantidade de informações beira o absurdo, mas creio que isso aconteça com qualquer instrumento, ainda mais algo inusitado e insólito como a viela de roda é para muitos. Espero que este post seja apenas um primeiro glimpse do mundo técnico da viela, sobre o qual ainda estou aprendendo muita coisa (e o farei por um bom tempo, ainda bem ;-]).

Aproveito para pedir desculpas por não fornecer melhores informações sobre a configuração Dó-Sol; e agradeço imensamente ao Augusto Ornellas por sua paciência e ajuda nas minhas pesquisas.

Até a próxima,

Rique