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quarta-feira, 7 de maio de 2014

Busk in Basel: meus últimos dias na Suíça



Marktplatz num dia sem feira, minha esquina
está ali naquela árvore.
Os casacos e os chapéus pomposos que se moviam dentro da loja já não me intimidavam tanto. A loja de jóias onde eles se encontravam, bem em frente ao meu banco, estava sempre cheia. Era bem pequena, na verdade. Logo ao meu lado havia uma carrocinha onde um simpático senhor vendia amendoim torrado, e nossa esquina terminava na Marktplatz, uma praça linda onde uma feira gastronômica ocorria bem em frente à câmara municipal. Era um prédio vermelho, muito característico. O cheiro do amendoim era perfeito porque todo mundo que parava para comprar seu pacotinho era obrigado a ouvir o som daquele instrumento ali.

Pouco importa se era uma quarta, quinta ou sexta-feira. Aqueles eram alguns dos meus últimos dias ali e o frio era o mesmo; na verdade era até um pouco pior naquele cantinho, onde um vento cortante insistia em passar. O frio, que até então não havia me incomodado, começava a se fazer presente. Acho que era o nervoso de estar me expondo daquela forma. Escolhi aquele banco não só porque estava vago, mas também porque o outro que estava disponível havia sido o palco de um rapaz e seu acordeon nos outros dias em que passei por lá. O meu banco era também bem discreto, não me deixando no meio de uma praça ou em um local muito aberto em que eu pudesse pegar chuva. Numa cidade tão certinha, só pega chuva quem quer.

Em Basel há toda uma organização (oh, really?) com relação à arte feita nas ruas. Há normas feitas especificamente para os músicos, que devem mudar de localização após uma hora tocando, respeitando a distância de outros músicos e levando em conta os horários específicos para o busking. Ainda assim, cada cantinho tem o seu músico de cativo, pelo menos em determinado horário, o que é bem interessante. Lembro da moça tocando flauta transversa na porta de uma loja de perfumes, do senhor do leste europeu tocando saxofone perto de um Mc Donnald's - ele certa vez atravessou a praça só para me alertar sobre o horário e as multas que eu pagaria caso fosse pego - e lembro do carinha hippie tocando um violão muito velho e tosco numa travessa. Havia uma cumplicidade nos olhares que trocávamos, reconhecíamos a dor e o prazer do que estávamos fazendo (eles, obviamente, muito mais que eu). Eu queria ter conversado com todos, mas sou tímido demais para isso. É engraçado, na verdade Os músicos de rua são admirados por toda a ideia romântica que os cerca. São trovadores. Mas ái daquele que decidir isso para sua vida. É estranho e fascinante, no fim. Eu amei todas essas pessoas, mesmo eu não sendo músico de rua. Na verdade nunca o fui. Era tão óbvio que eu vinha de longe. Um dia um rapaz carregando um alaude me viu no ponto de ônibus e mal disfarçou seu olhar de mas quem é esse? E olha que ele era um dos músicos da Schola, e não um dos músicos que tocavam na rua.  Eu não estou acostumado a tocar sem meus companheiros de banda porque me sinto nu, extremamente exposto. Amo e talvez precise de meus amigos ao meu lado fazendo música comigo. Em Basel não foi diferente, mas o frio na barriga que me atingiu após eu ter conseguido o panfleto informativo para músicos de rua não me impediu de tentar. Mesmo que ninguém soubesse, aquela cidade pertencia a mim e minha viela, pelo menos por aqueles dias.

Baffusserplatz
O primeiro dia foi estranho, saí cedo, pouco antes do almoço e da minha aula, só para estudar e procurar meu futuro spot. Sabia que seria em uma praça porque praças são lugares onde as pessoas normalmente circulam. Ainda mais em Basel, em que esses espaços são efetivamente utilizados e explorados de todas as formas possíveis e imagináveis, nem que seja apenas para acolher uma obra de arte, como uma escultura ou o que for. Por puro comodismo escolhi a Baffusserplatz, uma espécie de centro da cidade por onde quase todos os bondes passavam inevitavelmente. Me pareceu um lugar promissor, então comecei por lá. Fazendo um som pro pessoal que estava indo para o trabalho, pra escola etc. Foi bem desconfortável porque meu banco estava meio molhado, e as pessoas não prestaram a menor atenção. Eu já esperava por isso porque né, estamos falando de uma cidade extremamente cool. A cidade onde encontramos a maior escola de música antiga do mundo. Eu já imaginava que por lá a viela de roda não fosse ter um impacto muito grande. Percebi isso no dia em que vi um cara pegando o bonde, casualmente carregando o estojo épico de um theorbo como quem carrega um violãozinho nas costas. Oh, well. Fiquei um pouco lá, bem frustrado e obviamente ignorando o óbvio. Eu estava tão preocupado com o que iam pensar de mim, tão assustado com os olhares dos adolescentes, me perguntando se achariam graça, que esqueci de sentir o que eu estava tocando. Eu estava com medo de passar a maior vergonha quando o foco deveria ter sido sentir o que tocava. 

Mas Basel me inspirava a andar. Aliás, Basel me inspirava. Ponto. Com ou sem o estojo da viela nas costas, eu subia e descia suas vielas (no pun intended), fuçava cada vitrine e tirava foto de cada detalhe. Após algumas muitas idas e vindas da casa da Tobie, pude achar meu banquinho em frente à joalheria quase que por puro acidente. Então estava decidido, no dia seguinte, após meu tempo de estudo em casa, eu voltaria ali. 

Comecei tímidamente, porque estamos falando de uma cidade extretamente antiga, mas ainda assim, como disse, cool de uma maneira moderna. É quase uma cidade hipster, se pararmos para pensar na quantidade de nacionalidades que circulam por lá e na harmonia com a qual os jovens e os mais velhos se misturam naquele ambiente. Inspirado por esta energia boa e acolhido por um cantinho mais obscuro de suas ruas, comecei com tunes em sol porque os bordões soam bem e não ficam tão altos (eu não queria chamar atenção de ninguém). Para minha surpresa, logo se aproximou uma mãe com duas crianças e ela, da forma mais fofa da face da terra, mandou seu filho mais novo (um bebê!) vir até meu estojo e colocar no mesmo dois tímidos francos suíços. Meu dia já tinha sido decretado um sucesso ali. O sorriso no meu rosto só foi quebrado minutos depois, quando um casal francês - diretamente da Bretanha - me abordou. Me elogiaram bastante e ficaram atônitos quando falei que vinha do Brasil. Com uma viela que veio, por sua vez, de Gales. Jamais saberei ser gringo. Me senti um alien.

Além dessas pessoas fantásticas, outras dezenas passaram e deixaram suas contribuições, fossem elas um sorriso, uma pergunta, uma moeda ou apenas uma foto tirada de mim e minha Lyanna. Isso significou tanto para mim. Mas tanto. Acho que o sentimento de estar fazendo o que mais amo tão longe de casa, numa esquina qualquer daquela cidade, é algo que ainda não consigo colocar aqui. O frio nos meus dedos já não existia mais. A timidez, a insegurança, o medo, nada disso importava naquele momento. Era eu e minha viela ali, fazendo música numa cidade que é nada mais nada menos que arte.

A sensação que eu tinha é que tudo o que eu vivi a vida inteira teve que ser como foi para que eu estivesse exatamente ali. A viela é a viela em qualquer país, pensei.  A paixão que ela desperta aqui é a mesma que ela desperta lá, por mais que um ou outro na Europa a conheçam como vielle à roue ou ghironda.

Após ser alertado pelo meu companheiro do outro lado da praça, eu nem procurei outro ponto para tocar. Apenas peguei alguns trocados dos francos que faturei, comprei um café e fui andar pela beira do Reno. Fiquei quase duas horas por lá, apenas andando, já tentando me despedir de tanta coisa ao mesmo tempo. Tocar na rua para mim nunca foi uma questão de ganhar dinheiro. Eu queria apenas consolidar minha existência nessa cidade que me tocou de tantas formas, retribuindo tanta magia e tanto encanto vividos por um mês.

Me sentir em casa mesmo estando do outro lado do oceano é algo raro para mim. E nada naqueles prédios soava estranho. Nada naquelas ruelas, nada naquelas fontes de dragão soava estrangeiro. Suas pontes, seus moradores, seus bondes e seus músicos de rua, tudo, tudo, tudo, convivia de forma harmoniosa aos meus olhos. Ter estudado com a Tobie Miller, cuja paciência e o profissionalismo deixaram resultados permanentes em minhas mãos, foi algo indescritível. Ter participado da session também. Ter ido ao topo da Europa, subido montanhas descomunais que passavam por vales e sentir que olhei nos olhos de Deus... Nada vai me fazer esquecer nada disso.

E sabe de uma coisa, a viela é meu instrumento mesmo. E eu afirmo isso porque há uma imagem que não sai da minha cabeça, que é a imagem de mim mesmo sentado no banco do conservatório em que estudei no dia da prova de admissão. Lembro de ver um rapaz um pouco mais novo que eu tocando Bach divinamente, de uma forma tão energética que deveria ser inspiradora. A inspiração, nesse caso, nunca veio. E tudo o que eu pensava naquela tarde era que eu nunca seria assim. Era meio que uma sensação de perder um jogo antes mesmo de começar a jogar.

Não existe isso aqui com minha viela. Eu voltei para o Brasil feliz justamente porque a cada vez que vejo um grande músico deixar uma viela em chamas, eu sei que não é uma questão de se, mas sim uma questão de quando eu tocar assim. E eu acho isso o máximo. =]

Meus dois francos estão guardados para sempre.

Basilea no fim da minha última tarde por lá

sábado, 12 de abril de 2014

Mais da Suíça: session épica e o Bourrée D'armes


No meu primeiro dia de aula com Tobie Miller, a expectativa era grande. O medo também. Estar de cara com alguém que sabe tanto quanto ela pode ser assustador; e ainda que um professor não vá ser ríspido com um aluno particular, o medinho de parecer muito menor de uma maneira negativa me perseguia.

Claro que tudo correu bem, e eu deixei a aula não só animado com a perspectiva de aprender cada vez mais, mas também com um convite super, super, super, SU-PER chique: participar de uma session que rolava vez ou outra lá em Basel.

Direto de 2011 - Session em Dublin
Antes de mais nada, devo dizer que Tobie é casada com o grande Baptiste Romain, que além de um  talento em instrumentos como o violino (medieval e renascentista), lira de braccio e gaita de fole medieval (acredito que bretã), é também professor de música medieval. Pois bem, Baptiste tem uma aluna de gaita de fole que promove uma session que agora não sei dizer se é mensal ou não, se tem uma regularidade ou não. Fato é que no dia de minha primeira aula, a tal session rolaria e Tobie e Baptiste estariam lá. Óbvio que aceitei o convite; e ainda tive a pachorra de aparecer por lá com minha viela nas costas.

Minhas experiências com sessions sempre foram positivas. Na Irlanda, na França e aqui mesmo no Brasil, sempre conheci músicos muito amáveis, que claramente estavam ali por razões que iam além do que apenas tocar. As sessions tradicionais em que toquei sempre se mostraram encontros estranhamente formais e solenes, um encontro de pessoas que amam demais aquilo que está para ser tocado. Em Basel não foi diferente, mas de fato senti uma atmosfera mais séria.

Irish Session Rio
Cheguei debaixo de uma chuvinha fina, super tímido e meio perdido, já que o estabelecimento, se era ou foi alguma vez um bar, havia sido drasticamente modificado. Digo isso porque me deparei com uma sala completamente vazia, sem nada além de uma grande mesa (com alguns petiscos, algumas velas e algumas garrafas de vinho) e algumas cadeiras para os músicos. Com músicos, óbvio. Que me encararam com um ar que não sei até agora se era de "Wtf?", ""Olha, que legal, mais um!" ou "ah, então este é o brasileiro." Fiquei atônito demais com o gigante contrabaixo acústico preto para me preocupar com isso. Me apresentei, dei um oi a todos e tratei de tirar minha viela do saco, o que gerou uma ondinha de  "ohhh"'.

Eu estava muito tenso, porque de vielistas havia apenas eu e Tobie. Havia três moças no violino, dentre elas uma senhora muito, mas muito fofa. E todas elas tocavam num estilo tradicional que não era irlandês, mas sim bretão. Na conversa do dia seguinte Tobie insistiu no fato de a session não ter sido categoricamente bretã, já que rolou um pouco de tudo: música medieval, danças inglesas, francesas, irlandesas etc. Mas ainda assim, gente. Para quem vem do Rio de Janeiro aquilo foi uma session bretã maravilhosa e eu morri.

Num certo ponto da session, quando eu revezava minha atenção entre (tentar) acompanhar algumas tunes e responder as questões de uma senhora ao meu lado (Rique, o E.T. amigo diretamente do Rio de Janeiro com uma viela, vocês não tem ideia.), a anfitriã da session e aluna do Baptiste jogou na mesa um audível "e você, não vai tocar nada?". Tá ok que em sessions sempre rola um certo climão no ar toda vez que uma tune acaba, né. Há uma expectativa a respeito de quem vai puxar alguma coisa. Bom, nesse momento o climão me pareceu mais forte. Senti um calorzinho e desenterrei um bourrée que aprendi nos primeiros meses de viela de roda, pegando umas tunes num livro de danças tradicionais do Morvan, região montanhosa da França. Mandei essa tune de forma arriscada, não sei mesmo de onde ela saiu. Só sei que Baptiste prontamente me seguiu com sua gaita de fole, e logo depois um dos violinos entrou. Nesse momento achei fofo, esse apoio. Estava morrendo de medo de estar tocando algo claramente descontextualizado, ou sei lá, gente, vai que o raio do Morvan é uma região detestada por todos e eu estivesse causando um certo desconforto. (juro que o overthinking chegou nesses níveis)

Daí que na segunda repetição da tune todos, eu disse TODOS da sala estavam tocando e eu fiquei completamente arrepiado. Minha vontade era de chorar. Na terceira e quarta (!!!) repetições um casal (um senhor do violão e uma das moças do violino) se levantou e simplesmente começou a dançar os passinhos de dança tradicional. Meu sorriso bobo disfarçou bem, porque por dentro eu estava gritando YOU GUYS JUST DON'T UNDERSTAND aos prantos, mas me segurei e me joguei naquele momento. Fiquei tão tocado, mas tão tocado. Lembro de quando aprendi essa bourrée sozinho aqui no meu quarto, sem ter ideia do que eu e minha viela tínhamos pela frente.

Foi realmente uma noite memorável, uma das mais especiais que vivi. Ninguém no mundo vai entender. Nunca. Agora só falta uma session quase puramente vielística aqui no Brasil. E eu quero sentir a mesmíssima coisa novamente. =)


Para ouvir um pouco do Bourrée em questão, clique no link abaixo, que foi o único que encontrei.


Vielisticamente,

Rique

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Basel's Music Museum


Ano passado eu já havia visto algumas vielas maravilhosas na Cité de la Musique, em Paris. Foi uma grande tarde em que pude curtir até mesm o som de um erhu tocado ao vivo. Esse ano, como vocês sabem, fui atrás de mais vielas, mas lá em Basel; e esses tesouros atrás de mim estão lá, no Music Museum, um espaço modesto e bem simples, mas que guarda tesouros incalculáveis.

A tarde que passei lá foi maravilhosa, e o número de instrumentos que pude ver de perto, inacreditável. As salas eram separadas não só por períodos, mas por grupos de instrumentos. Então existia uma sala para violões, uma para violinos (quase morri), outra para flautas e por aí vai. Surreal. Abaixo, algumas fotos:


Eu sabia o nome disso. Juro.


Tambores tradicionais no caranval de Basel

Mais manivelas...

A parte das vielles era realmente bem limitada, mas não estou reclamando. Construtores como Pajot e Jean Louvet estavam ali diante de mim; e seus instrumentos, ainda irresistíveis. Não preciso dizer que fiquei babando horas por  essas vielas. Eu saía, dava um ~rolezinho~ pelo museu, fingia que estava interessado numa exposição sobre a historia do Rock n' Roll que estava rolando por lá e voltava para babar mais. 

Trombas Marinas
Além das vielas, pude babar um pouco nas trombas marinas (trompette marine). Esse inusitado instrumento que soa como um verdadeiro E.T. aos nosso ouvidos é um priminho distante da viela de roda, no sentido em que seu mecanismo é exatamente o mesmo do trompette da viela: há uma pequena peça de madeira que fica parcialmente solta no tampo do instrumento que, ao entrar em contato com a corda e responder a vibrações, emite um som bem característico. 

Nesse vídeo aqui (em português!) Carlos Ramos fala um pouco do instrumento.

Aparentemente a tromba marina teve seu auge no século XV, mas teria surgido séculos antes, derivando de um objeto de estudo musical para monges estudavam as distâncias e escalas. 

Nos resta saber se o nosso bom e velho trompette da viela recebeu esse nome por conta da semelhança entre os sons ou se isso se trata apenas de uma mera coincidência. De qualquer forma, fica o singelo registro desse dia tão especial para mim. =)

Aqui está o site do museu, para quem se interessar.

Vielisticamente,

Rique

domingo, 30 de março de 2014

A Mão Direita

Imagem tirada do livo La Vielle Et L'univers de l'infinie Archet, do Valentin Clastrier

Se há uma coisa na qual todos os vielistas concordam, esta coisa é a dificuldade da técnica da mão direita. Ela é complicada porque precisamos fazer pequenos movimentos (golpes) com a palma da mão fechada, utilizando tanto a palma da mão em si como o polegar, gerando aquele bzz bzz característico da viela, que leva o som do instrumento a um outro nível, realmente. Eu nunca imaginei a importância que a forma como eu seguro uma maçaneta teria em minha vida, e se você está lendo isso, eu imagino que também seja o seu caso.

Pois bem, esse assunto é complexo, porque  - NEWSFLASH - cada músico, no final das contas, encontra o seu jeito mais confortável de acomodar sua mão na maçaneta, atingindo um melhor controle do instrumento. Bom, isso quer dizer, basicamente, que o seu jeito de executar os coups de poignet (golpes de pulso, na tradução literal) vai depender de: 1) o tamanho de sua mão 2) o tamanho da sua maçaneta (isso soa estranho, sorry) 3) o tamanho da roda do instrumento (já que isso afeta a circunferência onde os [a princípio] quatro pontos da roda se encontram.

Para ser sincero, eu não tenho a menor pretensão de dar uma aula de coup de poignet aqui, porque ainda estou aprendendo e porque a internet nos oferece grandes mestres abordando o assunto de maneira didática através de vídeos informais ou vídeo-aulas como a famosa Zanfona Sen Palabras, do Oscar Fernandez ou as aulas do Alexis Vacher, para os francófonos. Então depois de pensar bastante, achei que o mais válido seria falar da minha experiência pessoal com a Tobie Miller, porque suas aulas foram realmente um divisor de águas nessa minha estrada; e embora eu ainda não esteja da forma ideal, eu já entendi por onde seguir para chegar onde quero.

Bem, antes de mais nada, para aqueles que ainda não estão 100% familiarizados com a relação entre a manivela e o trompette, segue uma foto:

Hurdy-Gurdy Method, da Doreen Muskett
Existem esses quatro pontos principais da roda, pontos que podem ser "acionados" através de leve golpes que damos na maçaneta da manivela para gerar um som extra no instrumento. Esses pontos são fundamentais para colorirmos certas músicas; e cada ritmo musical (bourrée, scottish, valsa, polka etc) vai exigir uma combinação mais ou menos diferente de golpes. Por exemplo, num bourrée, os pontos 1 e 3 seriam seu ponto de partida, já que uma vez que estejamos à vontade tocando a gente pode incrementar esses golpes, e usar e abusar de suas intervenções. É quase como se estivéssemos tocando dois instrumentos ao mesmo tempo. =)

Anotações by Tobie Miller (Y)
Também é bom notar que nós vielistas geralmente usamos uma notação específica para praticar apenas os coups, e essa notação é 90% das vezes baseada apenas em números, principalmente porque muitos vielistas vem do universo folk/trad, e não necessariamente sabem ler/escrever música. Claro que se você sabe ler partitura a coisa fica mais fácil, porque estamos o tempo todo lidando com divisão de tempos e pausas, como vocês podem ver na foto ao lado. De qualquer forma, não sou o maior leitor de música que vocês já viram (eu sou bem emperrado, na verdade), e para quem acha que não tem muito ritmo pegar os golpes de vista/ouvido pode ser um bom exercício, e foi justamente assim que comecei a internaliza-los nesta última viagem que fiz à Basilea.

Tobie me ensinou primeiro o Bourrée de la Plaix, e já nessa música percebi o padrão através do qual eu deveria estudar. É uma espécie de rotina que usamos nas músicas que trabalhamos enquanto estive em Basel, a saber:

1) Antes de mais nada, aprenda a melodia. Seja de ouvido, seja lendo a partitura; aprenda de modo que você consiga tocar sem precisar ler. Sabe quando você toca algo tão naturalmente que consegue falar e tocar ao mesmo tempo? Nem eu, mas é por aí.

2) Uma vez que a melodia esteja bem internalizada, vamos deixar a mão esquerda descansar e focar na mão direta. Apenas na direita, faça o ritmo que a melodia pede. No meu caso a primeira música que trabalhamos era um bourrée, então eu teria que trabalhar com os pontos 1 e 3, basicamente. Algo meio 1,  1-3, 3-1, 1-3  (ummm * um-três  * trêsummmm * um-três), como numa valsa. Depois a coisa ficou um pouco mais complexa, mas não cabe aqui porque isto é um blog. Talvez lá pra frente, num vídeo. 

3) Agora você deve cantarolar a melodia que aprendemos no passo 1, enquanto gira a manivela no ritmo desejado. Faça isso exaustivamente, novamente, de modo que você consiga faze-lo sem pensar muito no fato de estar fazendo duas coisas distintas ao mesmo tempo. Essa é, provavelmente, a parte mais importante desse processo.

4) Finalmente, toque a melodia acompanhada do ritmo. Vale a pena diminuir um pouco a velocidade num primeiro momento, para que tudo se encaixe de forma não muito afoita.

Esses quatro passos foram seguidos a risca por mim, e a Tobie me deixava quanto tempo fosse necessário neles. Me lembro de uma aula em que estávamos trabalhando outra música, no caso um pouco mais complicadinha, e  fiquei tanto tempo nos passos 1, 2 e 3 que tivemos que deixar para terminar no dia seguinte.

Na verdade, essa é a chave do mistério: repetição. Você precisa fazer de novo e de novo e de novo, até atingir aquilo que quer. Tobie me mostrou que é possível fazer isso com calma, porque é uma questão de tempo, mesmo.

Um ponto importante para mim foi como o meu ponto 1 na roda - e provavelmente o de todo mundo - tem que ser muito bem medido, dependendo do ritmo que quero tocar. No bourrée, por exemplo, meu 1 podia ser mais livre, não precisa ser muito controlado. Já numa scottish, ritmo que nos permite usar os quatro pontos da roda, o meu 1 tinha que ser bem curtinho, para que eu tivesse tempo de chegar no ponto 2 com espaço suficiente para faze-lo soar e, consequentemente, chegar no 3 e no 4. Entendem como isso pode ser complicado? Pois é.

Outra coisa fundamental e life chaging foi a noção da roda da viela como uma roda no ar. Tentem imaginar a roda como um círculo girando no ar, diante de você. Você obrigatoriamente tem que passar por todos os pontos dessa circunferência, a cada revolução. Isso exige uma certa memória/noção de espaço, para saber exatamente em que ponto a sua mão está passando em cada nota da música. É essa noção de totalidade que a Tobie me passou e abriu um mundo de possibilidades.

Os coups não são nenhum mistério, os pontos estão todos ali, a gente só precisa achar a nossa própria forma natural de toca-los durante uma música. Eles estão ali para te servir, para embelezar sua música. Seu dever, consequentemente, é poder aciona-los sempre que quiser.  =)


Vielisticamente,

Rique

sexta-feira, 14 de março de 2014

Basilea e Tobie Miller: primeira aula


Esse ano escolhi estudar com a Tobie Miller não apenas por ela ser ~A Tobie Miller~, mas pelo fato de se tratar de uma musicista que chegou na viela de roda através da música antiga - isso quer dizer, de certa forma, que ela é alguém que chegou ao instrumento pela veia mais "erudita" da coisa; e não pelo mundo da música folk/tradicional.

Ano passado, quando estive com o Laurant Bitaud, lembro de ser diariamente liberado do "fardo da tradição" por ele, que cismava que por eu ser brasileiro eu teria a liberdade para fazer o que eu quisesse com o instrumento. Eu até gosto (muito) desse discurso, mas a verdade é que para a gente ir contra uma tradição temos conhece-la a fundo e saber, de fato, a que estamos nos opondo.

A caminho da aula, dragões. #Khaleesi
Fato é que não é esse o meu propósito. Amo a música tradicional e, mal ou bem, meu foco é esse. É pelo menos uma fonte da qual procuro beber constantemente e esse ano, na verdade, isso pouco importou.

Em relação a tradições e à nossa liberdade artística, com a Tobie o buraco é mais embaixo as coisas são um pouco diferentes. Eu já imaginava que alguém do mundo erudito seria mais firme em relação a estudos (não me levem a mal, conheço mil pessoas do mundo trad que são extremamente disciplinadas e não deixariam de estudar por um dia sequer. beijo, Kevin, meu amigo e colega de banda) e no fim das contas, apesar de ter aprendido MUITA coisa com o Laurent, era exatamente disso que eu precisava: alguém que não se importasse com o fato de eu ser ou não parte de uma tradição, alguém que não estava muito ligado no fato de eu ser fluente na linguagem em questão ou não. O foco da Tobie era apenas me fazer tocar e deixar os movimentos da minha mão direita tão naturais quanto os da esquerda. Percebi isso logo no nosso primeiro encontro. Aliás, nessa minha primeira aula eu cheguei super assustado e fingindo que não tinha chegado na vizinhança 30 minutos antes do horário marcado. Se já sou awkward no Brasil, imagina na Suíça. Ainda assim, foi tudo maravilhoso, superando minhas expectativas.

Saber quem alguém é através de vídeos e depois conhecer pessoalmente já é, por si só, uma experiência interessante. Conhecer e admirar alguém de vídeos do youtube por anos e depois ter aulas na casa dessa pessoa, do outro lado do planeta, beira a surrealidade. Tobie foi super solicita e amistosa, literamente uma fofa, com suas pantufas e sua voz baixinha (e sim, ela parece uma pintura barroca que ganhou vida). E nosso primeiro encontro, apesar de suas curiosidades sobre minha viagem e minha história. foi quase todo voltado para o set up do meu instrumento, que tinha acabado de voltar de um reparo.

Magic happens.
There's no reason for you not being able to play a note. Foi o que ouvi quando falei que pensava que não conseguiria nunca executar certas notas mais agudas. A Tobie me dava uns dados assim, com um ar que no fundo, no fundo, parecia dizer oh, you poor summer child... ahaha Mas o que me deixou mais impressionado nela não foi nem a destreza de suas mãos, nem a sua didática maravilhosa, mas sim a atenção dada aos detalhes. A precisão dela em reconhecer e encontrar problemas no meu som era bizarra, sem mais. 

Eu tocava uma nota e ela sabia se o que faltava era algodão, resina, pressão da corda na roda ou - pasmem - a espessura do vão por onde a corda passa. No cavalete. Sério, como assim? Fiquei boquiaberto quando ela simplesmente foi cortando, colando e lixando pontinhas de palitos de dente para deixar o vão do meu cavalete mais estreito para a chanterelle aguda. E foi exatamente o que resolveu alguns, ou melhor, todos os meus grandes problemas.

A viela de roda tem dessas coisas, né. Cada um toca um instrumento feito por uma pessoa, com cordas diferentes, resina diferente, algodão diferente e medidas diferentes. Quantidades, manias, estilos... Tudo influencia o som e não há regras no sentido estrito da coisa. É muito legal ter estado ao lado de alguém tão lúcido e sagaz no que diz respeito à manutenção de uma viela. E a dica fica para vocês: nem sempre dobrar papelzinho embaixo da corda dá jeito. A técnica do palitinho foi um achado, porque tentei de tudo nessa vida: papel, cartolina, plástico... E nada funcionava. Além disso, é praticamente um fato que depois que a coisa é feita você nunca mais vai precisar passar por isso novamente. 

Outro ponto interessante foi ver que a resina que ela usa no algodão das cordas dela é em pó (da pirastro, podem porcurar). Confesso que eu ia morrer sem saber que isso existia, e é muito útil porque desta forma a resina é seca sem ser em pedra (não danifica a roda); e utiliza-la não é tão perigoso para a madeira como a resina líquida. (falando em resina, a Tobie fabrica sua própria resina líquida, triturando a resina em pedra e misturando ao álcool. Ok que não é uma necessidade porque podemos comprar, mas ainda assim! I mean. Badass.)

No fim das contas, nosso primeiro encontro se resumiu a deixar o som da minha viela mais apresentável (o que de fato ocorreu) e a começar o ritmo de bourrée na mão direita.  E falamos sobre o equilibrio entre presão, resina e algodão. Foi bem, bem, BEM esclarecedor.

S2
Resumindo: Tentem a resina em pó, por favor! E prestem atenção na forma pela qual as cordas estão atravessando o cavalete. Vez ou outra, não conseguimos o som que queremos das cordas cantoras por causa de algodão e resina, mas no meu caso, minha cantora aguda não estava soando tão bem porque estava muito solta no cavalete. Vale realmente a pena dar uma olhada em sua viela e ver como é a pressão da corda na roda. Me parece que para as cordas agudas, menos pressão (na medida certa, é claro) facilita muito a vida, já que o som não fica arranhado e tudo parece mais leve - o som, principalmente.

Vou dedicar meu próximo post somente ao que eu e Tobie falamos e fizemos sobre a mão direita, utilizando a boa e velha "notação numérica" (1, 2, 3 e 4) para se referir aos pontos da roda.

Até logo, então. ;-)

Vielisticamente,

Rique

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Freiburg e o Resgate de Lyanna


Ir à Suíça por causa da viela de roda foi provavelmente a coisa mais sábia que eu poderia ter feito enquanto vielista. Saber disso no meu primeiro dia de viagem, contudo, não foi possível. E nem vou entrar nessa onda ~misteriosa e circular~ e dizer que eu acho que certas coisas estão destinadas a acontecer dei sorte. Vou sim falar da Basiléia e de tudo que aquela cidade me trouxe nos próximos posts, então por hora vou apenas contar para vocês o que rolou depois de eu ter me deparado com uma fucking rachadura no fundo da minha Lyanna.

Chorar teria sido a reação mais natural, e eu juro que eu quis chorar, de verdade. Mas nem isso consegui. Fiquei sentado no meu banquinho, no meio de Heathrow, me sentindo sem chão. Não tive reação nenhuma, e só depois de mais de uma hora é que eu levantei e fui procurar um lugar para dormir.

#PartiuFreiburg
Uma vez no hotel, pude inspecionar a rachadura e tudo que eu podia pensar era que ela tinha sido causada pela mudança temperatura, elemento que não deveria ter tido esse impacto, por mais forte que fosse. Depois pude confirmar que de fato o reparo feito nela antes de eu compra-la não havia sido feito da melhor forma possível. Enfim, um pouco mais tranquilo (prêmio Nobel de ser humano mais tranquilo para mim PRA ONTEM obg) e tentando raciocinar, escrevi para a minha professora tentando manter a calma. Tobie Miller, sábia que é, me disse que na Suíça em si eu não encontraria nenhum luthier, mas que o mais próximo estava "ali na Alemanha", há exatos 40 minutos da Basiléia (viva a Europa, que é do tamanho do meu bairro). Okay, then foi tudo o que eu pude dizer. Então mal cheguei à Basiléia e fui até Freiburg ver o que poderia ser feito.

Mais uma vez esse instrumento lindo me fazendo madrugar e pegar uma penca de ônibus e trens até um remoto lugar. Dessa vez a coisa foi um pouquinho mais tensa. Precisei ir até a estação de trem alemã da Basiléia, já que de lá as passagens eram mais baratas. Eu só não contava com o fato de ninguém falar nem inglês nem francês por lá - falei em inglês anyway porque né? O que eu podia fazer? - E civis me ajudaram porque a galera da cabine de informações nem sinais queria fazer. risos.

Bom, se tem uma coisa que aprendi nessa vida vielística é que luthiers nunca nunca nunca nunca NUNCA moram onde eles dizem morar. Gales não quer dizer Cardiff, França não quer dizer Paris e... Freiburg não quer dizer Freiburg, mas sim:

Uma "cidade" de três ruas há 20 minutos de Freiburg. Sério.

Daí quer dizer: leso que sou, ainda levei um tempo para encontrar o que procurava (uma loja de pianos) e pasmem, ela realmente existia, e era linda! Pois bem, nos fundos do terreno da loja, nas últimas salas do último prédio (risos), estava o atelier do Sebastian Hilsmann, indicação da Tobie Miller. Cheguei lá super desconfiado, porque ele não é muito popular, mas como situações extremas exigem medidas extremas (não sei usar o ditado popular rs), e como aparentemente todos os luthiers de viela do planeta vivem em obscuros locais de difícil acesso, eu fui. E gente, como valeu a pena. Assim que entrei eu já fiquei impressionado com a quantidade de madeiras espalhadas pelos corredores do prédio, vi desde enormes pedaços de troncos até finíssimas tábuas. Havia uma sala de violinos, provavelmente de outro luthier, e só encontrei as salas do Sebastian por causa de uma discreta plaquinha no fundo de um corredor aleatório.


Sebastian foi super atencioso, tratou de fuçar o instrumento todo, e disse que de fato a temperatura fez a madeira ceder. Por outro lado, como eu havia desconfiado, isso só aconteceu porque quem a reparou antes o fez meio que às pressas, aparentemente. Então Sebastian disse que eu precisaria deixa-la lá (EM OUTRO PAÍS) por dois dias, para que ele pudesse consertar de vez o corpo do instrumento, tirando a roda (I know) e utilizando algo que deixasse o corpo dela estável por dentro também. Fui pra casa com o coração na mão, e fiz o favor de pegar um trem errado que começou a me levar para os fucking Alpes por engano - mas isso não vem ao caso.

Passar um dia inteiro longe da viela foi mais fácil do que eu imaginei; provavelmente porque eu sabia que eu precisava disso. Ao mesmo tempo, eu não sabia se xingava muito no twitter por algo tão escroto chato ter rolado, ou se agradecia ao universo por isso ter se passado com a gente num momento em que eu podia ir a um profissional. De qualquer forma, voltei em Freiburg e o resultado, meus amigos, foi mágico. O som ficou muito mais consistente, muito mais encorpado, então fiquei mais do que satisfeito, fiquei feliz e seguro. Lyanna sobreviveu e está muito bem, gordinha e alta para cacete soando melhor que nunca.

Meu aniversário é dia 23 de Setembro. obg
Para coroar esse pequeno susto da porra que levamos, algo muito legal: enquanto esperava o Sebastian, tive a oportunidade de ver um pouco de seu trabalho, que é verdadeiramente apaixonante e minuciosamente bem pensado. Pude tocar no seu modelo Largo - uma viela mais grave, muito linda e irresistível e ver de perto outras dependências de seu atelier. As possibilidades de tons, texturas sonoras e combinações em suas vielas é descomunal. Realmente seguindo a linha dos grandes luthiers contemporâneos, seus instrumentos nos oferecem cavaletes reguláveis, capos,  um sistema de cravelhas super confortável e trompettes para todos os gostos. Fora o sistema de captação, que te abre um UNIVERSO de possibilidades. Quero chorar só ao lembrar.

Também quero chorar porque infelizmente não pude fotografar  muito. Fiquei sem graça (é o ambiente de trabalho dele, algo super pessoal, ainda mais se pensarmos que ele é um construtor de vielas de roda. Em Kirchzarten.), mas garanto que foi fantástico ver vielas e mais vielas em estantes, vielas de cores e tamanhos diferentes (havia uma verde!) e um aprendiz/ajudante que parecia um elfo perdido de algum RPG qualquer. Enfim, os minutos que passei com a viela Largo pareceram dias, fiquei realmente vidrado e por alguns minutos esqueci que eu tinha meu próprio instrumento. Alíás, foi interessante ver que o Sebastian ficou interessadíssimo em minha viela, por ser algo tão diferente para ele, por conta da afinação tipicamente francesa, a altura das notas e seu timbre. Nossa conversa foi extremamente enriquecedora.

Nesse dia voltei para a Basiléia com um sorriso de orelha a orelha, prontinho para ter minha primeira aula e ver se teria coragem de levar Lyanna às ruas suíças para descolar uma graninha, algo que acabei fazendo mais de uma vez e sobre o qual escrevei logo, logo, e bem feliz. Foi como se Londres nunca tivesse existido, e minha viela nunca tivesse precisado de ajuda. 

Sei lá, algumas coisas parecem TER que acontecer para que outras coisas cheguem até nós. E de fato eu sinto isso até agora. Os dias que seguiram foram alguns dos melhores de toda a minha vida musical, e de fato me fizeram ver que todo esforço vale a pena quando fazemos aquilo que amamos.

Para mais informações sobre esse talento secreto do mundo vielístico que atende por Sebastian Hilsmann, vocês podem visistar o site oficial dele aqui.

       

Vielisticamente,

Rique

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Next step: Basel

Basilea
Daí que eu juro que havia prometido pra mim mesmo que nesse ano que se aproxima eu sossegaria e ficaria na minha. 2013 foi um grande ano para mim e dona Lyanna. Rodamos a França em janeiro, voltamos, gravamos coisas, nos apresentamos e estudamos bastante. Além disso, vocês sabe como é, né, a pessoa fez letras e é músico e mimimi. Ela tem que sossegar em algum momento. Ou não. XD

Sabe quando você conhece alguém aleatoriamente? E sabe quando esse alguém é um mineiro muito gente fina, que é músico e tal (e né, dois músicos quando se juntam não sabem ficar quietos, e o papo rola solto). Pois bem:

Conheci um rapaz muito legal no carnaval, assim que cheguei de viagem. Conversa vai, conversa vem, em pleno carnaval, o primeiro PAM da história: ele trabalha com música antiga, e leciona canto numa escola de música antiga (duh) na Suíça. Estava no Brasil de férias curtindo um pouco o carnaval e revendo a família. Mais conversa vai e mais conversa vem e PAM [2]: descobrimos que ele é colega de uma vielista que admiro muito e que trabalha com música barroca na mesma escola que ele: Tobie Miller. Dude, Tobie Miller, que para quem não sabe é uma verdadeira diva eterna assumidade/virtuosa da viela de roda barroca. Eu já via coisas sobre ela antes mesmo de comprar a minha viela... Sua história é interessante não só porque ela é uma das poucas vielistas que chegaram ao instrumento através de uma formação sólida em música antiga (e não através da música folk) mas porque toda sua formação é erudita e vem de família - Tobie tocava violino também, e hoje se divide entre a viela, a flauta doce e o canto, tocando em diferentes ensembles e trabalhando com pessoas do calibre de Matthias Loibner, fora seu trabalho como professora dentro e fora da Schola Cantorum Balisiensis.

Pronto, bastou esse meu rápido papo de algumas horas com o Victor para mais um passo ser dado na trajetória desse ser estranho que vos escreve. Uma plethora (finalmente uma desculpa pra usar essa palavra rsrsrsrssssss) de nights a serem trocadas por noites em claro assistindo séries dentre as quais estão Downton Abbey (não quero falar sobre isso por motivos de: estupros) , Homeland, The Good Wife, The Walking Dead (aliás deixo aqui meu CONGRATU-FUCKIN'-LATIONS pro Rick babacão-fdp que expulsou a Carol mas fez pior que ela depois no mid-season finale, idiota imbecil parei) para que mais dinheiros fossem guardados para que eu pudesse cogitar outra viagem; dessa vez para Basileia, cidade aleatória e linda que faz fronteira com França e Alemanha, e para onde estarei viajando em breve.

Basi o quê? - Léia.
Alguns meses e pouquíssimas mensagens depois, voilà, estaria por vir mais um mês lá do outro lado do atlântico (e apesar de isso ser o máximo, eu sempre fico tenso por motivos de: aviões) girando a manivela e tentando aprender o máximo possível. O porém dessa vez, meus amigos, é que isso vai rolar num ambiente mais erudito e, quase consequentemente, mais rigoroso. UÉ HENRIQUE MEIRELLES, MAS VOCÊ NÃO FUGIU DO MUNDO ERUDITO? -S. VDD.

                                                           Mas quem resiste a isso?! 

Eu vivo mencionando a dicotomia chata e inconveniente que existe entre o mundo da música folk/popular e o mundo da música erudita, que sempre me pesou nas costas quando eu estudava violino clássico. Toda aquela atmosfera tensa de uma sala de concerto, todo aquele ar pomposo de superioridade e pedantismo, fora as caras e bocas e poses... Enfim, tudo aquilo que ia contra a minha ideia de música/arte/prazer sempre me incomodou, e crescer musicalmente na atmosfera folk tem sido uma experiência muito interessante porque pude ver que o problema nunca é a atmosfera musical em si, mas sim as pessoas. O que quero dizer é que no fim das contas acabei me deparando com esses mesmos drawbacks também no meu mundinho. Para variar, perdi o fio da meada, vamos lá:

Acho que devemos ter em mente que toda essa aura de realeza que emana do mundo erudito tem uma razão de ser. Suas peças podem ser incrivelmente mais complexas que a maioria das boas e velhas tunes, de forma geral, já que obviamente sabemos que tudo depende do músico que estiver executando a música. Relativismos à parte, uma coisa é certa: os meus anos de violino clássico em escolas e conservatórios fazem com que até hoje meus dedos atinjam os lugares que quero com mais precisão, e as horas consagradas a peças e escalas e mudanças de posição me renderam uma certa fluência que me é muito útil, de fomo que eu só tenho a agradecer aos meus últimos professores - ambos apaixonados pelo período barroco -  que de fato me fizeram crescer mais que meus professores desse lado da moeda.


A ironia por trás desse post se dá quando o foco cai sobre a viela de roda e vemos que apesar de carregar uma história muito, mas muito mais longa que a do violino que conhecemos hoje, seu quase desfecho foi imensuravelmente mais trágico. Enquanto o violino seguia seu caminho para o topo da "cadeia alimentar" coroando orquestras e arrastando multidões para as salas de concerto, a pobre viela, apesar de seu rápido boom no século XVIII, ficou com os mendigos cegos da Europa risos teve um quase-fim um pouco menos feliz.

Analisando a sua história a gente pensaria que a tradição que o instrumento traz seria muito mais pesada, mas a verdade é bem outra. Tudo parece mais leve quando falamos de vielas e vielistas, e eu pude ouvir mais de uma vez um dos ícones da "França vielística" mandando que eu ignorasse a tradição e fizesse o que eu queria fazer, porque música é prazer, é liberdade e eu nada teria a ver com uma tradição que só serviria de amarras. Bom, que fique claro que quando ele dizia "tradição", ele se referia à tradição folclórica da região central da França. De fato entendo que há uma linguagem a ser seguida em cada estilo e eu respeito isso, mas no fim acredito que um sotaque nativo não te garante boa comunicação, e tenho isso como fato. Por isso guardei o conselho do Laurent no coração com muito carinho e tento lembrar dele sempre que me dou conta do quão irlandês ou caipira eu ainda não soo. 

Por outro lado, justamente por não negar minhas origens e por reconhecer a importância que o mundo erudito teve em mim, decidi mudar um pouco o rumo da minha trajetória vielística e encarar essa tortura (rsssss) que vai ser estudar ao lado da Tobie e sua bagagem erutida em Basileia. Se houve um período em que a viela de roda ganhou status de um instrumento legítimo, esse período foi o Barroco. Inúmeros compositores (dentre os quais se encontram Mozart e Vivaldi, ok?) escreveram para a viela, métodos foram criados e um verdadeiro boom de luthiers veio à tona nas cortes de Louis XIV e Louis XV, graças a utópica ideia de volta aos costumes campestres e à simplicidade dos campos. Claro que depois da revolução tudo isso mudou e a viela foi mais uma vez deixada aos campos, mas o repertório daquela época ficou; e aquilo que foi construído em volta do instrumento permaneceu para nós e com certeza é uma grande fonte de técnica e diferentes visões e abordagens - principalmente em relação a maldita mão direita, que na música barroca não para quieta risos.

Bom, fato é que nunca estive mais animado. Primeiro porque a Suíça é um país sobre o qual eu mal pensei na minha vida - nunca me chamou muito a atenção. E segundo porque a cidade em questão - Basileia, Basel, Bâle - é um lugar sobre o qual jamais ouvi falar e tem um nome super sonoro (/random).

Mais uma vez a viela vai me levar a outro mundo, e mais uma vez aquele friozinho na barriga vem chegando e aumentando a cada dia.

Que venha a Basileia e tudo o que ela pude me oferecer.
Feliz 2014 a todos nós!

Vielisticamente,