sexta-feira, 21 de setembro de 2012

No Brasil: Raine Holtz - Through Waves


Não sei nem por onde começar este post. Acho que de todos os artistas/trabalhos abordados aqui no blog até agora, este é o mais denso em termos de informação, história e detalhes, a ponto de fazer da viela um mero coadjuvante do quadro geral. Devo dizer também que este é um  trabalho com o qual eu me identifico de forma um pouco mais forte por diversas razões pessoais. Por conta disso, fico até meio contrariado, já que para mim é muito claro que por mais que eu escreva, o verdadeiro valor dele não será devidamente transmitido.

Raine Holtz e alguns de seus intrumentos
Antes de mais nada, esclareço:  não se trata de uma banda, e sim de uma única pessoa, Raine Holtz, curitibano que começou seus estudos musicais no piano clássico e hoje é cantor e multi-instrumentista autodidata, tocando acordeon, harpa, flauta doce, algumas percussões étnicas e, mais recentemente, a viela de roda. Tudo isso em seu projeto independente que é muito, mas muito bem feito. De quebra, Raine me disse que está se preparando para adquirir um yangquin chinês, um bodhrán e um shenai indiano. Sim, é muita coisa. Mas tudo utilizado de forma muito sóbria e sensível.

Dono de uma voz interior musical muito distinta e direta, Raine se apaixonou pela viela de roda ao ver o virtuoso Nigel Eaton em ação há alguns anos: "É o som mais belo, o instrumento mais incrível e peculiar, tudo parece soar melhor com o hurdy-gurdy. Sou completamente fascinado por ele."

[2] foi tudo o que pude responder.

Seu trabalho, entitulado Through Waves, é um misto de sentimentos e cores profundas e, de uma forma muito bonita, tristes também. Algumas de suas canções me trazem uma saudade de algo que não sei o que é. Isso significa, ao menos para mim, que sua música atinge sentimentos muito antigos dentro de nós. É algo bem especial. Aliás, é justamente por conta dessa falta de nomes a sentimentos que eu gostaria de chamar a atenção de vocês para o vídeo da música Two Chapters, do terceiro disco [ Santuário ] deste interessantíssimo projeto, previsto para outubro:


Como comentei no último post, o conheci através do amigo Alex Navar, que provavelmente ciente da minha tentativa de "catalogar", encontrar e quem sabe - dentro do possível - unir a comunidade vielística do Brasil, me indicou o trabalho do Raine. 

A identificação foi quase que instantânea, não só pela viela em si, mas por toda a proposta que perpassa seu trabalho. Encontrar na música uma terapia pessoal é algo sobre o qual todo músico, de uma forma ou de outra, entende. Levar esta terapia a outros níveis mais profundos, por conta própria e de forma bem feita, já é outra história. E Raine faz isso de uma forma extremamente delicada e própria.

Androginia, ondas, sensibilidade, outono, magia, excentricidade e personalidade são alguns dos incontáveis elementos com os quais Raine faz malabarismo ao longo de sua jornada. Aliás, jornada essa que com certeza nos reserva muitas surpresas boas. Com direito à viela de roda fazendo música bonita e interessante aqui no Brasil. ;-)

Raine Holtz toca uma viela de roda em dó, modelo minuet, construída por Mel e Ann Dorries, nos Estados Unidos.


terça-feira, 11 de setembro de 2012

No Brasil - Updates em relação ao número de vielistas

Foto por Emmanoel Ferreira
Vocês não vão acreditar no dia que tive hoje graças aos milagres da internet... Mas antes, vamos lá: este post não tratará de apenas um assunto específico. Quero apenas contar as últimas novidades e preparar o terreno para o que vem por aí. 

Bem, recentemente tive a oportunidade de me apresentar com o Café Irlanda na Nerd Super Con, no clube israelita, em Copacabana. O show foi um verdadeiro sucesso. Aliás, a música considerada como o ápice da apresentação - abertura de Game of Thrones -  contava com a presença de Lyanna (meus instrumentos tem nome, me julguem) então fiquei bem feliz. ;-)

Daí que, passado isso, eu estava aguardando alguns assuntos para pauta, né? Não é como se o mundo dos hurdy-gurdies no Brasil pagasse fogo muito, então estava bem na minha, escrevendo sobre algodão e resina quando voilá, tive a brilhante ideia de entrar em contato com o Música Antiga da UFF para saber de vez quem toca a symphonia no grupo. Fui muito bem recebido pela Lenora Mendes, que me iluminou e gentilmente me explicou que eles não possuem apenas uma symphonia, mas sim TRÊS, sendo a dela a mais utilizada tanto por ela quanto pela Virgínia Van der Linder.

Fiquei muito contente com este esclarecimento e hoje cedo, após trocar pela primeira vez uma corda da minha viela (processo que foi bem fácil, por sinal), eu estava pronto para sentar e escrever quando o Alex (sim, famoso uillean piper carioca) me enviou uma mensagem falando que havia conhecido um rapaz de Curitiba que também toca viela de roda e cujo trabalho me agradaria. YAY, pensei. Mais uma vítima abduzida por esse instrumento fantástico. Mal entrei em contato com ele e volta o Alex para me avisar que um dos rapazes do Terra Celta também possui há pouco tempo uma viela. Quer dizer, em um único dia eu consegui fazer contato com mais duas almas aleatórias que agora são parte desse círculo. É muito bom ver isso acontecer. As pessoas precisam saber que existe muita música boa mundo afora, música tocada por instrumentos inimagináveis. Sons incríveis! Fiquei extremamente contente e prometo voltar logo para devidamente apresentar cada um deles com seus respectivos trabalhos. Por hora, contudo, gostaria apenas de divulgar o grupo que criei no Facebook com o intuito de reunir músicos, amantes, amadores e qualquer pessoa interessada na viela. Aproveito também para atualizar a pequena lista de vielas e vielistas em terras brasileiras:

Augusto Ornellas, em Brasília, DF - Viela feita por Jaime Rebollo (Galícia).
Domingos Sávio Lins Brandão, Belo Horizonte, MG - desconheço o luthier, mas desconfio que seja o Morillo (Argentina)
Lenora Mendes, Niterói, RJ - Symphonia construída por Kelicheck (Susato Intruments, EUA).
Virgínia Van der Linder, Niterói, RJ - Symphonias construídas por Kelicheck (Susato Intruments, EUA).
Rique Meirelles, Rio de Janeiro, RJ - Viela construída por Neil Brook (Lancashire, Inglaterra).
Raine Holtz, Curitiba, PR - Viela construída Mel e Ann Dorries (EUA)
Edgar Nakandakari, Londrina, PR - Viela construída Mel e Ann Dorries (EUA)

E nosso número está crescendo!  ;-)


terça-feira, 28 de agosto de 2012

Primeiro Encontro Nacional de Vielas de Roda


Então eu finalmente tinha meu instrumento e estava finalmente no Brasil. O próximo passo seria - também finalmente - entrar em contato com o único brasileiro que eu conhecia (e mesmo assim, de vista) que possuía uma viela: Augusto Ornellas.

Augusto é um grande conhecedor não apenas da música galega, mas do gênero world music de forma geral. Pianista em sua formação primeira, ele também toca gaita galega e ainda arruma tempo para sua zanfona (galego para viela de roda), instrumento também "resgatado" fora do Brasil. Exatamente. Augusto teve a oportunidade de buscar sua viela (ou zanfona) na Galícia, onde teve a oportunidade de conhecer e estudar com grandes músicos desse universo. Seu talento, por sua vez, é utilizado no Kalahamsa, projeto musical do qual faz parte em Brasília.

Antes de mais nada, devo dizer que o que o Augusto tem de inteligente e experiente, ele tem de acessível e prestativo. Logo de primeira ele ficou claramente interessado na minha história e em meu instrumento, se prontificando instantaneamente a nos ver em janeiro, quando estivesse no Rio. Foi nessa ocasião,  dia 5 de janeiro de 2012, que pudemos realizar, pela primeira vez no país, um encontro de vielas de roda.

As crianças socializando
Não me sentia muito à vontade com a ideia de nos encontrarmos na rua, já que seríamos apenas duas pessoas e os instrumentos chamam muita atenção. Por conta disso, nosso encontro histórico ocorreu na casa do uillean piper (também o único do Rio) Alex Navar (aliás, fica aqui um abraço ao Alex).

Bom, o resultado foi maravilhoso. Ainda que nossas vielas sejam em tons diferentes (a dele em Dó, a minha em Ré), conversar e tirar dúvidas com um vielista foi absurdamente reconfortante. Além de me ajudar a afinar as cordas simpáticas (cordas fininhas que ficam paradinhas perto do tampo do instrumento, vibrando em ressonância com as outras, criando uma espécie de eco), Augusto me trouxe trilhões de presentes especialíssimos: partituras, resina líquida para a roda, um DVD de manutenção gravado pelo Neil Brook (construtor da minha viela) e... Algodão. Muito algodão. Sim, você sabe que você vive uma vida diferente quando fica indescritivelmente eufórico ao ganhar um saco de algodão. Ou quando você pára em frente a um espelho e repara que há algodão em seu cabelo. Bem... Efeitos colaterais de ter um hurdy-gurdy.

Presentes! ;-)
Augusto ainda aproveitou o fim de semana para aparecer no ensaio do Café Irlanda, onde pudemos trocar ainda mais algumas ideias e tunes, além, é claro, de participarmos do segundo encontro nacional de vielas de roda.

E é por isso que deixo aqui essa pequena homenagem ao provável primeiro vielista de roda de nosso país. Deixo aqui também meus agradecimentos sinceros ao mesmo. Obrigado pelas dicas, pelos contatos (que não são poucos!) e pela paciência ao me socorrer online para tirar dúvidas e indicar soluções inesquecíveis para problemas que, de modo geral, só nós conhecemos por aqui. =)

Que venham os outros encontros, e que sejam com mais vielistas!

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

A Saga da Viela VII - Gales: terra de dragões... E hurdy-gurdies.

Gales: terra de dragões
Enquanto o avião descia pelas nuvens, a turbulência era absurda. Eu estava apertando os braços da poltrona, gelado. Foram dois anos trabalhando com mentalizações e e-mails (gordinha wicca mode: [on] - off) e agora sim, depois de toda aquela energia aplicada, o que eu mais soube esperar e desejar com força brutal estava finalmente se materializando *insira aqui sua piada sobre The Secret*. Ao meu ver, não era só um instrumento. Era a concretização de uma viagem épica, de uma grana pesada e claro, de um novo rumo na minha carreira e, consequentemente, na minha vida. Se pararmos para pensar, é muita coisa para trazer de um plano mental para este plano físico, então era bem óbvio que o processo traria, no mínimo, uma turbulênciazinha no meu pouso em Gales (não acredito que escrevi essas coisas aqui. Blogs me deixam sincero de mais, mas é isso aí.), mas eu nem refleti sobre isso e enquanto aquela p$#@% de avião sacudia mais que um trem velho eu morri de medo e quase me arrependi de ter começado tudo isso. Só que não.

Gales: terra do quê?!
Ao descer do avião, o esperado: cinza e verde imensos, mas sem dragões à vista. Na verdade, sem nada à vista, nem mesmo dinheiro (tive que trocar alguns euros por libras para usar o orelhão porque esqueci do detalhe de que em Gales uma outra moeda é utilizada. Boa, Henricão. Freakin' genious!) ou pessoas, já que todos desceram do avião e sumiram em 5 minutos e eu fiquei lá, esperando Chris e sua esposa. Em pleno domingo de halloween. Falei com eles ao telefone (um orelhão para o qual eles retornaram para avisar sobre o atraso, me causando o constrangimento internacional de atender um orelhão no meio do aeroporto com a maior naturalidade), e voltei a curtir o cd do Carreg Lafar que não parava de tocar. Eu não relaxava por nada. Sozinho em Gales para buscar um hurdy-gurdy. Só eu mesmo. Aliás, só nas ilhas britânicas o absoluto nada consegue exalar beleza e magia assim, de graça. Sentei e esperei.

Sim, um castelo.
Fui muito bem recebido por ambos. Dois fofos. Sabina foi uma verdadeira lady, fazendo perguntas interessantes sobre nosso país, enquanto o  Chris explicava um pouco da história do local com toda uma naturalidade. Não nego que havia um certo clima no ar. Você troca e-mails com uma pessoa do outro lado do atlântico por dois anos, conhece sua vizinhança via google street view e um belo dia, voilá, aparece lá. Você não sabe se considera a pessoa um conhecido ou um estranho completo. Eu tentei ser o mais educado e interessado possível, alternando entre as conversas e as fotos que eu podia tirar.

A casa deles era mágica. Uma típica casa galesa, apertadinha, aconchegante e rústica. Além da escada, que era apertada e linda, lembro de ver camas de gatos e de cachorros pelo chão, um alaúde, alguns instrumentos e panos pendurados no teto da cozinha. Aliás, a cozinha deles era de pedra e tinha uma vista de frente para uns morros verde-amarronzados, com algumas ovelhas. Por alguns segundos esqueci o porquê de estar ali... Até ser conduzido ao seu atelier, nos fundos da casa.

O local se tratava de um quartinho bem simples, empoeirado e extremamente humilde, mas só à primeira vista. Um olhar mais detalhista encontraria de cara um contrabaixo acústico ali, mais um alaúde acolá e vielas de roda novas e (bem) antigas penduradas no teto, fora todos as ferramentas. Todas as vielas eram lindas, sem dúvida, mas eu só tive olhos para uma que estava casualmente em cima de uma mesa, como uma criança esperando os pais na porta da escola.

Serious Business
Pisei na sala e logo a vi. E eu sei que o Chris percebeu isso. Ainda assim, provavelmente por puro sarcasmo Galês ou apenas para não aparentar estar ali apenas para negócios, ele decidiu me mostrar cada um daqueles instrumentos. Não surtei.  Ouvi tudo com o orgulho falso mais natural que já exercitei na vida. Ouvi histórias fascinantes, sobre quando ele foi abduzido pelo hurdy-gurdy há quase 30 anos, passando por um leilão épico em que ele adquiriu um instrumento do XIX (feito por Gilbert Nigout, malz aew!) e chegando até hoje, dias de modesta popularidade como um luthier de instrumentos antigos altamente respeitado no Reino Unido.

- And this one...

- Yep, this one.

Lembro de dizer apenas umas duas vezes que ela era linda, me contendo para não parecer desesperado... (imagina, né. Apenas despenquei da Ilha do Governador. Besteira!) E ele então gentilmente me deu algumas dicas técnicas, como retirar e lixar teclas que pudessem emperrar com a umidade. Isso ocorreu ao som do Uma História do Choro, que dei a ele de presente, numa conversa sobre como nós, Sul-americanos, temos em nossa música baixos extremamente coloridos e interessantes (respect). Antes de minha primeira e única aula, vejam bem, Sabina nos interrompeu de forma muito bem-vinda com um pouco de chá de maçã da turquia (!) numa caneca de hurdy-gurdy (!!). Discutimos algumas questões técnicas sobre tangentes (zZz), almoçamos um cozido com uma de suas filhas e só então eu pude ter minha primeira experiência, de fato tocando, ou melhor, tentando tocar, minha viela. A primeira tune que tentei tocar foi Llef Harlech, do Carreg Lafar, óbvio. E o engraçado é que eu filmei este momento histórico, mas a câmera ficou tão bem posicionada, mas tão bem....


Que só vemos as mãos do Chris.

Surreal. Eu não tive como tirar nem mesmo uma foto da casa deles, daquelas paredes ou daqueles instrumentos. Eu estava tão imerso naquele mundo que só consegui atualizar o status do facebook começar a conceber a magia daquele dia no dia seguinte, ao acordar ao lado do meu case, em Dublin.

Cheguei debaixo de uma chuva bem chatinha e fui recebido efusivamente pelos meus companheiros de banda. Ainda muito tenso com o dia inconcebível que tive, mal conseguia tocar (diferente do Caio, que mal encostou na viela e me saiu com Asa Branca na minha cara). Saí à noite, totalmente agoniado, mas ao voltar, a perfeição: dormir com o gurdy na minha cama, do meu lado, como um sonho totalmente palpável.

O sonho havia se realizado.

domingo, 22 de julho de 2012

No Brasil, diretamente da Galicia do verde chan: Ariel Ninas


Voltei!
(Sim, porque todos os meus 11 leitores estavam morrendo de saudade, loucos para ler sobre vielas. Uhum.)

O sumiço se deu aos preparativos de uma linda cerimônia de casamento da qual o Café Irlanda fez parte. É sempre um big deal para mim tocar num casamento. Ser parte de um dos dias mais cruciais da vida de duas pessoas que se unem é uma responsabilidade (ainda mais sendo músico e sempre vivendo na paranoia de escutar as músicas perfeitas em momentos perfeitos e inesquecíveis). Enfim, estou de volta e hoje quero dedicar este post a um sanfoneiro (sanfona ou zanfona, para quem não sabe, é o termo galego para a viela) que esteve recentemente em nossas terras.

Ariel Ninas veio brevemente ao Brasil e divulgou seu instrumento - mesmo que de leve - através de uma iniciativa muito legal envolvendo a aCentral Folque e a Ong Contato, de Belo Horizonte. Participando do Residências Criativas, um programa musical de três semanas, Ariel compôs e gravou "Horizontão", música dedicada à cidade que o recebeu. O resultado é fascinante.

Neste link vocês conferem esta maravilhosa peça que o Ariel dedica ao nosso país. E reparem que ele gentilmente se dirige ao seu instrumento como "rabeca de roda" nos créditos. Lindo.

E aí, o que vocês acham? Viela ou rabeca de roda? Acho que prefiro o segundo termo, hein... Pablo Lerner que o diga! ;-)







[ Fotos do Residências tiradas diretamente da página da Ong Contato no Facebook. ]

quinta-feira, 5 de julho de 2012

No Brasil - Folk Heart


Agora vejam como as coisas são: um belo dia estava eu pelas minhas andanças virtuais pelo mundo folk quando vi, por acidente, a página da Folk Heart, criada há pouquíssimo tempo. De cara achei interessante. A banda está nascendo, praticamente, e está preparando um CD para chegar junto com ela. Mistério.

A "cena folk" brasileira ainda é, de fato, bem tímida. Ainda assim, as poucas bandas que existem no momento já mostram a nossa riqueza em termos de criatividade dentro da vasta-pequena-palavra folk, trabalhando com músicos das mais variadas vertentes, com diversas formações e backgrounds. Por conta disso, sempre que vejo uma nova banda surgindo nesse meio, eu fico absolutamente curioso. Qual será a formação, que instrumentos usarão? Qual é repertório e qual é sua proposta? Sempre há espaço para algo novo porque aqui no Brasil (um pouco mais que no resto do mundo) esse terreno é bem fértil. Em outras palavras, taquei um belo de um curti na página deles e segui minha vida. Queria muito ver o que sairia dali. E logo descobriria.

Nem duas semanas se passaram e um de seus integrantes, Luís Biavati, entrou em contato comigo e gentilmente me convidou a participar do CD deles - em fase final de produção - tocando a viela na faixa que abre o disco. Não preciso dizer a resposta, certo? ;-)

Fiquei absurdamente feliz com o convite, e tratei de ensaiar. Não vou entregar aqui assim, de bandeja, qual é a música, então vou me limitar a dizer que já estava bem familiarizado com ela (no violino, é claro) por conta do Café Irlanda, que nunca a deixa de fora de seus shows.


Depois de ensaiar quando e como eu pude, gravei hoje, finalmente, minha parte. Que experiência bizarra estar num estúdio sem ninguém das minhas bandas estar presente para me dar uma força (geralmente o Dé [André Sigaud] está sempre do outro lado do vidro me encorajando rs). Foi uma responsabilidade muito grande gravar, ouvir e lidar com o que eu julgo ser o melhor som para uma gravação - ainda mais para uma banda que não é a minha banda - mas, aparentemente, tudo correu bem e está feito. Esperemos o resultado.

Quero deixar aqui, junto com um forte abraço, meus sinceros e felizes agradecimentos ao Sidney Sohn, sempre um profissional maravilhoso, atencioso e cuidadoso, mesmo diante de coisas chatas de gravar feito o inferno inusitadas =). E claro, ao Luís e ao Saulo, da Folk Heart, com quem também tive oportunidade de falar.

É muito importante para mim poder participar, direta ou indiretamente, de um projeto desses, que já é mais que bem-vindo! Desejo ao grupo muito trabalho, sucesso e realização. Música sempre!

Agora é esperar. =D


segunda-feira, 2 de julho de 2012

A Saga da Viela VI - Deixando Dublin


Quando acordei, deveriam ser 5:30 da manhã. Ainda não tínhamos nos adaptado ao fuso horário local, ainda mais naquelas condições (havíamos chegado na tarde anterior, indo do albergue diretamente para uma aula em grupo na Waltons School of Music, seguida por um bom banho e uma longa noite com pub crawl e baladas [sim, no plural, poque eu sou tr00] ). Apesar do frio, acho que eu tremia mais de nervoso. Havia dormido muito pouco e estava ansioso. Engraçado que eu passei tanto tempo imaginando aquele dia, mas não pensei naquele momento de acordar sabendo o que aconteceria... Sem pensar no frio na barriga que sentiria. Na escuridão das ruas que me levariam ao aeroporto.

Lembro de tomar um sofrido banho e estar me vestindo enquanto o Davi comemorava de sua cama que o grande dia finalmente havia chegado. Casaco, luvas, dinheiro na doleira e mochila nas costas. Bati a porta do quarto torcendo para retornar com um case nas costas. A rua estava bem mais gelada que na noite anterior. E o clima de fim de festa estava em cada esquina. Pedi informação sobre o ponto do Air coach para alguns taxistas mal-encarados e tremi com o frio que fazia na fila (eu e mais duas pessoas). 7,00 euros e 10 minutos depois, pronto: lá estava eu dentro do ônibus indo ao aeroporto para botar em prática um plano de dois anos que duraria um dia. Eu lembro de sentir muito medo. Qualquer coisa que desse errado, já era. Eu estava sozinho com uma mochila e uma quantia muito alta de dinheiro para quem passaria apenas um dia em um outro país. Tentei me acalmar ouvindo The Corrs. Imaginando quantas vezes eles já haviam cruzado aquelas ruas, fazendo aquele caminho para o aeroporto, para depois cruzar aquele mar cinza-esverdeado.

O aeroporto me pareceu bem mais bonito que no dia anterior, em que ficamos apenas na área de desembarque. Um gentil senhor me ajudou a fazer o check-in depois de uns 20 minutos que gastei indo de um terminal ao outro. Com o check-in feito, só me restava comer, ouvir música, relaxar e... escrever no meu diário de viagem. Reparei em tantas pessoas. Tracei histórias imaginárias sobre elas e os lugares para os quais estariam indo, mas acho que escrevi sem estar com a cabeça ali. A sensação de estar prestes a realizar um sonho muito grandioso é absurdamente eletrizante, mas gera muito medo. Absolutamente tudo precisaria estar em seu lugar. Me sentia como um criminoso prestes a executar um ato abominável, mas não sei bem o porquê disso. Enfim, o fato é que apesar de não ter sentido tanta fome (fico assim quando estou ansioso), eu precisava tomar um tímido café da manhã antes de embarcar.

Devo dizer que foi um momento mega forever alone. Mas estava me sentindo um aventureiro no ápice de sua jornada épica. Desbravando um mundo desconhecido para recuperar algo de suma importância para sua vida. Claro que nesse caso, o herói em questão tirava foto de tudo. Do croissant e do suco que seriam seu café da manhã até as passagens que o fariam cruzar um mar duas vezes no mesmo dia. Rio-de-Janeiro-Madrid-Dublin-Cardiff-Merthyr-Tydfill, Merthyr-Tydfill-Cardiff-Dublin-Madrid-Rio-de-Janeiro. Aer Lingus. Só de pensar nesse nome sinto aquele frio da barriga misturado com saudade.

Passado o café da manhã, a espera se tornou algo massante e enlouquecedor. Momentos de tensão rolaram para eu achar meu portão de embarque, mas uma vez encontrado, só me restou sentar e curtir o visual da pista de pouso e decolagem. Desde que eu havia chegado à Irlanda, eu ainda não havia tido tempo de sentar e falar "ok, aqui estou eu. Assimilemos esse dado". Talvez porque fazer isso implicasse em conceber a ideia de um fim para aqueles dias mágicos. Bem, no fim das contas, a chamada para o bendito portão 935 ocorreu e eu entrei numa pequena fila para o embarque. Éramos tão poucos. E eu lembro de ver duas francesas conversando, obviamente em francês. Queria tanto ter falado com elas, mas o meu pavor daquele simpático avião me deixou estático. The Lord was testing me. E entrar naquele avião provavelmente era a prova final antes do meu prêmio. O avião era o chefão daquela fase. rs

Pensem numa pessoa com medo de altura.
Agora imaginem esta pessoa num avião de papelão.

Eu mal havia chegado na Irlanda e já estava partindo. Quando entrei no avião, entrei numa outra realidade. Outro universo. E tudo que restava ali era o medo de altura. Estava dormente; e com o avião decolando eu dei play nos CD's do Carreg Lafar e vi uma ensolarada Dublin se perder em meio a nuvens cinzas que cheiravam a sonho saindo do forno da realidade.