quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Freiburg e o Resgate de Lyanna


Ir à Suíça por causa da viela de roda foi provavelmente a coisa mais sábia que eu poderia ter feito enquanto vielista. Saber disso no meu primeiro dia de viagem, contudo, não foi possível. E nem vou entrar nessa onda ~misteriosa e circular~ e dizer que eu acho que certas coisas estão destinadas a acontecer dei sorte. Vou sim falar da Basiléia e de tudo que aquela cidade me trouxe nos próximos posts, então por hora vou apenas contar para vocês o que rolou depois de eu ter me deparado com uma fucking rachadura no fundo da minha Lyanna.

Chorar teria sido a reação mais natural, e eu juro que eu quis chorar, de verdade. Mas nem isso consegui. Fiquei sentado no meu banquinho, no meio de Heathrow, me sentindo sem chão. Não tive reação nenhuma, e só depois de mais de uma hora é que eu levantei e fui procurar um lugar para dormir.

#PartiuFreiburg
Uma vez no hotel, pude inspecionar a rachadura e tudo que eu podia pensar era que ela tinha sido causada pela mudança temperatura, elemento que não deveria ter tido esse impacto, por mais forte que fosse. Depois pude confirmar que de fato o reparo feito nela antes de eu compra-la não havia sido feito da melhor forma possível. Enfim, um pouco mais tranquilo (prêmio Nobel de ser humano mais tranquilo para mim PRA ONTEM obg) e tentando raciocinar, escrevi para a minha professora tentando manter a calma. Tobie Miller, sábia que é, me disse que na Suíça em si eu não encontraria nenhum luthier, mas que o mais próximo estava "ali na Alemanha", há exatos 40 minutos da Basiléia (viva a Europa, que é do tamanho do meu bairro). Okay, then foi tudo o que eu pude dizer. Então mal cheguei à Basiléia e fui até Freiburg ver o que poderia ser feito.

Mais uma vez esse instrumento lindo me fazendo madrugar e pegar uma penca de ônibus e trens até um remoto lugar. Dessa vez a coisa foi um pouquinho mais tensa. Precisei ir até a estação de trem alemã da Basiléia, já que de lá as passagens eram mais baratas. Eu só não contava com o fato de ninguém falar nem inglês nem francês por lá - falei em inglês anyway porque né? O que eu podia fazer? - E civis me ajudaram porque a galera da cabine de informações nem sinais queria fazer. risos.

Bom, se tem uma coisa que aprendi nessa vida vielística é que luthiers nunca nunca nunca nunca NUNCA moram onde eles dizem morar. Gales não quer dizer Cardiff, França não quer dizer Paris e... Freiburg não quer dizer Freiburg, mas sim:

Uma "cidade" de três ruas há 20 minutos de Freiburg. Sério.

Daí quer dizer: leso que sou, ainda levei um tempo para encontrar o que procurava (uma loja de pianos) e pasmem, ela realmente existia, e era linda! Pois bem, nos fundos do terreno da loja, nas últimas salas do último prédio (risos), estava o atelier do Sebastian Hilsmann, indicação da Tobie Miller. Cheguei lá super desconfiado, porque ele não é muito popular, mas como situações extremas exigem medidas extremas (não sei usar o ditado popular rs), e como aparentemente todos os luthiers de viela do planeta vivem em obscuros locais de difícil acesso, eu fui. E gente, como valeu a pena. Assim que entrei eu já fiquei impressionado com a quantidade de madeiras espalhadas pelos corredores do prédio, vi desde enormes pedaços de troncos até finíssimas tábuas. Havia uma sala de violinos, provavelmente de outro luthier, e só encontrei as salas do Sebastian por causa de uma discreta plaquinha no fundo de um corredor aleatório.


Sebastian foi super atencioso, tratou de fuçar o instrumento todo, e disse que de fato a temperatura fez a madeira ceder. Por outro lado, como eu havia desconfiado, isso só aconteceu porque quem a reparou antes o fez meio que às pressas, aparentemente. Então Sebastian disse que eu precisaria deixa-la lá (EM OUTRO PAÍS) por dois dias, para que ele pudesse consertar de vez o corpo do instrumento, tirando a roda (I know) e utilizando algo que deixasse o corpo dela estável por dentro também. Fui pra casa com o coração na mão, e fiz o favor de pegar um trem errado que começou a me levar para os fucking Alpes por engano - mas isso não vem ao caso.

Passar um dia inteiro longe da viela foi mais fácil do que eu imaginei; provavelmente porque eu sabia que eu precisava disso. Ao mesmo tempo, eu não sabia se xingava muito no twitter por algo tão escroto chato ter rolado, ou se agradecia ao universo por isso ter se passado com a gente num momento em que eu podia ir a um profissional. De qualquer forma, voltei em Freiburg e o resultado, meus amigos, foi mágico. O som ficou muito mais consistente, muito mais encorpado, então fiquei mais do que satisfeito, fiquei feliz e seguro. Lyanna sobreviveu e está muito bem, gordinha e alta para cacete soando melhor que nunca.

Meu aniversário é dia 23 de Setembro. obg
Para coroar esse pequeno susto da porra que levamos, algo muito legal: enquanto esperava o Sebastian, tive a oportunidade de ver um pouco de seu trabalho, que é verdadeiramente apaixonante e minuciosamente bem pensado. Pude tocar no seu modelo Largo - uma viela mais grave, muito linda e irresistível e ver de perto outras dependências de seu atelier. As possibilidades de tons, texturas sonoras e combinações em suas vielas é descomunal. Realmente seguindo a linha dos grandes luthiers contemporâneos, seus instrumentos nos oferecem cavaletes reguláveis, capos,  um sistema de cravelhas super confortável e trompettes para todos os gostos. Fora o sistema de captação, que te abre um UNIVERSO de possibilidades. Quero chorar só ao lembrar.

Também quero chorar porque infelizmente não pude fotografar  muito. Fiquei sem graça (é o ambiente de trabalho dele, algo super pessoal, ainda mais se pensarmos que ele é um construtor de vielas de roda. Em Kirchzarten.), mas garanto que foi fantástico ver vielas e mais vielas em estantes, vielas de cores e tamanhos diferentes (havia uma verde!) e um aprendiz/ajudante que parecia um elfo perdido de algum RPG qualquer. Enfim, os minutos que passei com a viela Largo pareceram dias, fiquei realmente vidrado e por alguns minutos esqueci que eu tinha meu próprio instrumento. Alíás, foi interessante ver que o Sebastian ficou interessadíssimo em minha viela, por ser algo tão diferente para ele, por conta da afinação tipicamente francesa, a altura das notas e seu timbre. Nossa conversa foi extremamente enriquecedora.

Nesse dia voltei para a Basiléia com um sorriso de orelha a orelha, prontinho para ter minha primeira aula e ver se teria coragem de levar Lyanna às ruas suíças para descolar uma graninha, algo que acabei fazendo mais de uma vez e sobre o qual escrevei logo, logo, e bem feliz. Foi como se Londres nunca tivesse existido, e minha viela nunca tivesse precisado de ajuda. 

Sei lá, algumas coisas parecem TER que acontecer para que outras coisas cheguem até nós. E de fato eu sinto isso até agora. Os dias que seguiram foram alguns dos melhores de toda a minha vida musical, e de fato me fizeram ver que todo esforço vale a pena quando fazemos aquilo que amamos.

Para mais informações sobre esse talento secreto do mundo vielístico que atende por Sebastian Hilsmann, vocês podem visistar o site oficial dele aqui.

       

Vielisticamente,

Rique

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

De volta ao Brasil


Daí eu tinha acabado de chegar em Londres e minha playlist que estava preparada desde outubro rolava lindamente (principalmente David Gibb and Elly Lucas, procurem). Fui recebido por uma tarde chuvosa (oh really?!), mas com um pouquinho de sol e um arco-íris estonteante (bons sinais risos).

Como eu tinha 24 horas entre minha chegada e meu voo para Basel, usei o CouchSurfing para ficar na casa de um professor de História e sair um pouco, conhecer a cidade etc. Poor me. Comprei o tal do Rio Oyster Card, peguei o metrô com exatamente uma mala enorme, uma mochila pesada e o case da viela, desci num ponto, peguei um ônibus, saltei do mesmo 20 minutos depois, fiquei confuso, fui auxiliado por uma moça sérvia e sua filha adolescente, peguei outro ônibus e voilà, finalmente desci onde deveria descer só para descobrir que meu anfitrião não estava lá. At all. Super fun.

E lá vai Rique e suas tralhas subindo aquela rua imensa, e lá vai Rique e suas tralhas descendo aquela rua imensa e nada de Johnn. Eu não sei como eu não chorei, mas sei lá, acho que em certos momentos devemos rir de nós mesmos e gente, não tinha como não rir de mim mesmo ali naquela hora. O melhor foi eu tentando utilizar a cabine telefônica com todos os meus bens dentro dela. Não pude evitar, já que como todo bom carioca eu esperava um pivete/cracudo/traficante pular de qualquer parede do nada e me assaltar ali e olha, naquele momento eu não podia arriscar esse tipo de coisa. Enfim, o fato é que não eu consegui usar a porra do orelhão e gastei 2 £ por nada comprando twix para ter moedas. Ainda teve isso. Ganhei MOEDAS.

Bom, resumo da ópera: entra Rique esbaforido e suado com sua mochila e sua viela e sua mala num fast food indiano e pede encarecidamente para usar o telefone de lá. Prontamente fui atendido (aliás, um beijo pra Índia que só colocou gente legal no meu caminho durante essa viagem) e o FOFO do meu anfitrião me disse que como eu havia demorado, ele resolveu ir ao centro encontrar um amigo e vejam que lindo, não tinha hora para voltar. Sugeriu que eu fosse para a Starbucks sei lá de onde aguarda-lo, mas depois de uma hora e meia esperando eu simplesmente decidi voltar pro aeroporto e por lá ficar. Sério, sorte a dele que não era ele largado na rodoviária aqui do Rio. 

Chego eu no aeroporto, como, me acomodo e vou verificar as coisas porque né, não havia o que fazer, QUANDO PAM: me deparo com

Esta é a foto do desespero materializado

E assim começou minha viagem. Lidem.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Next step: Basel

Basilea
Daí que eu juro que havia prometido pra mim mesmo que nesse ano que se aproxima eu sossegaria e ficaria na minha. 2013 foi um grande ano para mim e dona Lyanna. Rodamos a França em janeiro, voltamos, gravamos coisas, nos apresentamos e estudamos bastante. Além disso, vocês sabe como é, né, a pessoa fez letras e é músico e mimimi. Ela tem que sossegar em algum momento. Ou não. XD

Sabe quando você conhece alguém aleatoriamente? E sabe quando esse alguém é um mineiro muito gente fina, que é músico e tal (e né, dois músicos quando se juntam não sabem ficar quietos, e o papo rola solto). Pois bem:

Conheci um rapaz muito legal no carnaval, assim que cheguei de viagem. Conversa vai, conversa vem, em pleno carnaval, o primeiro PAM da história: ele trabalha com música antiga, e leciona canto numa escola de música antiga (duh) na Suíça. Estava no Brasil de férias curtindo um pouco o carnaval e revendo a família. Mais conversa vai e mais conversa vem e PAM [2]: descobrimos que ele é colega de uma vielista que admiro muito e que trabalha com música barroca na mesma escola que ele: Tobie Miller. Dude, Tobie Miller, que para quem não sabe é uma verdadeira diva eterna assumidade/virtuosa da viela de roda barroca. Eu já via coisas sobre ela antes mesmo de comprar a minha viela... Sua história é interessante não só porque ela é uma das poucas vielistas que chegaram ao instrumento através de uma formação sólida em música antiga (e não através da música folk) mas porque toda sua formação é erudita e vem de família - Tobie tocava violino também, e hoje se divide entre a viela, a flauta doce e o canto, tocando em diferentes ensembles e trabalhando com pessoas do calibre de Matthias Loibner, fora seu trabalho como professora dentro e fora da Schola Cantorum Balisiensis.

Pronto, bastou esse meu rápido papo de algumas horas com o Victor para mais um passo ser dado na trajetória desse ser estranho que vos escreve. Uma plethora (finalmente uma desculpa pra usar essa palavra rsrsrsrssssss) de nights a serem trocadas por noites em claro assistindo séries dentre as quais estão Downton Abbey (não quero falar sobre isso por motivos de: estupros) , Homeland, The Good Wife, The Walking Dead (aliás deixo aqui meu CONGRATU-FUCKIN'-LATIONS pro Rick babacão-fdp que expulsou a Carol mas fez pior que ela depois no mid-season finale, idiota imbecil parei) para que mais dinheiros fossem guardados para que eu pudesse cogitar outra viagem; dessa vez para Basileia, cidade aleatória e linda que faz fronteira com França e Alemanha, e para onde estarei viajando em breve.

Basi o quê? - Léia.
Alguns meses e pouquíssimas mensagens depois, voilà, estaria por vir mais um mês lá do outro lado do atlântico (e apesar de isso ser o máximo, eu sempre fico tenso por motivos de: aviões) girando a manivela e tentando aprender o máximo possível. O porém dessa vez, meus amigos, é que isso vai rolar num ambiente mais erudito e, quase consequentemente, mais rigoroso. UÉ HENRIQUE MEIRELLES, MAS VOCÊ NÃO FUGIU DO MUNDO ERUDITO? -S. VDD.

                                                           Mas quem resiste a isso?! 

Eu vivo mencionando a dicotomia chata e inconveniente que existe entre o mundo da música folk/popular e o mundo da música erudita, que sempre me pesou nas costas quando eu estudava violino clássico. Toda aquela atmosfera tensa de uma sala de concerto, todo aquele ar pomposo de superioridade e pedantismo, fora as caras e bocas e poses... Enfim, tudo aquilo que ia contra a minha ideia de música/arte/prazer sempre me incomodou, e crescer musicalmente na atmosfera folk tem sido uma experiência muito interessante porque pude ver que o problema nunca é a atmosfera musical em si, mas sim as pessoas. O que quero dizer é que no fim das contas acabei me deparando com esses mesmos drawbacks também no meu mundinho. Para variar, perdi o fio da meada, vamos lá:

Acho que devemos ter em mente que toda essa aura de realeza que emana do mundo erudito tem uma razão de ser. Suas peças podem ser incrivelmente mais complexas que a maioria das boas e velhas tunes, de forma geral, já que obviamente sabemos que tudo depende do músico que estiver executando a música. Relativismos à parte, uma coisa é certa: os meus anos de violino clássico em escolas e conservatórios fazem com que até hoje meus dedos atinjam os lugares que quero com mais precisão, e as horas consagradas a peças e escalas e mudanças de posição me renderam uma certa fluência que me é muito útil, de fomo que eu só tenho a agradecer aos meus últimos professores - ambos apaixonados pelo período barroco -  que de fato me fizeram crescer mais que meus professores desse lado da moeda.


A ironia por trás desse post se dá quando o foco cai sobre a viela de roda e vemos que apesar de carregar uma história muito, mas muito mais longa que a do violino que conhecemos hoje, seu quase desfecho foi imensuravelmente mais trágico. Enquanto o violino seguia seu caminho para o topo da "cadeia alimentar" coroando orquestras e arrastando multidões para as salas de concerto, a pobre viela, apesar de seu rápido boom no século XVIII, ficou com os mendigos cegos da Europa risos teve um quase-fim um pouco menos feliz.

Analisando a sua história a gente pensaria que a tradição que o instrumento traz seria muito mais pesada, mas a verdade é bem outra. Tudo parece mais leve quando falamos de vielas e vielistas, e eu pude ouvir mais de uma vez um dos ícones da "França vielística" mandando que eu ignorasse a tradição e fizesse o que eu queria fazer, porque música é prazer, é liberdade e eu nada teria a ver com uma tradição que só serviria de amarras. Bom, que fique claro que quando ele dizia "tradição", ele se referia à tradição folclórica da região central da França. De fato entendo que há uma linguagem a ser seguida em cada estilo e eu respeito isso, mas no fim acredito que um sotaque nativo não te garante boa comunicação, e tenho isso como fato. Por isso guardei o conselho do Laurent no coração com muito carinho e tento lembrar dele sempre que me dou conta do quão irlandês ou caipira eu ainda não soo. 

Por outro lado, justamente por não negar minhas origens e por reconhecer a importância que o mundo erudito teve em mim, decidi mudar um pouco o rumo da minha trajetória vielística e encarar essa tortura (rsssss) que vai ser estudar ao lado da Tobie e sua bagagem erutida em Basileia. Se houve um período em que a viela de roda ganhou status de um instrumento legítimo, esse período foi o Barroco. Inúmeros compositores (dentre os quais se encontram Mozart e Vivaldi, ok?) escreveram para a viela, métodos foram criados e um verdadeiro boom de luthiers veio à tona nas cortes de Louis XIV e Louis XV, graças a utópica ideia de volta aos costumes campestres e à simplicidade dos campos. Claro que depois da revolução tudo isso mudou e a viela foi mais uma vez deixada aos campos, mas o repertório daquela época ficou; e aquilo que foi construído em volta do instrumento permaneceu para nós e com certeza é uma grande fonte de técnica e diferentes visões e abordagens - principalmente em relação a maldita mão direita, que na música barroca não para quieta risos.

Bom, fato é que nunca estive mais animado. Primeiro porque a Suíça é um país sobre o qual eu mal pensei na minha vida - nunca me chamou muito a atenção. E segundo porque a cidade em questão - Basileia, Basel, Bâle - é um lugar sobre o qual jamais ouvi falar e tem um nome super sonoro (/random).

Mais uma vez a viela vai me levar a outro mundo, e mais uma vez aquele friozinho na barriga vem chegando e aumentando a cada dia.

Que venha a Basileia e tudo o que ela pude me oferecer.
Feliz 2014 a todos nós!

Vielisticamente,

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

No Brasil e No Passado: Blowzabella (!)


Blowzabella em sua atual formação
Imagine a dificuldade de ter e manter uma banda sem grandes problemas. Imaginou? Meio complicado, né?Ok. Agora imagine ter e manter uma banda sem grandes problemas, enquanto os integrantes da mesma mudam constantemente ao longo dos anos. Foi? Ok, Então imagine tudo isso dando certo por 35  - sim, trinta-e-cinco anos. Esse é o caso do Blowzabella, grupo folk inglês que é uma verdadeira referência tanto no nosso pequeno mundo vielístico como no mundão (zinho) da gaita de foles e, obviamente, da música folk européia em geral.

Dança Tradicional - França - 2012
Essa banda é provavelmente a maior banda de folk do planeta; e eu os vejo como verdadeiros rockstars, já que seu som puramente folk pode ser extremamente eletrizante, contando com diferentes gaitas, violinos (até de 5 cordas), viola d'amore, melodeon, viela de roda, saxofone, flautas, baixo e diferentes instrumentos de percussão. Suas turnês envolvem grandes festivais folk, e grandes danças tradicionais que geralmente ocorrem na França.


Meu primeiro contato com o Blowzabella ocorreu enquanto pesquisava algumas tunes tocadas pelo Nigel Eaton e descobri que ele havia integrado a banda em sua quarta formação, após Cliff Stapleton, Sam Palmer e Juan Wijingaard, também grandes vielistas que hoje são (muito) bem representados pelo Gregory Jolivet - ex-aluno do Laurent =).

Gregory Jolivet
A contribuição da banda para o mundo folk é tão significativa que até mesmo uma Encyclopedia Blowzabellica de música folk foi criada, catalogando diferentes danças tradicionais européias de acordo com seus ritmos (jigs, polkas, Bourrées, Mazurcas etc)

Mais um sonho realizado seria vê-los em ação ao vivo, principalmente aqui no Brasil. E daí esse post: descobri essa semana que eles de fato estiveram por aqui nos anos 80, e quem me disse isso foi ninguém menos que o próprio gaiteiro deles, o Paul James. Nos correspondemos rapidamente através de uma comunidade online e qual não foi minha surpresa ao saber que não só eles estiveram aqui no Brasil, mas estiveram bem aqui no Rio de Janeiro. Infelizmente ele (ainda) não me deu mais detalhes sobre essa vinda ao nosso país, mas só saber que isso ocorreu em algum momento é  bem aleatório. Ainda mais numa época em que o instrumento está em alta, a gente nem ouve falar desse tipo de artista por aqui. Go figure.

Blowzabella lançou agora em outubro o seu 13º Album, Strange News.


 

Para mais informações: http://www.blowzabella.com/

Vielisticamente,

domingo, 1 de dezembro de 2013

Cordas


Daí finalmente tomei coragem e resolvi fazer um post mais útil e enfrentar abordar esse assunto que costuma ser tão confuso tanto para quem toca como para quem nunca viu uma viela na vida: cordas.

Antes de mais nada quero deixar claro que hoje em dia os modelos de viela são muitos, e nos deparamos tanto com velhas vielas com aspectos ultra tradicionais quanto com vielas modernosas e cheias dos apetrechos como capos, rodas móveis, terceira fileira de teclas e por aí vai. O que me parece mais importante, no entanto, são os tipos de cordas existentes e as posições que elas vão ocupar no instrumento. Para isso, vamos revisar aqui, partindo da primeira corda próxima a mim (clique na imagem para amplia-la):

Ou eu toco viela ou aprendo a alterar imagens. Lidem com o paint.

Azul - Trompette
Verde - Mouche
Roxo - 1ª Cantora
Laranja - 2ª Cantora
Vermelho - Grande bordão
Preto - Pequeno bordão

(logo abaixo do pequeno bordão, temos as cordas simpáticas)

Pois bem, vou começar falando do meu ponto de vista, do que eu uso no meu instrumento - o que pode não ajudar muito, já que percebi que cada músico usa um ou mais tipos de corda. 

- Trompette

Eu utilizava cordas de tripa, da marca Savarez, mas desde janeiro tenho usado uma corda de nylon mesmo, provavelmente produzida pelo Neil Brook. Eu tive uma melhor resposta com a de nylon, confesso.

- Mouche -

Desde o início eu tenho utilizado cordas de tripa, também da Savarez (BRH 109). Ainda tenho uma de nylon - também do Neil - para testar, mas ainda não precisei faze-lo. 


- Cantoras -

Sim, minha letra.
Novamente: desde o início, eu tenho usado as cordas de tripa Savarez somente para corda da primeira oitava (mais grave), e as cordas sintéticas do Neil Brook para a cantora aguda. Outra opção são as cordas resvestidas (wound strings), que são cordas que tem um núcleo e são revestidas por aço, prata ou tripa (gut/boyau). Alguns vielistas as utilizam somente nos bordões, enquanto mantem as cantoras com cordas de tripa, outros talvez façam o oposto...


Ou faço caligrafia ou aprendo viela. Sorry.
Outra opção para as cantoras são as cordas de viola da Corelli, também revestidas. Eu particularmente odiei não me dei bem com elas, demoravam vidas para ficar afinadas e a impressão que eu tinha é que faziam muita força contra a roda. Ainda assim, há quem as utilize e soe muito bem com elas - é o caso do Augusto Ornellas, lá de Brasília. 

As possibilidades são muitas. Meu querido amigo Raine, vielista de Curitiba, disse que tem usado cordas de violino da Plander (uma marca nacional) em sua corda cantora. Isso é só uma amostra da variedade de caminhos a seguir e sonoridades a testar.

 - Grande Bordão

Meu grande bordão já veio com a viela e é uma corda de tripa revestida com aço. Há quem use as cordas de cello da Corelli, a minha eu diria que é uma Savarez, específica para o grande bordão. Já vi à venda também cordas de tripa para esta posição, mas nunca testei.

- Pequeno Bordão -

Lembro que utilizava uma corda de viola, mas nunca soube a marca. Depois que a corda estourou nesse calor ridículo do Rio de janeiro precisei trocar, passei a usar a Savarez de tripa, revestida, comprada na Arpèges. Aliás, essa loja é um paraíso. Até estojo-rígido-para-vielas-em-formato-de-alaúde encontrei lá - e sim, eles aceitam cartão online, paypal etc etc (!)

Letra ridícula, EU SEI.
- Cordas Simpáticas

Para quem não se lembra, as cordas simpáticas são as cordinhas que ficam abaixo do do grande bordão, não sendo tocadas diretamente por nada. Elas apenas vibram enquanto tocamos, e além de dar uma encorpada no som do instrumento, elas soam como um eco quando paramos de tocar. Para as simpáticas, basta utilizar quaisquer cordas de aço para violão, daquelas bem fininhas. As que eu uso, também compradas na Arpèges, são essas: 

Ta-da!

Adianto que se engana quem pensa que para tocar viela de roda basta comprar ~cordas de viela de roda~. Embora meu primeiro reflexo seja dizer que THERE ARE NO SUCH THINGS, eu devo admitir que elas existem sim, mas não são sua única opção. Alguns sites/lojas como a Arpèges, na França, revendem as cordas da marca Savarez e suas prórpias cordas. As Savarez me parecem ser talvez as mais utilizadas por vielistas do mundo todo, já que é uma marca que trabalha produzindo cordas para instrumentos antigos, sendo alguns desses jogos de cordas voltados para instrumentos específicos, como a viela. Essas cordas são vendidas para todas as posições, principalmente para a primeira cantora e os bordões. Deixo abaixo o link tanto para a Arpèges como para outras lojas/sites.

O que devemos ter em mente é que procurar marcas especializadas geralmente é o caminho mais seguro, mesmo que paguemos um pouco mais caro. Outra coisa é ter a mente aberta para tentar diversas vezes, experimentando diferentes sonoridades e texturas. Só assim você vai encontrar o seu som e se sentir confortável.

Arpèges     The Early Music Shop   Gamut Music (créditos ao Augusto pela dica) Hurdy-gurdy Crafters (dicado Raine Holtz)

Para mais informações sobre as cordas revestidas (créditos também ao Augusto), clique aqui.


Vielisticamente,

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Dois anos.



Dublin. Há dois anos nessa mesma hora eu estava saindo de um avião de papelão, correndo para o albergue encontrar os meninos da banda para finamente dizer "sobrevivi". Primeiro eu achei que me pegariam no avião saindo de Gales, por conta do case não caber no compartimento de bagagens. Depois pensei que o avião cairia (o que teria sido ironicamente romântico e doentio - e eu sempre acho que o avião vai cair, anyway), depois pensei que seria pego na alfândega irlandesa... mas não. Eu estava dormente de tudo que eu estava vivendo aquele dia, que na verdade durou dois anos.

Perdido e madrugando num canto qualquer da França
Dublin, Merthyr Tydfill, Bourges, Carcassonne, Rio de Janeiro... Eu já vi tanta coisa em tão pouco tempo; e nem se trata de me gabar (só deus sabe como eu vivo em função dessas pequenas grandes viajens), e muito menos se trata apenas de ter um espírito viajante. Eu só fiquei assim por uma única razão: a viela de roda.

Eu nunca pensei que um dia seria um vielista - muito menos que esse instrumento traria tanta coisa boa para minha vida. Para ser sincero, não consigo lembrar muito bem de como eu simplesmente decidi que seria isso. Parece que nunca aconteceu, que ela sempre esteve ali. É estranho você passar tanto tempo desejando algo e depois ter esse algo tão incorporado em sua vida dessa forma.

Eu e Chris Allen na minha primeira aula - Merthyr Tydfill - Gales
A viela de roda cruzou o meu caminho quando eu menos esperava; E bem... embora tenha me raptado - ou como dizem por aí, abduzido - fez eu me sentir em casa, mesmo me levando a lugares tão distantes.

Esses dois anos que se passaram já me trouxeram tantas coisas boas através da viela que eu nem sei direito o que escrever. Fiz amigos maravilhosos, conheci lugares fantásticos, aprendi bastante coisa sobre música, sobre pessoas - sobre mim - e percebi que ainda tenho um UNIVERSO de coisas para aprende - coisa que graças aos bom deuses, só me anima cada vez mais para seguir em frente. Mais que tudo isso, a viela de roda me fez ver que sonho de verdade é aquele que faz você correr o mundo para viver e alcançar o que se quer, levando o tempo que tiver que levar.

Ben Grossman e Brian Hughs
E essa semana comemorei meus dois anos de viela de roda em grande estilo, no show da Loreena McKennitt - exatos dois anos do dia em que embarquei para a Irlanda - aqui no Rio de Janeiro. E como se ter esse instrumento na minha vida já não fosse sonho suficiente virando realidade, comemorar a data nessa ocasião foi perfeito. Ainda mais tendo entrado em contato com o Ben Grossman, atual vielista da banda da Loreena, que foi simplesmente fantástico; e tentou me encontrar mais ou menos quatro vezes durante sua curta estadia aqui no Rio, e inclusive pediu para eu levar minha viela ao show para que ele me desse uma quick lesson. Como nem tudo é perfeito, atrasos ocorreram e tudo que consegui foi um curto papo com ele no intervalo entre os dois sets - o que foi muito legal.

Eu poderia gastar horas e horas para falar sobre tudo que ocorreu desde que encontrei a viela, mas não vou fazer isso simplesmente porque dessas coisas, vocês, que são meus amigos, sabem muito bem. Pretendo apenas agradecer a força que vocês me dão, seja movimentando nosso grupo de vielas no facebook, seja lendo isso aqui vez ou outra, ou apenas fazendo sua parte e alimentando a curiosidade dos brasileiros para esse instrumento fantástico. É fantástico ver como as coisas mudam e como eu passei de "segundo vielista" depois do Augusto para apenas mais um no meio de uma galerinha que vem crescendo, buscando e até mesmo construindo instrumentos. Isso é lindo.

Que vocês possam viver toda a felicidade que tenho vivido desde aquela tarde em Gales, e que a viela seja para vocês o que foi e tem sido para mim: de um objetivo final se tornar a porta de entrada mais épica que vocês poderiam cruzar.

Obrigado e vielisticamente,

Rique e Lyanna

Café Irlanda - Circo Voador


segunda-feira, 23 de setembro de 2013

No Brasil: Anne-Lise Foy e Les Musiciens de Saint-Julien


Olha, se tem uma coisa com a qual eu não consigo/sei/quero lidar, essa coisa é perder apresentações de artistas que me interessam. Eu nunca tenho a chance de vê-los, a bem da verdade. Fui poucas vezes a apresentações que me interessavam, já que quando a chance aparece, devemos fazer de tudo para ouvir músicas e instrumentos importantes para nós. Esse ano todo o Dharma acumulado nesse sentido chegou, e artistas pelos quais espero a vida inteira vieram ao Brasil. Para minha tristeza, não se pode ter tudo; e eu devo dizer que estou triste demais por perder o grupo em questão, por conta do meu trabalho. Ok, confesso que nunca havia ouvido falar dos Musiciens de Saint-Julien, e quando parei para babar no cartaz acima, o fiz porque sabia que a Aliança Francesa me daria desconto no ingresso.

Pois bem, esse grupo passou pelo Brasil (uma apresentação no Rio e outra em São Paulo), e eu os vejo como um TESOURO que passou despercebido. Pagar 30 reais por um show desse nível é uma benção, então espero que tenha sido um sucesso. O repertório desse espetáculo específico é voltado para o cenário "pastoril" francês do século XVIII, ou seja, não tem como não ter viela de roda. A[i vai um pequeno vídeo sobre essa essemble tão linda. 

Bem, mais que a "mera" presença da viela no espetáculo, o que me doeu mais em perder essa apresentação foi o fato de a vielista do grupo já fazer parte do ATUAL MOMENTO de minha trajetória vielística sem ter a menor ideia. 

Explico: em janeiro, quando estava estudando com o Laurent lá em Bourges, me foi passada - no meio de um mundo de material - a partitura de uma peça escrita pela vielista em questão, Anne-Lise Foy, chamada Le Moulin des Deux Roues. A tune é maravilhosa, e serve como um desafiador exercício de arpejos cujo o macete até hoje não desvendei, ou seja, ainda me encontro desbravando a peça dela - e amando, de verdade.

Queria muito ter ido lá para pagar de fã e pedir para ela assinar a partitura, tenho certeza que teria sido uma experiência mágica, então deixo um pequeno vídeo deles aqui, para ilustrar minha amargura.


Vielisticamente,