terça-feira, 12 de agosto de 2014

No Brasil: Meadfest

E os eventos medievais por aqui não param.

Ocorreu nesse último fim de semana o IV Meadfest em Curitiba, trazendo muitas fantasias, pratos deliciosos e claro, música boa agindo como máquina do tempo.

Não preciso muito dizer que apesar de alguns outros grupos bem maneiros como o Artilharia Pirata e os Gaiteiros de Curitiba, quem encantou os aldeões por lá foi o Through Waves, sempre catando mais fãs apaixonados pela beleza e pelo talento de Raine Holtz.

Segue um pequeno vídeo do evento para aqueles que, como eu, precisam de alguma maneira de acalmar o recalque de não ter estado lá.


Curitiba e seu estado tem crescido muito em termos de atividade nessa área. Fico impressionado com a capacidade que esse lugar tem de gerar vielistas e eventos vielísticos. =)

Aliás, acaba de surgir por lá mais uma banda que conta com não uma, mas DUAS vielas de roda. Falarei dessa galera no meu próximo post.

Vielisticamente,


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

A viela de roda no imaginário popular



Daí que não fui trabalhar hoje. Febre que não sái de mim. 

Na esperança de me fazer um pouco útil e na delícia que é tratar desse assunto com vocês, resolvi compartilhar um pouco do que tenho lido sobre nosso amado instrumento. Estou lendo um livro que tenho há mais de um ano mas nunca tinha tomado coragem de ler porque está em francês. Pois bem, semestre passado precisamos escolher um livro para fazer uma apresentação oral no curso de francês e voilà, tomei coragem e comecei a enfrentar a fera. E que fera. O livro em questão é "La vielle à roue dans la musique baroque française" e eu estou boquiaberto com o mundo de informações e curiosidades que esse livro traz. Se você toca viela de roda, saiba: vielistas deveriam falar francês só para ler esse livro.

Se trata na verdade de uma tese de doutorado escrita por Paul Fustier, que tenta explicar o porquê de, no curto período que vai 1725 a 1765 a viela de roda sair das ruas e passar a ocupar um lugar de prestígio dentro da corte francesa. Toda a questão do livro gira em torno da viela de roda ter sido um instrumento-símbolo de uma vida campestre idealizada e romatizada pela corte, uma ideia inspirada no mito da Arcádia; e uma tendência que acabou gerando um certo modismo vazio e até mesmo fútil. O livro é brutalmente enorme, porque ele trata de absolutamente TUDO relacionado à viela, o pensamento da época em relação ao instrumento, sua origem, o impacto que essa "era dourada" causa nos tipos de músicos que encontramos, nos luthiers, nas obras etc 

Eu terminei de ler semana passada um capítulo que tenta explicar o porque da associação entre vielas de roda e mendigos (em sua maioria cegos); e eu adoraria falar disso aqui em algum momento, não duvidem. Porém, o capítulo que comecei a ler essa semana me parece mais interessante de forma geral, já que trata da atração/estranheza que o instrumento gerava nas pessoas naquela época, coisa que até hoje é uma realidade. Aliás, realidade da qual eu e você, se estiver lendo isso, somos vítimas. =)

Deixo aqui uma tradução livre da introdução desse capítulo. Foi feita quase às pressas e as figuras que acompanham o texto foram gooogladas por mim, sendo as únicas que encontrei. Gostaria de poder ter acesso a mais imagens, mas realmente são coisas muito específicas. No mais, as danças macabras às quais o texto faz alusão são painéis ou quadros (às vezes afrescos) retratando a morte dançando com uma série de diferentes personagens da sociedade medieval. Aparentemente essas danças tinham como intuito retratar a igualdade de todos perante a morte. Algumas obras que são citadas ficam boiando para nós, já que: 1) minha tradução não é profissional e eu me confundi na sintaxe 2) não existem imagens online de tais obras.

Enfim, eis o texto. Espero que curtam. =)

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Capítulo 6
A infiltração imaginária
6.1 Um instrumento misterioso para quem o vê ou escuta

Aquilo de misterioso que é associado ao personagem do mendigo cego poderia muito bem entrar em ressonância com certas características da viela de roda bem suscetíveis a produzir uma impressão de inquietante estranheza, segundo a expressão de Freud que nós já citamos.

Estranho objeto que frequentemente incorpora a forma de um navio a velas (as vielas em formato de alaúde), que é um instrumento de teclas como o cravo, com a diferença de ser quase um instrumento de arco como o violino - ainda que a madeira do arco não tenha crinas e entre diretamente em contato com as cordas -  e que não se trate de um arco propriamente dito, já que é uma roda. E finalmente, cheio de contradições, ainda é utilizado como instrumento de percussão. Entendemos que aquele que o vê ou escuta é de primeira intrigado e sempre desejará saber <<como funciona>>, como se fosse decifrar algum tipo de mistério inquietante e atraente.

Este instrumento também é estranho porque vem do universo medieval do modalismo e é utilizado, no período barroco, para tocar a música tonal, ainda que os bordões tentassem impossibilitar completa ou parcialmente os tons, gerando alguma dissonância.

A roda é um arco. Esta é, então, circular como a representação de uma volta sem fim. Eliade à enxergará como a figuração de um tempo cíclico, anti-histórico, aquele das civilizações do eterno retorno.
A parte que nos interessa do Jardim das Delícias, de Bosch. 

Musicalmente, a roda fará com que o som não cesse jamais, e que o silêncio seja impossível. De fato, parar a roda seria parar os bordões; produzindo então um vazio brutal, um desaparecimento de um espaço musical, uma ausência e não um silêncio. O vielista não saberia se conter, a menos que ele de fato terminasse <de tocar>. Veremos que a viela pode despertar o atraente e assombroso dentro do seu movimento sem fim; esse movimento circular que outras culturas utilizam devido a seu efeito hipnotizante.

Eu diria que essa é a do Soldan, mas também podeira ser a que se encontra em Sion.
O site realmente não ajudava e eu fiquei sem saber. A ideia, porém, é essa.
A iconografia nos confirma que a viela de roda podia fascinar por seu mistério. Sonhamos com a utilização que Jérôme Bosch faz do instrumento na sua representação de universos fantásticos; sonhamos com as imagens de vielas que encontraremos em certas danças da morte. Citemos as que Georges Kastner traz à tona: a viela é associada a um dos quatro esqueletos-músicos presentes no manuscrito 7310 da Biblioteca Nacional da França. A encontramos também nas mãos de uma velha mulher vestindo uma cornette e que toca no meio dos esqueletos-músicos no icones mortis de Holbein. Ela aparece nas diversas representações do instrumento que podemos ver na Danse du grand Bâle, uma dança macabra de mulheres do fim do século XV que está no manuscrito 995 da Biblioteca Nacional de Paris, folio 24. A morte, também carregando uma viela de roda, acompanha Adão e Eva expulsos do paraíso numa placa de chaminé feita por Philippe Soldan em 1573. 

Painel La Chaise de Dieu
Datando da mesma época, também pensamos na dança macabra do painel La Chaise de Dieu, em que vemos um instrumento em formato de alaúde. Há também aquele reproduzido por Wilkins, do século XV ou XVI - aproximadamente da mesma época. E não podemos esquecer do conhecido quadro de Breughel, Le Triomphe de la mort. Citemos por fim aquela obra, que se encontra em Sion, na Suíça, representando o demônio armado de uma viela, provavelmente no momento em que Adão e Eva são expulsos do paraíso.

Le triomphe de la mort - Breughel (viela no canto inferior esquerdo, na carroça)
Falta consideramos se este aspecto perturbador da viela de roda explicaria o estranho comentário feito pelo Duque de Luynes. A rainha, Marie Leszczynska, não tocaria jamais esse instrumento às sextas-feiras, dia de penitência. Ainda que o praticasse nos outros dias da semana. “Apenas às sextas a rainha não toca a viela, mesmo em sua casa. É uma antiga prática de devoção.”



Referências feitas no texto:

ELIADE, Mircea.  Le sacré et le profane, 1957, tr.fr. Paris, Gallimard, 1965.
Kastner, Georges. Les danses des morts, Paris, Brandus, 1852.
Wilkins, Nigel. La musique du diable, Sprinmont en Belgique, Mardaga éditeur, 1999.

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Por favor, saibam que essa tradução foi feita de forma completamente despretensiosa, apenas para vocês terem uma ideia da riqueza de informações que esse livro nos traz. É interessante ver que mesmo lá atrás a viela de roda já era um instrumento estranho e apaixonante. Aliás, também podemos dizer que era um instrumento polêmico, já que dividia opiniões.

Logo volto com mais novidades sobre nosso exótico instrumento em terras brasileiras, ok? 
Muita coisa rolando por aqui. 

Vielisticamente,


terça-feira, 15 de julho de 2014

Do Brasil, mas não no Brasil: música na mochila e Gregory Jolivet


Eu não sei se é o mundo que é pequeno mesmo ou se é o mundo da viela de roda que consegue ser ridiculamente minúsculo, mesmo com todos os seus vielistas espalhados pelos sete cantos do globo. O que eu sei é que essa semana tive duas surpresas lindas ao me deparar com um episódio do programa Música de Bolso, do canal Bis.

O programa acompanha Guto Guerra e seu ukulele por todo o planeta, mostrando músicos de todos os tipos e estilos tocando por vários lugares e em diferentes situações, todas terminando com uma pequena jam entre eles e o próprio Guto.

Na França, o apresentador não só conversou com os caras do Les Musicien de St. Julien (que estiveram aqui ano passado e sobre os quais escrevi aqui), como também conversou com um dos vielistas que mais admiro no mundo - até porque é um dos melhores, sem exageros: Gregory Jolivet.

Eu conheci o trabalho do Gregory solo com sua espetacular Scottishe Urbaine (vídeo ali embaixo); e depois descobri pequenos trabalhos dele aqui e ali, como o grupo de música folk francesa La Machine e um ou outro show que ele fez com a Loreena McKennitt.


Depois, também por pura coincidência, descobri que o Laurent, meu professor no Conservatório de Bourges, também tinha sido professor dele, aumentando mais minha admiração por seu jeito energético e tão característico de tocar.

Gregory toca uma viela alto construída por Philippe Mousnier, luthier mais que unique e inovador em vários sentidos. 

Foi com uma belezura dessas que Gregory demonstrou todo seu virtuosismo neste episódio do Música de Bolso (número 5, da terceira temporada).


Fiquei super feliz de ver um brasileiro conhecendo a viela de roda lá, onde a coisa existe pra valer. Mas confesso que rolou um certo ~recalque~ porque nós estamos aqui, firmes e fortes, fortalecendo a pequena comunidade de músicos que giram manivelas. Além disso, o site havia colocado que Gregory Jolivet era especialista em órgãos e meio que ignoraram o nome do instrumento, utilizando vez ou outra o vocábulo francês vielle à roue

Tudo que sei é que eu fui ~xingar muito no twitter~, mas na minha página pessoal, de brincadeira mesmo. Não esperava que fossem atrás do instrumento em português porque né, ninguém sabe que ele agora existe por aqui... Mas pasmem: para minha surpresa, no dia seguinte me deparei com isso aqui.



Já agradeci no twitter, mas não custa deixar mais um obrigado aqui pela consideração de corrigir esse erro HORRENDO - brincadeira - por terem tido tamanha consideração.

E que num futuro alguma matéria de TV seja feita conosco aqui no Brasil. 
A gente merece, vai. =)

Vielisticamente,


quarta-feira, 9 de julho de 2014

Eight's a charm - No Brasil: Nayane Spigoti


Poucas vezes na vida podemos nos preparar para um momento em que nossa estrada muda de curso e tudo ganha uma nova cara, sob uma nova luz. Hoje foi um desses dias para nossa querida amiga Nayane Spigoti, que viveu um desses momentos mágicos - um pelo qual ela esperou, e muito - ao receber sua linda viela de roda. Vindo diretamente dos confins de Lancashire, na Inglaterra, Wren foi construída pelo mesmo luthier da minha viela de roda, o simpático e talentoso Neil Brook. Posso dizer que minha Lyanna agora tem um irmãozinho lá em São Caetano do Sul, em São Paulo. Oitava viela de roda (não contando as sinfonias dos grupos de música antiga) a chegar no Brasil. 

Apesar de ser a segunda viela construída por Neil a chegar por aqui, ela ainda é a única do modelo Wren, feito especialmente para aqueles que estão iniciando essa aventura que é tocar viela de roda. É um modelo simples, compacto e extremamente charmoso. Eu realmente não sei o que é ter um instrumento tão prático para carregar (eu sempre pareço estar carregando um caixão de anão nas costas), por isso acho que é um instrumento válido não só para iniciantes, mas para todo mundo que vez ou outra precisa viajar com sua viela ou carregar ela para sessions. Além disso, o Wren vem com tudo que uma viela de roda precisa ter: trompette (cachorro), bordões, cordas cantoras e e tudo mais. Vale muito a pena.

Nayane conheceu e se apaixonou pela viela através da banda Eluveitie, que traz a linda Anna Murphy, sempre encantando mais pessoas e trazendo mais jovens ao fantástico mundo da viela de roda. O que me fascina nisso tudo é que uma coisa é você ver o instrumento e se encantar, outra coisa é fazer o que a Nay fez (e eu fiz, e todos nós da pequena comunidade vielística fizemos), que é embarcar de cabeça num projeto que é trabalhoso e delicado sim: conseguir uma viela de roda. 

Mais uma vez vemos que apesar das complicações, é tudo uma questão de planejamento. Nayane levou aproximadamente três anos desde sua decisão até ter o instrumento em mãos, hoje. Segundo ela, esse período ainda contou com os seis meses na fila de espera, alguns meses na fabricação e mais uns meses para quebrar a cabeça sobre como trazer o instrumento. Passar pelo processo de pesquisa sobre transferências bancárias, datas, taxas, preços... Ufa! Tudo isso pode ser muito exaustivo, e às vezes é só o começo, já que ainda precisamos pensar e repensar como e quando buscar a viela, decidir se a confiaremos aos correios (don't), se vamos busca-la ou se alguém nos fará o favor de traze-la. Mais uma vez: é questão de estudar e planejar, sempre com calma e foco.

Hoje acabou sendo um dia especial para mim também, porque não tem como presenciar isso e não ficar feliz, não ser tocado pela sensação de sonho realizado. Há quase três (!) anos quem vivia esse momento era eu; e é pra sempre, mesmo. Sei que isso soa um pouco dramático, mas a sensação de impotência diante de querer um instrumento desses já soa como uma constante lá fora, onde a mobilidade é mais em conta e há menos barreiras, então imaginem em nosso país. Sabemos que não é fácil, por mil razões: o preço, a não-existência de vielas por aqui, o tempo de espera etc. E hoje mais uma pessoa foi além dessa ideia assustadora de... Ter uma viela de roda no Brasil. E crescemos mais um pouco.

Deixo aqui meus parabéns à Nayane e ao BeanSidhe, por terem realizado juntos esse sonho. Agora temos a oitava vielista de roda de nosso país, curtindo um instrumento lindo e logo logo vindo à tona com um trabalho legal e porque não, promissor? Digo isso porque antes da grana e às vezes até mesmo do talento, o que conta é a paixão; e a sua paixão é nítida, Nay!

Vielisticamente,

;-)


terça-feira, 17 de junho de 2014

Eu e minha viela: pequeno vídeo


Em maio a tantas coisas que ocorreram ultimamente, esse presente tão especial que ganhei ficou temporariamente esquecido. Para quem não sabe, no final do ano passado gravei um pequeno vídeo informativo sobre a viela de roda, onde não só explico como o instrumento funciona, mas também conto um pouco da minha história. Esse lindo trabalho foi gravado, editado e produzido pelo querido amigo Pedro Costa.

É engraçado olhar para tão pouco tempo atrás e reparar em coisas que já mudaram. Minha postura, meus dedos, a mão na caixa das teclas... Enfim, perfeccionismos à parte, fica o vídeo para quem ainda não me viu tirando um som da minha Lyanna. Vale a pena. 

Basta clicar aqui.



Vielisticamente,

;-)

quinta-feira, 12 de junho de 2014

No Brasil: Raine Holtz


O algodão ruivo é o Fox Fiber, produzido pelo Mel Dorries

Este não é um post sobre algodão, diretamente.

Esse pacotinho chegou essa semana para mim, em boa hora, já que eu estava matando viela a grito com o algodão que estava usando por aqui. A boa alma que me enviou isso? Raine Holtz, diretamente de Curitiba. Acho que todo mundo que lê esse blog sabe o que um punhado de algodão significa para nós, então não tenho medo de dizer que estou até agora radiante com esse presente. hahaha

Raine abençoando o algodão que ia me enviar BRINKS
(Jantar Medieval taberna folk VI, 24/05/2014)

Engraçado mesmo é pensar que até alguns meses atrás eu estava sempre à procura de pautas para o blog e hoje, vejam só, existem "mil coisas" acontecendo na ~~~ cena vielística brasileira ~~~ e ao dizer mil coisas eu estou me referindo a uma só: Raine.

Eu já havia feito um post sobre o lindo trabalho do Through Waves - que vai muito bem, obrigado, lançando logo logo um novo EP - mas hoje estou aqui para falar do que esse ser iluminado vem aprontando por nossas terras, fazendo música ao vivo e mostrando a viela de roda para pessoas que nunca imaginaram sua existência.

Quando entrei em contato com Raine pela primeira vez, eu estava falando com um artista super reservado, com algumas ressalvas em relação a se apresentar ao vivo e expor seu trabalho, que teve uma origem mais terapêutia/catártica antes de qualquer pretensão mais, digamos, artística. (Ledo engano, Rainnsss)

And this is what I use to release the awesomeness
Fato é que Raine hoje já é praticamente uma celebridade, constantemente filmado e fotografado em suas tardes tocando pelas ruas de Curitiba e já até participou de dois jantares medievais Taberna Folk. Quem diria, um vielista brasileiro ganhando popularidade tocando nas ruas. (!)

Raine não só tem crescido enquanto artista, mas tem o feito levando a viela de roda diretamente às ruas de sua cidade, o que é um ato tão nobre, mas tão nobre, que ninguém tem noção. Essa atitude linda já gerou bons frutos para nosso pequeno mundo, e Raine apareceu em algumas matérias jornalísticas sobre seu trabalho e, claro, sua viela.

Com Luis FitzPatrick
Além de participar de jantares medievais e de embelezar as ruas de Curitiba, Raine ultimamente tem se reunido com diferentes vielistas brasileiros, algo que só pode ocorrer de forma mais imediata lá pelas bandas dele, já que o Paraná conta com nada mais nada menos que TRÊS dos raros vielistas brasileiros. Raine andou trocando figurinhas com os outros dois (!) vielistas, que fazem parte da banda Gaiteiros do Lume (em breve um post sobre eles!), a saber, Mateus Sokolowski e Luis FitzPatrick.

Raine e Mateus. Dava uma dupla folk vielíestica (Y)
Acho incrível como aquelas bandas são férteis para a viela de roda. Além de Raine, Mateus e Luis, logo contaremos com uma vielista nova também. Bom, isso é assunto para depois. Fiz esse post mais para registrar a alegria que é ver essas coisas acontecendo, música sendo feita por mais de uma viela de roda aqui no meu país. Pessoas se encontrando para tocar e trocar experiências. Isso é lindo.

Deixo aqui meu agradecimento ao Raine pelo algodão, pelo apoio e pelo carinho. E desejo sorte a esse bando de vielistas de roda jogados por aí. Continuem a divulgar nossa paixão, mostremos cada vez mais nosso instrumento lindo; e vamos abduzindo mais gente pra esse mundo nosso.



*A vielas dos Gaiteiros do Lume foram feitas por Xaime Rivas (para do Luis) e Jaime Rebollo (para o Mateus), ambas galegas.  A viela tocada por Raine Holtz vem dos EUA, tendo sido construída por Mel Dorries.

Vielisticamente,

Rique


quarta-feira, 7 de maio de 2014

Busk in Basel: meus últimos dias na Suíça



Marktplatz num dia sem feira, minha esquina
está ali naquela árvore.
Os casacos e os chapéus pomposos que se moviam dentro da loja já não me intimidavam tanto. A loja de jóias onde eles se encontravam, bem em frente ao meu banco, estava sempre cheia. Era bem pequena, na verdade. Logo ao meu lado havia uma carrocinha onde um simpático senhor vendia amendoim torrado, e nossa esquina terminava na Marktplatz, uma praça linda onde uma feira gastronômica ocorria bem em frente à câmara municipal. Era um prédio vermelho, muito característico. O cheiro do amendoim era perfeito porque todo mundo que parava para comprar seu pacotinho era obrigado a ouvir o som daquele instrumento ali.

Pouco importa se era uma quarta, quinta ou sexta-feira. Aqueles eram alguns dos meus últimos dias ali e o frio era o mesmo; na verdade era até um pouco pior naquele cantinho, onde um vento cortante insistia em passar. O frio, que até então não havia me incomodado, começava a se fazer presente. Acho que era o nervoso de estar me expondo daquela forma. Escolhi aquele banco não só porque estava vago, mas também porque o outro que estava disponível havia sido o palco de um rapaz e seu acordeon nos outros dias em que passei por lá. O meu banco era também bem discreto, não me deixando no meio de uma praça ou em um local muito aberto em que eu pudesse pegar chuva. Numa cidade tão certinha, só pega chuva quem quer.

Em Basel há toda uma organização (oh, really?) com relação à arte feita nas ruas. Há normas feitas especificamente para os músicos, que devem mudar de localização após uma hora tocando, respeitando a distância de outros músicos e levando em conta os horários específicos para o busking. Ainda assim, cada cantinho tem o seu músico de cativo, pelo menos em determinado horário, o que é bem interessante. Lembro da moça tocando flauta transversa na porta de uma loja de perfumes, do senhor do leste europeu tocando saxofone perto de um Mc Donnald's - ele certa vez atravessou a praça só para me alertar sobre o horário e as multas que eu pagaria caso fosse pego - e lembro do carinha hippie tocando um violão muito velho e tosco numa travessa. Havia uma cumplicidade nos olhares que trocávamos, reconhecíamos a dor e o prazer do que estávamos fazendo (eles, obviamente, muito mais que eu). Eu queria ter conversado com todos, mas sou tímido demais para isso. É engraçado, na verdade Os músicos de rua são admirados por toda a ideia romântica que os cerca. São trovadores. Mas ái daquele que decidir isso para sua vida. É estranho e fascinante, no fim. Eu amei todas essas pessoas, mesmo eu não sendo músico de rua. Na verdade nunca o fui. Era tão óbvio que eu vinha de longe. Um dia um rapaz carregando um alaude me viu no ponto de ônibus e mal disfarçou seu olhar de mas quem é esse? E olha que ele era um dos músicos da Schola, e não um dos músicos que tocavam na rua.  Eu não estou acostumado a tocar sem meus companheiros de banda porque me sinto nu, extremamente exposto. Amo e talvez precise de meus amigos ao meu lado fazendo música comigo. Em Basel não foi diferente, mas o frio na barriga que me atingiu após eu ter conseguido o panfleto informativo para músicos de rua não me impediu de tentar. Mesmo que ninguém soubesse, aquela cidade pertencia a mim e minha viela, pelo menos por aqueles dias.

Baffusserplatz
O primeiro dia foi estranho, saí cedo, pouco antes do almoço e da minha aula, só para estudar e procurar meu futuro spot. Sabia que seria em uma praça porque praças são lugares onde as pessoas normalmente circulam. Ainda mais em Basel, em que esses espaços são efetivamente utilizados e explorados de todas as formas possíveis e imagináveis, nem que seja apenas para acolher uma obra de arte, como uma escultura ou o que for. Por puro comodismo escolhi a Baffusserplatz, uma espécie de centro da cidade por onde quase todos os bondes passavam inevitavelmente. Me pareceu um lugar promissor, então comecei por lá. Fazendo um som pro pessoal que estava indo para o trabalho, pra escola etc. Foi bem desconfortável porque meu banco estava meio molhado, e as pessoas não prestaram a menor atenção. Eu já esperava por isso porque né, estamos falando de uma cidade extremamente cool. A cidade onde encontramos a maior escola de música antiga do mundo. Eu já imaginava que por lá a viela de roda não fosse ter um impacto muito grande. Percebi isso no dia em que vi um cara pegando o bonde, casualmente carregando o estojo épico de um theorbo como quem carrega um violãozinho nas costas. Oh, well. Fiquei um pouco lá, bem frustrado e obviamente ignorando o óbvio. Eu estava tão preocupado com o que iam pensar de mim, tão assustado com os olhares dos adolescentes, me perguntando se achariam graça, que esqueci de sentir o que eu estava tocando. Eu estava com medo de passar a maior vergonha quando o foco deveria ter sido sentir o que tocava. 

Mas Basel me inspirava a andar. Aliás, Basel me inspirava. Ponto. Com ou sem o estojo da viela nas costas, eu subia e descia suas vielas (no pun intended), fuçava cada vitrine e tirava foto de cada detalhe. Após algumas muitas idas e vindas da casa da Tobie, pude achar meu banquinho em frente à joalheria quase que por puro acidente. Então estava decidido, no dia seguinte, após meu tempo de estudo em casa, eu voltaria ali. 

Comecei tímidamente, porque estamos falando de uma cidade extretamente antiga, mas ainda assim, como disse, cool de uma maneira moderna. É quase uma cidade hipster, se pararmos para pensar na quantidade de nacionalidades que circulam por lá e na harmonia com a qual os jovens e os mais velhos se misturam naquele ambiente. Inspirado por esta energia boa e acolhido por um cantinho mais obscuro de suas ruas, comecei com tunes em sol porque os bordões soam bem e não ficam tão altos (eu não queria chamar atenção de ninguém). Para minha surpresa, logo se aproximou uma mãe com duas crianças e ela, da forma mais fofa da face da terra, mandou seu filho mais novo (um bebê!) vir até meu estojo e colocar no mesmo dois tímidos francos suíços. Meu dia já tinha sido decretado um sucesso ali. O sorriso no meu rosto só foi quebrado minutos depois, quando um casal francês - diretamente da Bretanha - me abordou. Me elogiaram bastante e ficaram atônitos quando falei que vinha do Brasil. Com uma viela que veio, por sua vez, de Gales. Jamais saberei ser gringo. Me senti um alien.

Além dessas pessoas fantásticas, outras dezenas passaram e deixaram suas contribuições, fossem elas um sorriso, uma pergunta, uma moeda ou apenas uma foto tirada de mim e minha Lyanna. Isso significou tanto para mim. Mas tanto. Acho que o sentimento de estar fazendo o que mais amo tão longe de casa, numa esquina qualquer daquela cidade, é algo que ainda não consigo colocar aqui. O frio nos meus dedos já não existia mais. A timidez, a insegurança, o medo, nada disso importava naquele momento. Era eu e minha viela ali, fazendo música numa cidade que é nada mais nada menos que arte.

A sensação que eu tinha é que tudo o que eu vivi a vida inteira teve que ser como foi para que eu estivesse exatamente ali. A viela é a viela em qualquer país, pensei.  A paixão que ela desperta aqui é a mesma que ela desperta lá, por mais que um ou outro na Europa a conheçam como vielle à roue ou ghironda.

Após ser alertado pelo meu companheiro do outro lado da praça, eu nem procurei outro ponto para tocar. Apenas peguei alguns trocados dos francos que faturei, comprei um café e fui andar pela beira do Reno. Fiquei quase duas horas por lá, apenas andando, já tentando me despedir de tanta coisa ao mesmo tempo. Tocar na rua para mim nunca foi uma questão de ganhar dinheiro. Eu queria apenas consolidar minha existência nessa cidade que me tocou de tantas formas, retribuindo tanta magia e tanto encanto vividos por um mês.

Me sentir em casa mesmo estando do outro lado do oceano é algo raro para mim. E nada naqueles prédios soava estranho. Nada naquelas ruelas, nada naquelas fontes de dragão soava estrangeiro. Suas pontes, seus moradores, seus bondes e seus músicos de rua, tudo, tudo, tudo, convivia de forma harmoniosa aos meus olhos. Ter estudado com a Tobie Miller, cuja paciência e o profissionalismo deixaram resultados permanentes em minhas mãos, foi algo indescritível. Ter participado da session também. Ter ido ao topo da Europa, subido montanhas descomunais que passavam por vales e sentir que olhei nos olhos de Deus... Nada vai me fazer esquecer nada disso.

E sabe de uma coisa, a viela é meu instrumento mesmo. E eu afirmo isso porque há uma imagem que não sai da minha cabeça, que é a imagem de mim mesmo sentado no banco do conservatório em que estudei no dia da prova de admissão. Lembro de ver um rapaz um pouco mais novo que eu tocando Bach divinamente, de uma forma tão energética que deveria ser inspiradora. A inspiração, nesse caso, nunca veio. E tudo o que eu pensava naquela tarde era que eu nunca seria assim. Era meio que uma sensação de perder um jogo antes mesmo de começar a jogar.

Não existe isso aqui com minha viela. Eu voltei para o Brasil feliz justamente porque a cada vez que vejo um grande músico deixar uma viela em chamas, eu sei que não é uma questão de se, mas sim uma questão de quando eu tocar assim. E eu acho isso o máximo. =]

Meus dois francos estão guardados para sempre.

Basilea no fim da minha última tarde por lá