sábado, 20 de fevereiro de 2016

Viela na novela (!)


Rio de Janeiro. Sexta-feira de carnaval. 14:15 pm. Para quem havia passado os últimos 18 dias rodando a Irlanda de cabo a rabo, eu até que estava me ambientando bem. Havia chegado há dois dias, e tudo havia sido maravilhoso, eu acabara de fazer as pazes com meu violino. No fundo, contudo, eu sabia muito bem que a manivela ia me puxar de volta com força.

Naquele dia a cidade toda já  estava a ponto de explodir e derreter-se em meio a blocos e desfiles e cerveja. Eu ali, debaixo daquele sol, com uma viela de roda nas costas e a demo de uma adaptação de Ondas do Mar de Vigo em meus ouvidos. Eu vou gravar uma música com a Fortuna. Um trabalho do Tim Rescala. Quem eu penso que sou, gente? Minha vontade era voltar no estúdio e falar oi, mas cês tem certeza de que é pra eu tocar, mesmo? O carnaval carioca de 2016 entrando em erupção e eu tão, tão longe. Da velha Península Ibérica aos cantos mais molhados do sertão brasileiro. Opará, nosso Velho Chico, correndo pela minha mente. Saí daquele prédio atônito, louco para mergulhar naquelas partituras que tomariam conta da minha vida pelos próximos 15 dias.

Tudo isso tem um quê de humor para mim porque lembro de uma época específica. Precisamente de uma noite em que levantei e timidamente saí de uma sala de concerto e me mandei, frustrado. Definitivamente, esse lance de trilha sonora não é para mim, pensei a caminho das barcas. Não me lembro direito em que ano isso aconteceu, mas sei que eu era mais um aluno de violino do Conservatório Brasileiro de Música. Aliás, um aluno bem chatinho de se ter. Vivia trocando Bach por tunes irlandesas; deixando grandes peças de lado para aprender canções de cego da galícia de ouvido, ou sonhando com o que eu realmente queria fazer. Aquela aula inaugural do curso de composição de trilhas para TV e cinema havia me deixado profundamente impressionado e completamente descrente de minhas habilidades enquanto músico. O primeiro dever de casa era compor e gravar uma trilha para um vídeo silencioso de uma bailarina em preto e branco. Quando que eu, que mal e porcamente fazia meu papel de mero violinista, teria capacidade de me envolver em algo do tipo? Que eu esperava algo além do violino, isso eu sempre soube - naquela época eu acho que estava ensaiando minhas primeiras pesquisas a respeito da viela de roda; e minha cabeça, sempre imersa no mundo trad, não viu muito sentido em seguir naquele curso. As aulas seriam ministradas por um tal de Tim Rescala, o que parecia ser um big deal. E o fato de eu ter que compor algo direcionado a um vídeo específico me assustou, mesmo porque:

1) Eu não toco piano.

2) Nem violão.

3) Eu não sei lidar com programas de gravação/mixagem. 

4) Mal sei lidar com uma direct box.

Fato é que esse curso botou Tim Rescala no meu mapa musical, e segui com a imagem daquele cara simpático e tranquilo que falava da absurda arte de compor trilhas sonoras como quem fala de amenidades e das coisas mais banais dessa vida. Um pouco de pesquisa e boom, seu devido respeito já fazia parte de mim como músico.  Ele lá, sendo foda e talentoso e gênio, eu aqui DE BOAS com meu instrumento de mendigo medieval.

Corta para o final do ano passado, eu terminando uma aula e vendo algumas ligações perdidas no celular e várias mensagens dos meninos da minha banda. Alguém estava atrás de mim por conta de uma gravação e eu não estava entendendo o alvoroço. Peguei apenas o número na conversa e liguei:

- Alô, quem fala?

- Hm... Você quer falar com quem?

- Não sei, me ligaram desse número. Aqui é o Rique.

- Ah, oi Rique, tudo bem? Aqui é Tim Rescala (caraleo, gesticulo eu do outro lado da linha). Minha esposa te ligou. É que estava precisando de uma viela de roda para a gravação da trilha de uma novela. Você tem interesse?




- Uhum, claro.

- Ok, mais pra frente entro em contato, me dá seu e-mail.

ETECETERA ETECETERA

Essa conversa foi tão surreal e tão aleatória que eu tive tempo apenas de surtar por precisos 5 minutos. Eu achei que ele apenas superaria essa história, porque afinal quem vai querer uma viela de roda para a novela das 21:00? Ou sei lá, essas pessoas geralmente já tem contatos, com certeza acabariam utilizando apenas um cello ou uma rabeca. Ou esqueceriam, já que eu de cara deixei claro (pela primeira vez quase me arrependo de programar uma viagem) que em janeiro estaria fora do Brasil... Enfim, deixei quieto e vivi minha vida até a fatídica sexta-feira de carnaval, há precisos 15 dias. E que 15 dias.

Foi muito estudo. Deixei de ir para o feriado dos amigos de SP e MG, em Indaiatuba; e mal saí durante o carnaval por aqui. Inclusive, no dia em que saí estudei o dia todo. Perturbei os colegas de apartamento do meu namorado, que não entendiam porque tanto tempo em notas tão longas, frases repetidas tantas vezes. Caí dentro mesmo, E AINDA ASSIM, faltou estudo. Um exemplo disso é um trecho em que eu toco "dó-ré-mi, ré-ré dó...", que de última hora passou a pertencer ao Cello. Ao ver o Marcus de Oliveira tocar essas três notas, sério... Fiquei sem ar. Que interpretação. Que magia, naquele som. Quis sair correndo! Estava perfeito. Digo, a parte dos outros músicos estava perfeito.

Acho o ambiente de estúdio complicado, porque tendo ao perfeccionismo, de certa forma. Nunca fico satisfeito. Com pessoas que não conheço, então, tudo fica mais tenso para quem é tímido. E estúdio com pessoas do calibre dessas que passaram o dia comigo hoje, então... Sério. Too much, too soon. Passei o dia inteiro em outra frequência, mas uma frequência muito boa. De quem está realizando um sonho.

Hoje foi um dia muito, mas muito especial. Um verdadeiro marco em minha vida musical. Gravei quatro coisas: Ondas do Opará, a adaptação que o Tim fez para Ondas do mar de Vigo; e pequenas frases para outras peças, uma delas exigindo improviso. Sério. Um dia você está em casa trocando algodão das cordas de seu instrumento obscuro e renegado, no outro você está num estúdio maravilhoso tendo que improvisar na frente do Tim Rescala para uma música da novela das 21h00. Sei lá, cara. Apenas sei lá. Agradeço eternamente à Virgínia, que gentilmente me indicou ao Tim. Agradeço ao Tim, lógico, pelo voto de confiança e paciência comigo nas horas de gravar pequenas frases. E pela carona providencial. E agradeço aos lindos músicos que tocaram ao meu lado: Fortuna, Marcus e Davi, com suas mil flautas mágicas. Vocês são maravilhosos. Ponto.

Fortuna, que dispensa  comentários;
 e Marcus de Oliveira, mago do cello.
Poder fazer parte da trilha sonora dessa história é uma honra. E o timing foi perfeito: voltei da Irlanda com sede da nossa terra e dos nossos sons, isso aqui foi a chave dessa porta. É um novo capítulo que se inicia na minha história com esse instrumento fantástico. E eu espero que vocês possam reconhecer meu Sieg nas cenas em que ele soar; e que essas canções tragam sorrisos aos rostos de vocês.




Rique

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Viela "baratinha" no eBay, o mito.

"Nature morte à la vielle" -  Henri Horace
A pressa é inimiga da perfeição. 
Essa máxima, ainda que clichê ao extremo, é a mais pura verdade para nós, músicos. Temos que ter calma na hora de aprender uma peça nova, na hora de lidar com aquela frase que embola os dedos e o mais importante de tudo, no nosso caso, antes mesmo de morrermos trocando cordas: comprando um instrumento.

A primeira vez que vi de perto a armadilha do eBay pegar alguém, foi quando um rapaz recém-chegado ao mundo da viela não conseguia afinar ou sequer tirar som de seu instrumento. Ao jogar a questão num grupo do Facebook, a decepção: as pessoas apenas diziam que aquilo era um pedaço de madeira e serviria muito bem como lenha para uma fogueira. Palavras duras, mas verdadeiras. Comentários surgindo daqui, relatos dali e voilà: o vendedor em questão já tinha uma reputação super suja no meio da música folk, vendendo instrumentos que iam de pequenos violinos chineses - apresentados como relíquias alemãs - a vielas de roda que encantavam aqueles que estavam começando a se interessar pelo instrumento. Para a sorte deste meu amigo, ele conseguiu seu dinheiro de volta e pôde passar para o modelo Minuet do Mel Dorries, melhor coisa que ele fez. A grande maioria das pessoas, entretanto, não possui essa sorte.

O mundo da viela de roda parece exigir de nós que vivenciemos certos estágios intensos antes de atravessarmos seus portões: todos nós já tivemos aquele momento de epifania ao ver uma viela e pensar putz, é isso. Preciso. E todos nós já passamos pelo baque do affe, não há luthiers no Brasil? Vou esperar tudo isso de tempo para ter um tesouro desses? Acreditem, sei muito bem como é isso. Todos nós sabemos. É frustrante, tendo em vista que hoje em dia temos tudo que quisermos a um clique de distância. Clique este que não se aplica à nossa donzela do mundo medieval. Ter uma viela de roda boa exige paciência e pesquisa. A dedicação começa muito antes de você encostar no instrumento, o que torna tudo muito mais mágico!

Diferentemente de um violão ou de um violino, quem decide tocar viela de roda PRECISA ter muito mais cuidado na hora de escolher um instrumento inicial. O fato destes instrumentos serem fabricados basicamente na Europa complica muito nossa situação, portanto eu sou adepto do seguinte pensamento: já que vamos pagar em euro de um jeito ou de outro, paguemos logo por um instrumento que seja pelo menos semi-profissional, de modo a evitar que num futuro passemos novamente por todo o processo de juntar uma boa grana e correr o risco de desembolsar mais dinheiro ainda indo buscar um instrumento do outro lado do mundo. O ideal para nós, brasileiros, é fazer bem feito de uma vez só. Concordo que começar com um instrumento super top de linha talvez venha a ser um exagero, mas acreditem: começar com um instrumento tosco ou aquém do necessário não pode gerar nada além de um grande desgaste emocional e uma despesa que nem tão cedo será compensada.

Resolvi fazer este post porque esta semana fui abordado por mais uma pessoa que tem encontrado dificuldades em regular uma viela. Uma moça muito gentil de Goiânia me encontrou e bem, pelas fotos, me surpreendi porque de fato me pareceu um trabalho mais decente que o geral, mas ainda assim, antes mesmo de fazer a pergunta, eu já possuía a resposta: a origem do instrumento era o eBay. Ela provavelmente deu sorte, pois seu instrumento parece ter sido construido de forma mais consciente e cuidadosa. Minha experiência, contudo, diz que o caso dela é uma exceção à regra, isso se de fato o instrumento for regulado em algum momento.

A quantidade de vielas de roda encontradas hoje no eBay pode ser impressionante. No momento, eu conto sete. Para termos uma ideia, a mais cara custa R$35.000, ao passo que a mais barata, super simples e até bonita, sai a mais ou menos R$2,500. Minha pergunta é: vocês realmente acham que essas dezenas de milhares de reais entre estes dois instrumentos é obra do acaso? Não se trata de conversão de moedas, da alta do dólar ou do fato de nossa moeda estar perdendo o jogo. Precisamos entender que a arte de construir vielas de roda é quase que um mistério da liuteria. Por se tratar de um instrumento obscuro e até mesmo renegado ao longo da história, suas tradições no que diz respeito à construção e manutenção sempre foram bem nebulosas; e precisamente por conta dessa dificuldade é que os construtores desses instrumentos dedicam suas vidas inteiras ao estudo e à escuta dos mais diversos instrumentos, das mais diversas tradições que podem vir da Galícia, do interior da  França ou da remota Hungria e/ou outros países do Leste Europeu. Cada tradição com especificações e limitações próprias. É necessário entender quem são os grandes construtores, que linhas eles seguem e que tipo de instrumentos eles fazem. Existem vielas tradicionais, existem vielas eletro-acústicas, completamente elétricas, vielas abauladas, trapezoidais, vielas alto e por aí vai. O fato de vermos algo que tem teclas, roda e manivela não significa de modo algum que estamos lidando com um instrumento musical. Evitem colocar o carro na frente dos bois.

Se por um lado a utilização do eBay facilita o encontro entre o aspirante a vielista e seu instrumento, essa via também oferece riscos e pegadinhas o tempo todo, expondo à pessoa a instrumentos que seduzem pelo preço e pela aparência exótica. Detalhes ornamentais que hipnotizam alguém que ainda não compreende tudo que está em jogo pra o resultado sonoro de uma viela de roda, como alguns dos aspectos de sua "anatomia" - as tangentes, por exemplo- fundamentais para a afinação.

Verdade seja dita, eu fico meio chocado ao ver vielas  de construtores famosos como Wolfgang Weichselbaumer e Balázs Nagy em um site como o eBay. Os preços de fato parecem confirmar suas origens e DEVEM ser levados em conta; mas ainda assim, são exceções e são vielas de segunda mão (o que é bom). Já a grande maioria - ou melhor, todas - as vielas baratas encontradas nesses sites são verdadeiras armadilhas (geralmente do leste europeu) construídas de qualquer jeito e sem nenhuma pretensão de gerar um som que satisfaça um músico. Por favor, pesquisem, procurem luthiers, assistam videos no youtube e procurem músicos em comunidades online. Temos - dentre outros grupos - o Viela de Roda Brasil, temos o Hurdy-Gurdy Player e o Club Vielle à Roue, cheios de pessoas mais experientes.

Para finalizar, os deixo com pequenos vídeos de diferentes vielas. Apenas a titulo de curiosidade, comparem aspectos físicos - esses "instrumentos" problemáticos geralmente são diferentes da maioria das vielas, parecem mais rústicos, suas rodas são instáveis - e atentem às diferenças entre os aspectos sonoros também.

                                           Viela de roda ucraniana, com anúncio no eBay.
                                                        O som claramente tratado.

                                            Uma viela Weichselbaumer, das mais caras.

                                 Modelo do galego Jaime Rebollo, uma opção um pouco mais em conta
                                                                    e de qualidade.


No mais, desejo a todos muita boa sorte e muita paciência. Acreditem, pesquisar e aguardar o instrumento certo é a melhor decisão a se tomar.

Logo mais volto com novidades muito legais.

Vielisticamente,

;-)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Segundo Encontro Nacional de Vielas de Roda

Foto do Everton Rosa

Não é de bom tom contar para vocês, mas o segundo encontro de vielas de roda no Brasil quase não ocorreu. Não tínhamos uma data, um local e muito menos pessoas confirmando presença... Foi de última hora que minha amiga Aerith Asgard sugeriu que utilizássemos o II encontro  de Folk Metal do Paraná para nos reunirmos. A ideia foi a  salvação da pequena - e menor ainda na ocasião - pátria vielística.

Cheguei em Curitiba sábado pela manhã. Dividi o ônibus com minha viela e meu namorado (sim, rolaram passagens de ida e volta apenas para ela, assim evitei voar utilziando um case vagabundo por motivos de: segurança em primeiro lugar, me julguem.) e tivemos uma viagem maravilhosa. 

Ficamos na casa da Raine Holtz, que conseguiu ser uma anfitriã ainda mais maravilhosa que da última vez, tendo em vista que ela sabe usar os memes da Inês Brasil. Corremos para o Largo da Ordem, hall das já tradicionais apresentações da Raine; e de quebra conhecemos o Gabriel Inague, que recentemente trouxe sua viela diretamente de Gales. Um modelo super diferente, feito com uma cabaça africana e carinhosamente apelidado hurdy-gourdy por seu inventor, Neil Brook. Foi uma tarde LINDA. Não falamos de outra coisa que não fosse a viela de roda e sua história. E nossas experiências, ideias etc etc etc.

Luis Fitzpatrick e sua zanfona. Gentileza e talento.
Curitiba desta vez fez mais sentido para mim. Só de andar ali pelo Largo da Ordem,  ver as pessoas e respirar um pouco daquele ar já foi suficiente para eu entender mais a vibe da cidade. Amei. O que também contribuiu para eu cair ainda mais de amores por Curitiba, é claro, foi aproveitar um pouco de sua noite. Tive o prazer de assistir aos Gaiteiros de Lume tocando no Fitzpatrick's Irish Pub, estabelecimento recentemente aberto pelo gaiteiro, vielista, flautista, concerti... nista (?) e cantor Luis Fitzpatrick. Que prazer. De quebra ainda tivemos uma pequena session por lá e eu tive a sorte de tocar sua zanfona galega, construída pelo Jaime Rebollo.

Luis também cedeu seu pub para o grande evento no dia seguinte, que foi um sucesso. O pub estava repleto de estandes de venda, com hidromel, artesanato, acessórios e até instrumentos vikings. O palco, que fica bem no centro do pub como uma espécie de aquário, estavas sempre acolhendo alguém. E em algum momento estávamos lá eu, Raine e Gabriel, os únicos vielistas que realmente puderam comparecer ao encontro. No fim das contas falei apenas um pouco sobre o instrumento (quem curte folk metal geralmente sabe muito bem como a viela funciona) e toquei um pouco - digo, tocamos um pouco.



Spotted
Os vídeos completos de nossa humilde palestra/apresentação podem ser assistidos no canal da Aliança Folk.  Foi muito bom dividir esse momento com Raine e Gabriel, duas pessoas lindas que depois passaram parte da tarde comigo respondendo perguntas, deixando algumas pessoas tocarem seus instrumentos e claro, trocando ideias e experiências. Aliás, tive também o prazer de conhecer uma estudante de viela de roda lá de Curitiba, a Kakau Salinas, que tem estudado viela com o Luis e já está arrasando na técnica do chien. Muito, mas muito legal mesmo ver esse tipo de coisa. O dia foi maravilhoso. Voltamos para o Rio de Janeiro com um aperto no coração. Esse nosso encontro foi algo quase simbólico, para não passarmos o ano sem um evento voltado para nós. Foi uma reunião de amigos, algo extremamente informal; e justamente por isso, inesquecível e verdadeiro.

Deixo aqui meu sincero obrigado ao Luis e sua boa vontade, aos organziadores do evento, em especial à Aerith, tão gentil e atenciosa. Deixo também um abraço aos queridos colegas de instrumento que não puderam comparecer a este encontro, em especial à Nayane Teixeira e seu Wren, que fizeram tanta falta, e também aos meninos da Mandala Folk, Mateus Solowski e Fernando Kinach. Vocês e todo mundo do nosso querido grupo do facebook fizeram falta. Ano que vem organizaremos tudo com bastante antecedência e quero ver cada um de vocês conosco.



terça-feira, 27 de outubro de 2015

Enfrentando medos: tangentes.


Já se foram quase quatro anos desde que eu pude tocar numa viela de roda pela primeira vez. Estando no Brasil, absolutamente exilados do "universo" que rodeia o instrumento na Europa e até mesmo na América do Norte, nós acabamos nos tornando luthiers também, de certa forma - ou deveríamos, em teoria. 

Eu achei que já havia recebido minha parcela de perrengues de liuteria quando, há algum tempo, precisei não só retirar algumas teclas da viela antiga, mas também lixa-las na medida certa e coloca-las de volta sem problema algum. A humidade havia chegado de vez nela e algumas teclas haviam literalmente inchado. Filho da %$#@, pensei. Bem que o luthier avisou. A mesma coisa rolou recentemente quando meu dó grave quebrou. Eu havia sido avisado, fiquei possesso, mas tudo correu bem. O primeiro perrengue, contudo, foi muito tenso. Retirar teclas... Olhando o teclado de uma boa e velha viela de roda, a tarefa não pareceria tão assustadora, não fosse por um pequeno detalhe: as tangentes. (BOOM!)

Essas pecinhas fofas e delicadas que se encontram presas nas teclas são nada mais nada menos que a (s) alma(s) da viela de roda. São elas que encostam nas cordas, encurtando-as e produzindo as notas. Um poder que pode tanto simplificar quanto complicar a vida, daí o medo absurdo de brincar com elas.

Uma coisa que aprendi é que quando falamos da afinação de uma viela de roda não precisamos necessariamente mexer nas tangentes. Aliás, na maioria das vezes esse não será o caso. Quando tocamos viela de roda, temos de lidar com milhares de possibilidades que podem influenciar o instrumento, a saber: 

1) A quantidade de algodão nas cordas - Muito algodão deixa o som abafado e com interrupções - as notas precisam ser continuas, de forma natural. Pouco algodão, por outro lado, pode deixar o som meio arranhado e nada agradável.

2) A quantidade de resina na roda - Novamente, muita resina na roda vai resultar num som também arranhado, você não vai conseguir produzir uma nota que preste; enquanto pouca resina na roda vai deixar o som baixinho e distante. Algumas notas mal soariam.

3) A pressão das cordas na roda - Isso é regulado nas vielas mais tradicionais com pequenos pedaços de papel ou plástico colocados por baixo das cordas ali no cavalete, de modo que a corda não fique tão pressionada contra a roda, algo que também gera o som arranhado e uma série de barulhos nada bem-vindos.

Certa vez, depois de passar dias tentando consertar a forma como um dó sustenido soava, um luthier teve a  cara de pau de me dizer "ah, tudo bem. Você não vai usar muito essa nota, mesmo". Bom, eu tendo a concordar mais com uma professora minha que disse que pagamos caro por um instrumento e que todas as notas devem soar dignamente. Não existe uma tecla não funcionar, uma nota não existir. Devemos fazer tudo para que todas estejam em ordem. A questão aqui é que se nos certificarmos de que tudo que mencionei ali em cima está ok e ainda assim tivermos algumas notinhas soando fora, sejam elas mais agudas ou graves (geralmente as problemáticas são as mais agudas) teremos que mexer nas tangentes. .(NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOO!) - Sim. E acreditem, não é esse bicho de sete cabeças. Se eu tivesse tomado coragem de fazer isso há mais tempo, eu teria aproveitado muito mais minha antiga viela de roda. Mas enfim, vamos lá.

Exemplo tirado do site richard-york.co.uk
As vielas mais tradicionais possuem tangentes de madeira, como as da imagem ao lado. Para mexermos nelas, precisamos apenas de uma chave de fenda básica e um lápis. As tangentes estão presas em diferentes direções que não são nada aleatórias. Elas estão do jeito que estão por uma razão: a afinação. Para alterarmos suas alturas, precisamos apenas afrouxar um pouco os parafuzinhos que as seguram e girarmos elas levemente para um lado ou para o outro. Eu sei que isso soa extremamente simples, mas é necessário muito cuidado para não perdermos de vista a posição em que ela se encontra inicialmente. Um afinador eletrônico vai te ajudar muito, mas ainda assim, né. Ficar atento não custa nada. E POR FAVOR CERTIFIQUEM-SE DE AFINAR A CORDA SOLTA antes de qualquer coisa. Mesmo.

Além disso, existem dois aspectos fundamentais que precisamos ter em mente ao mexermos nas tangentes:

1) A direção para qual a tangente apontava originalmente. Antes de move-la, marque um pontinho com de lápis bem em frente à sua ponta, desta forma, se a afinação for de vez pro espaço você saberá para onde apontar a sua tangente novamente e recomeçar. 

2) Certifique-se de que ambas as tangentes (de ambas as cordas cantoras) encostem nas cordas ao mesmo tempo, para ter certeza disso é necessário que ambas as cordas estejam acionadas, isto é, fora do suporte que suspendem elas. Uma tangente encostar antes da outra nas cordas pode gerar problemas sonoros indesejáveis.

Exemplo tirado do drehleierworstatt.com - tangentes de metal
As minhas tangentes são de metal, um tipo mais moderno, como as da foto acima - de um instrumento também construído pelo Sebastian Hislmann. Estas tangentes são reguláveis tanto da esquerda para a direita como de baixo para cima, me permitindo assim ver pela marca do próprio parafuso  a altura correta para que ambas tamgentes tocassem as cordas ao mesmo tempo. Já em relação à direção, não foi preciso utilizar o lápis para marcar a posição original. O truqe aqui é afrouxar o parafuso na medida certa para que a tangente não fique tão solta, de modo que possamos move-la muito sutilmente até atingirmos a finação desejada. O resultado foi magnífico e o som ficou perfeito. Foi libertador, fazer isso. Praticamente um rito de iniciação.

Um outro aspecto importante que devemos levar em conta é a extensão completa da corda. Cada viela tem uma extensão específica que deve ir do local por onde a corda sai, até o cavalete. A minha eu descobri porque meu luthier fez questão de deixar isso claro para mim, então seria o caso de sempre perguntarmos. Caso essa distância seja alterada (geralmente porque aquelas madeirinhas ali no topo [ffoto ao lado] se moveram), também podemos ter problemas de afinação. Este seria um caso mais difícil de ocorrer, pelo que entendi, mas ainda é uma possibilidade.

O importante é manter a calma e tentar, sempre. Apenas assim veremos que somos capazes de mexer nesse instrumento tão complicado. Nós ouvimos o tempo todo o quão cuidadosos devemos ser com a viela, como é um instrumento delicado, que requer cuidados etc. Acho que isso nos inibe muito na hora de tomarmos atitudes em relação à manutenção. Vamos lembrar que esse instrumento está aí há pouco mais de que, dez séculos? São instrumentos que levam tempo para serem feitos, então não vão ser pequenas manutenções que vão quebra-los para sempre. Lembrem-se que afinação é fundamental para qualquer músico, em qualquer instrumento. E que nossa viela já foi muito rotulada como algo que soa dolorosamente ruim durante séculos. Tá na hora de darmos um desconto a ela. =)

Mãos à obra!

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Viela de Roda no Jornal - Rioshow

Fotinho pelo Davi Paladini
E dia desses (semana passada) saiu um matéria no Rioshow sobre instrumentos incomuns; fui convidado pela jornalista Paula Lacerda a conversar com pouco sobre a viela de roda, minha banda e minha história com o instrumento. Foi uma experiência bem bacana e os frutos apareceram domingo, na nossa session mensal em Botafogo. Muitas carinhas novas, animadas e encantadas não só pela viela mas por tudo que rola em nossa session. =)

Confira a matéria clincando aqui.


Vielisticamente,

(Logo logo retomo com novidades vielisticas sobre meu amado Rio de Janeiro)

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Busk in Rio ;-)


Sábado, 19:30 PM. Ipanema. Uma senhora sisuda e austera passa por nós de cara amarrada. Mais uns passos à frente para, olha pra trás e retorna. Gelei. Essa daí não gostou, não, penso.

- Que engraçado. Que instrumento é esse?

- É uma viela de roda.

- Nossa... Que inusitado. Parabéns, vocês são inusitados. Essa foi a coisa mais inusitada que vi hoje.

- Obrigado! =)

Ela se retira - dessa vez com um sorriso no rosto - para ceder ao impulso por uma segunda vez e voltar pro nosso cantinho.

- Olha, toma: não é dinheiro, não. Mas é inusitado também.

Assim eu e Pedro concluímos mais um dia de busking nas ruas do Rio. Ele com sua flauta doce, eu com minha viela de roda. Terminar o dia recebendo arte em troca de arte foi um momento extremamente especial, e agora dividimos a custódia da inusitada tela que abre este post.




Feirinha do Lavradio
Busking. Taí uma coisa que nunca havia pensado que ia amar fazer na vida. Ultimamente eu tenho refletido muito sobre a música que toco e o que quero, e tocar nas ruas é um ótimo lugar para fazer música de forma leve e descompromissada. Me ajuda a pensar. Além de ser também uma ótima forma de estudar sem se sentir muito observado - meus vizinhos obviamente sabem muito bem quando estou ensaiando, ao passo que na rua o meu público muda a cada alguns minutos.

A ideia é aparecermos aos fins de semanas em alguns pontos bem característicos, como a feirinha da rua do Lavradio, na Lapa; a rua Voluntários da Pátria, em Botafogo ou a praça General Osório, em Ipanema.

Essa experiência tem sido cada vez mais enriquecedora. Pessoas de todos os tipos param e ficam encantados pelo som da flauta com a viela, principalmente as crianças. O mais interessante é ver como algumas reações são previsíveis: durante algum tempo a sensação é de ser invisível. Ninguém dá a mínima... Até uma pessoa interromper seu trajeto e parar. Basta UMA alma fazer isso para que outras tomem coragem e parem, sorriam e te abordem. =)

Sei que pode parecer besteira, mas fica meu registro. E meu agradecimento às pessoas que chegaram aqui após pararem e terem tido a curiosidade de me perguntar sobre esse instrumento fascinante. Com o tempo vou postando uma pequena agenda dos locais e horários em que estaremos nas ruas com nosso pequeno projeto itinerante. 


Vielisticamente,

;-)