quarta-feira, 17 de abril de 2019

Mühlhausen Spielkurs pt. 2


Nas minhas andanças com a viela de roda, eu já consegui estudar com algumas das pessoas que mais admiro musicalmente (e além!) nessa vida. As aulas que fiz até hoje foram todas particulares, dentro de um tempo mais ou menos limitado. Desta vez, ao estudar com Gemán Diaz, eu estava cercado de colegas de diferentes partes do mundo. Que vibe. Até porque o conceito de masterclass/workshop sempre me amedrontou - o tal medo da exposição, de se mostrar vulnerável e aberto à críticas.

O workshop com Germán, entretanto, foi um sucesso absoluto. Com um clima super descontraído, todos estavam realmente muito à vontade. Passamos por algumas peças galegas, uma medieval, uma barroca; entre outras coisas. E o trabalho em cima dos coups (obviamente remetente às peças trabalhadas) foi bem interessante; com escolhas muito relevantes e tocantes. Estou até hoje estudando alguns! Germán é um professor genial; e ter tanto para assimilar vai ser um trabalho enriquecedor e contínuo, vou levar tempo. 



Querida Fabi!

Pablo. Verdadeiro ícone.
Nossos dias em Mühlhausen eram assim: acordar, ir para a grande copa tomar café da manhã, partir para aula (onde ficávamos até o almoço, novamente na copa); depois tínhamos mais aula - pausa para um café - mais aula... Daí então jantávamos na grande copa novamente e voilà, rolava o Balfolk/Session.

É importante explicar aqui o que é um balfolk: um baile de música folk/trad, com foco em danças grupais, basicamente. Eu sempre toquei algumas danças que soaram no grande salão por aqueles dias; mas ouvi-las ao vivo, vendo aquelas pessoas dançando foi um dos momentos mais mágicos da minha vida. Dancei um pouco, timidamente, mas estava mais ocupado gravando áudios de diferentes tunes, tentando assimilar tudo aquilo no meu coração.Eu era um ET aos olhos deles, e eles personagens de um livro ganhando vida diante dos meus olhos.

Nossa rotina seguiu assim até a última noite, quando cada turma apresentou uma peça com seu respectivo professor. Nossa peça galega não foi tão bem como queríamos - Germán pode ser bem ambicioso em seus arranjos haha - mas a experiência valeu à pena, pois absolutamente todos se divertiram. 


A turma.

Logo após a nossa apresentação, que fechou a noite, rolou uma longa session regada à cerveja e chocolate (ái, Alemanha...) que pouco a pouco foi se esvaindo até sobrarmos eu, Pablo e Quentin, meus queridos roomies. O coração já apertava? Óbvio. Sem saber quando viveria dias assim novamente, eu só soube focar na felicidade de tudo aquilo; bem como no medo da ressaca da última manhã. Aliás, ao acordar, todos estavam claramente tristes. Havia uma magia entre os muros daquele prédio tão antigo. Algo que ficaria com a gente (ou pelo menos comigo) para sempre.

Largos entrando no grande hall
A última aula foi absolutamente triste. Tentamos tocar uma peça barroca (not my cup of tea), mas não tão legal. Logo pulamos para a parte em que tirávamos fotos e trocávamos contatos, histórias e abraços. Germán estava apenas na dele, respondendo atenciosamente, gravando pequenos trechos de coisas que precisamos estudar... Provavelmente já acostumado a lidar com turmas de gurdy players malucos. Mais um fim de semana de trabalho para. O fim de semana mais perfeito da minha vida.

O que eu posso dizer é que valeu a pena. Sempre valeu, sempre vale e sempre vai valer, fazer essas minhas loucuras. Esse instrumento vale a pena, como qualquer outro. Talvez valha mais, se pensarmos que ele é mágico, né. =)

A música, amigos, quando toca a gente da melhor forma possível, faz isso: abre caminhos, nos traz pessoas, nos faz encarar nossos pontos fracos e, se  os enfrentarmos, ela nos presenteia com magia pura.


Always in my heart.

terça-feira, 16 de abril de 2019

Mühlhausen Spielkurs pt. 1


A tune que estava tocando me soava familiar, sabe-se lá de onde ou quando. Me remetia à Bretanha, talvez. Soava como algo muito antigo. O cheiro era de cerveja e chocolate; e era tão forte que achei que meu cachecol precisaria ser lavado. Com a cabeça meio tonta de cerveja e o coração transbordando de música e alegria como jamais senti, levantei e fui até o palco me juntar aos músicos da session: uma gaita de foles alemã (dudelsak), uma nyckelharpa e outra viela de roda. A sensação era de que queria ficar ali, preso naqueles dias, para sempre. Nunca havia sentido isso. Por mais que eu reclame, eu sempre sinto falta do calor, das pessoas e dos cantos que tanto amo no Rio de Janeiro. Como eu vim parar aqui, gente? Foi um dos mantras daquela noite. O outro era: yep, missing carnival as we speak.

Dois dias antes eu estava andando por uma longa e fria rua de Berlim, sem internet, sem google maps e apenas com dois prints de celular com partes de mapas. Obviamente perdido. Obviamente me questionando se realmente valia à pena despencar para tão longe por algo que em teoria duraria tão pouco. Claramente sem ter noção do sonho que me esperava. Vamos ser menos impulsivo, Rique? Se informe melhor antes de se inscrever em coisas. Enfim, eu precisava chegar num instituto e encontrar Birgit; a moça que gentilmente (e virtualmente) aceitou me dar carona até Mühlhausen, coração da Alemanha, na região da Turíngia, para um workshop com Germán Díaz. Ela ia para integrar a turma de canto, com sua harpa para acompanhar. 

Apesar de estar perto do local, a dificuldade dos alemães para dar informações me atropelou; e depois de muita andança eu, meu instrumento e nossas mochilas chegamos ao ponto de encontro. Suado e com cara de quem havia chorado poucos momentos antes, apenas acenei e disse hey! ao ver uma mulher com seu case de violino, claramente esperando alguém.


Cheguei 12:30 em ponto. Me orgulho da minha pontualidade, na real. Mesmo quando tudo está meio que dando errado, ela prevalece. Enfim, a moça em questão era Suzana, violinista folk com foco no repertório alemão, algo bem peculiar para mim, que sempre fiquei ali pelo violino irlandês, escocês e talvez bretão. Ela me recebeu com um caloroso sorriso, sem questionar quem eu era. Nosso papo começou ali e só terminou de verdade no dia em que eu estava voltando para a casa do meu amigo em Berlim. Literalmente paramos de falar apenas quando desci no meu ponto. Que pessoa linda. E a apresentação da turma dela foi maravilhosa, e o som dela é lindo demais. Suzana fez minha viagem até a região da Turíngia algo nada constrangedor, e não tivemos sequer UM momento de silêncio indesejado.

Após mais ou menos três horas e meia dentro de um carro, a paisagem repleta de campos começou a se fechar e florestas começaram a tomar conta da nossa vista. Mühlhausen se revelou uma jóia charmosa a partir de suas casinhas, todas no estilo alemão; todas como se houvessem saído de uma fenda temporal. O workshop (Spielkurs Mühlhausen) ocorreria num dos prédios mais antigos da Alemanha, o AntoniQ; local onde o primeiro hospital da Alemanha existiu (havia sido uma igreja antes). Ao passar pelos portões e marcar presença na lista de chegada, reconheço um rosto que parece me reconhecer também: Fabi, a mocinha da viela roxa do Instagram, integrante de duas das bandas que sigo e curto (haha ai, Instagram! S2) estava bem ali. Depois de um sonoro whatthefuck e um abraço, era oficial: aqueles seriam dias positivamente difíceis de assimilar. Epicness confirmada. Fabi foi mexer com um vira-lata que entrou na vila, e eu tomei meu rumo, atordoado.


Segui para meu quarto, onde troquei uma ideia com um senhor chamado Quentinn (que eu viria a descobrir que já era meu amigo no face haha), pessoa maravilhosa, acolhedora e com o MESMÍSSIMO gosto que eu para tunes e álbums.  Epicness recafirmada. Poucos minutos depois, saio, pego a roupa de cama que será minha pelos próximos dias e volto para o quarto para ser surpreendido por Pablo, idealizador, compositor e vielista da Sangre de Muerdago, essa sim provavelmente uma das bandas que mais ouço quase todas as noites. Eu queria ter falado mil coisas ali naquela hora, mas apenas nos abraçamos e nosso primeiro dialogo foi sobre onde pegar os lençóis (!) para as beliches (!) do nosso quarto (!). Nem sei, viu. Muitos momentos legais por MINUTO naquele lugar.

Depois de uma verdadeira surra de encontros especiais, peguei minha viela e parti para o salão principal para a abertura oficial do evento e apresentação dos professores. Nem havia segurado minha viela e estava bem claro pra mim: qualquer dinheiro que eu tivesse investido já teria valido à pena.


sábado, 19 de janeiro de 2019

Viagem a Osasco e as Vielas do Elz Guitar


É sempre muito louco pensar que a viela de roda já existia há séculos antes mesmo do Brasil ser "descoberto". Mais louco ainda é saber que apenas agora esses instrumentos estão começando a aparecer por aqui, sendo feitos pelas mãos de brasileiros. O post de hoje é sobre mais um deles: Eduardo Luz, de Osasco, São Paulo.

Atelier do Edu, em Osasco
Eduardo trabalha como luthier de guitarras e baixos desde 2012; e tem como objetivo a ideia de expor a beleza e a sonoridade das madeiras nacionais. Descobriu nosso amado instrumento assim, do nada, como a maioria de nós. Graças ao César Augusto Santos (que não surpreendentemente) estava com dificuldades de conseguir um instrumente, Eduardo pôde não apenas ouvir falar, como também receber uma planta e uma série de informações técnicas para que um gurdy fosse construído. Loucura, né?

Eduardo Luz, eu e César Augusto. Gravação de um vídeo.
Após ter feito este primeiro instrumento, Eduardo tomou como base estética o modelo Henri III e construiu o instrumento que ele batizou de Tulip; com duas oitavas, dois trompettes, dois bordões e duas cordas melódicas. Esse primeiro instrumento foi adquirido por André Maziero, em São Paulo capital.

Mais alguns gurdies foram feitos - o segundo Tulip e um outro instrumento - e hoje ao que parece oito já foram feitos e entregues, se não me engano. Vou deixando ao longo do post algumas das fotos que estão na página do Edu no Facebook. Um trabalho bem bacana e um esforço legítimo e relevante para a história do instrumento aqui no Brasil.


Estou escrevendo esse post alguns dias após meu retorno de Osasco, onde estive para dar uma olhada nos instrumentos do Edu, gravar uns vídeos com um gurdy dele e ainda gravar um vídeo/papo com ele e o César, pessoa responsável por levar uma planta de viela de roda ao Edu. César está se preparando para lançar o primeiro canal brasileiro no youtube dedicado ao instrumento, algo que também precisamos. Ao que parece nosso vídeo será o primeiro do canal, estou animadíssimo! Com certeza vai ser uma fonte maneira de informações para os entusiastas do gurdy aqui do Brasil.

Beleza, Rique, mas e aí? E o gurdy desse cara, o que você achou? 

Eu não vou negar que a diferença entre nosso trabalho aqui no Brasil e o trabalho dos gigantes lá de fora ainda é grande, não podemos fugir disso. Mas isso é apenas natural, uma vez que lá fora temos profissionais que vivem e respiram essa arte há muitos anos. 

Por outro lado, nem todo mundo está disposto (ou na real pode) pagar milhares de euros ou dólares num instrumento - fora a importação ou a necessidade de ir ATÉ LÁ FORA buscá-lo. E vale lembrar que o Edu não é um vielista e caiu de paraquedas nesse mundo - e já acertando em vários aspectos. Isso me enche de certeza de que seus instrumentos só vão melhorar com o tempo, o feedback de seus clientes e o estudo dessa verdadeira arte quase hermética que é construir vielas de roda. 

DITO ISSO, eu devo dizer que o meu parecer é mais positivo que negativo. Gostei especialmente do teclado no que diz respeito à precisão e afinação das notas mais agudas - um problema em quase todos os gurdies - e do som das cantoras em uníssono. Achei as teclas bem macias, fáceis de tocar. Parte do meu estranhamento está no fato de eu estar acostumado com outro instrumento, que tem tangentes (as pecinhas acionadas pelas teclas, que batem na corda) que não são de madeira e isso também conta. Não tive tanto tempo para me familiarizar com a viela do Edu, que aliás pretende experimentar outros tipos de cordas, tangentes e materiais; coisas que fazem toda diferença. Eu acho que ele está no caminho correto; e hoje, aqui no Brasil, ele foi o que mais acertou em termos de construção. (na verdade ele e o Johnny Almeida, sobre quem escrevi aqui)


Outro fator importante a ser levado em conta é a dificuldade de manutenção do instrumento. Isso é algo muito sério, e devemos ter isso em mente mesmo ANTES de adquirir QUALQUER instrumento, seja de qual procedência for. Não adianta pegar uma viela de roda de 15.000 euros se você não tiver a paciência e sensibilidade para lidar com a eterna equação que é trabalhar a quantidade de algodão nas cordas, a resina na roda, a pressão das cordas etc (ontem mesmo passei HORAS lidando com essa porra risos pardon my French). Essas são coisas que talvez pesem um pouco para quem nunca teve contato com o instrumento e vai desembolsar uma grana para "ver qual é". 

Infelizmente o fato é que a viela de roda não é algo fácil de se construir, e não é apenas pegar o instrumento e sair tocando. Leva-se algum tempo até a coisa começar a andar. 

Paciência, calma e determinação são fundamentais.

No mais, poder tocar um gurdy brasileiro, dar um feedback voltado pro Edu - visando o futuro de seu trabalho - e poder trocar ideia com gente que ama esse instrumento tanto quanto eu foi incrível. Eu fico muito feliz em ajudar  quem quer que seja que esteja contribuindo para o mundo desse instrumento. 

E literalmente retornei ao Rio com a garganta doendo de tanto falar.=D




Deixo aqui meu agradecimento e meu abraço apertado ao Edu Luz, ao César e ao Walmir, tão atencioso em seu estúdio. Foi um dia muito especial. 

Até logo, com mais novidades!




terça-feira, 7 de agosto de 2018

Festival Conexões Musicais 2018 - UFF

Wings & Horns ao vivo, pela primeira vez. Vítor Freitas na Harpa.

Se há seis meses alguém me dissesse que eu encararia um palco sozinho (ainda mais num festival cheio de músicos) eu não acreditaria. Já acharia suficientemente surreal conceber que lançaria uma música... Mas tudo isso rolou, sim. Com direito ao o concerto (ou show?) em questão; e foi incrível passar por isso. Mais que sair da minha zona de conforto; mais que apresentar parte do meu mundo para pessoas tão variadas, o que eu realmente levo do Festival Conexões Musicais são lições que aprendi sobre mim, sobre minha música e sobre o que pretendo levar adiante. 


Ano passado eu já havia tido o prazer de ir "busking" pelos jardins da reitoria da Universidade Federal Fluminense, na feira medieval que fecha o Festival Conexões Musicais. Fui de enxerido, mais porque no ano anterior havia rolado uma viela e eu não pude estar lá. Foi esse simples ato que me trouxe de volta aos jardins da UFF  - dessa vez em cima do palco - para (re) ver tanta gente legal e tocar viela para um público extremamente musical e aberto ao novo, ainda que revestido de instrumento milenar. 

Contei com o  auxílio, a paciência e o talento de Vítor Freitas, harpista aluno da UFRJ que há meses vem me ouvindo e gentilmente se abrindo às minhas ideias musicais. Foi um verdadeiro privilégio ensaiar, trocar ideia e evidentemente me apresentar ao lado de um harpista. Ainda mais um harpista que já se tornou um querido amigo, com quem posso contar. Fica meu agradecimento, querido.

Passado a tensão do show da quinta, me restou apenas aproveitar a delícia que foi a feira medieval de encerramento do festival, também nos jardins da reitoria. Além do público de sempre (vocês sabem quem vocês são!=]) pude divulgar meu instrumento para mais pessoas ainda, distribuir cartões e pasmem, conhecer outro vielista! 

Johnny Almeida apareceu por lá com o tekerö húngaro - brasileiro, na real, já que ele mesmo o construiu - e me deixou tirar um som muito legal ao seu lado. Sorte de quem estava lá e mal sabia da raridade que é ver duas vielas tocando juntas por aqui... Ainda mais uma delas sendo brasileira. Fica também meu agradecimento ao Johnny por ter aparecido e ter sido tão gentil!

O processo de gravação de Wings & Horns segue estável, e com toda a magia envolvida em algo assim eu não poderia iniciar meu segundo semestre de forma melhor, por isso deixo aqui mais agradecimentos:

Ao Deivison Branco, pelo convite para o festival; ao Bebeto pela força lá no palco! Amei. Agradeço também ao Pedro Brandileone e à Kristina Augustin pela paciência nos e-mails; à Virgínia Van der Linden, sempre uma fofa e me indicando para mais pessoas antenadas na viela de roda. 

Obrigado novamente (e principalmente) ao Vítor, meu querido cristal harpista, por absolutamente tudo. 

Que esse evento tenha sido o primeiro de muitos.



.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Wings & Horns // Imaginary Music



Eu fazendo música - aos olhos dos outros - sempre foi algo em grupo.

Comecei com um pequeno duo com meu irmão. Brincadeiras em casa, algumas canções improvisadas no violão (que eu nunca toquei, mas servia para compor minhas primeiras músicas). De cara eu já sabia, muito no fundo, que o que eu queria não estaria no violão. Nem na faculdade de música. Após alguns anos de conflito, no meu primeiro dia na faculdade de Letras, conheci o Dé, meu veterano. E dali vieram os felizes anos com a Lágrima Flor; uma verdadeira escola que fez eu me enxergar como músico em vez de alguém que tentava se encontrar num violino, preso entre tradições e técnicas e rótulos. Esses  anos da Lágrima se mesclaram com o nascimento do Café Irlanda, outra escola. E com ela a realização inenarrável de me encontrar no meio daqueles sons que sempre haviam feito parte de mim e não conseguiam desaguar em lugar algum. 

Ainda assim, havia algo, lá no fundo. Porque ao encontrar a viela percebi que o que eu queria fazer estava além do meu instrumento; e muito além de tudo que eu havia vivido musicalmente até então. Foram anos compondo coisas que não tinham lugar em projeto algum. Ora soavam muito folk para uma banda mais pop, ora muito estranhas para um projeto Irish. E em vez de se dissiparem como névoa que pareciam ser, essas músicas se empilharam e ganharam força. Força essa que tanto pulsou, tanto doeu, que desabou sobre minha cabeça e aliviou meu coração. Uma avalanche coroada pela música acima.

O que desaguou, desaguou aqui no meu quarto ao longo de anos. E quando a viela chegou, uma porta se abriu e muita coisa simplesmente caiu de mim. Algo fluiu. Algo preso há muito, mas muito tempo.

Eu poderia dizer que esse projeto começa aqui. Ou quando gravei essa música. Ou quando à escrevi.
Mas não.

Esse projeto começou quando eu nasci; e quando peguei num violino pela primeira vez. Esse projeto nasceu quando alguém me disse que música não tinha nada a ver comigo. E quando me apresentei na frente de uma plateia pela primeira vez, orgulhoso por fazer minimamente bem algo que me salvou de tanta coisa, em tantos níveis que não cabe nem aqui dizer. Esse projeto nasceu quando desisti de um concerto de formatura porque fui sequestrado por um instrumento mais forte que eu.

Esse projeto sou eu, sozinho, me rendendo a algo que sempre evitei: me expor sozinho. Wings & Horns sou eu tentando existir, com o que funciona e o que precisa de melhora. É a coisa mais honesta que já fiz. E essas músicas estão chegando para o mundo. Sou eu virado ao avesso para qualquer pessoa ver e ouvir. 

Músicas que vieram de livros.
Músicas que chegaram pra mim em sonho.
Músicas que vieram da lua, do amanhecer, dos amores  - do amor - e das histórias que nem eu sabia que sabia.

Da luz e da sombra.

Daquilo que mais amamos em nós; assim como que daqueles cantos imperfeitos que gritam por aceitação em vão.

Essas músicas são espinhos e pétalas.
Chifres sim;

porém asas também.



Paths, o primeiro single:

iTunes: http://hyperurl.co/wingsandhornspaths

E também nas seguintes plataformas: Spotify, Deezer, Google Play, Napster e Claro Música

terça-feira, 15 de maio de 2018

Cellar Darling no Brasil


Rio de Janeiro. Teatro Rival, na Cinelândia. O camarim é o mesmo que ocupei com o Café Irlanda já duas vezes em noites de São Patrício. Tudo é familiar: o backstage, os corredores, o cheiro de centro da cidade na Cinelândia, com seus becos e botecos. O porém (muito bem-vindo) fica por conta da qualidade onírica do objeto que tenho em meu colo: um hurdy-gurdy branco. Que sonho, dá mega pra praticar tarde da noite, eu falo e ela ri concordando. O modelo é o Accento, construído por Sebastian Hilsmann, meu querido luthier. Por um segundo, o frio na espinha: o instrumento é colocado em outra cadeira e eu tremo só de pensar numa queda, num esbarrão. Eu vivo fazendo merdas assim, diz Anna, sorrindo. Eu rio desse jeito de menina desastrada - até mesmo um pouco insegura - que ela tem. O mais legal é que isso não anula a mulher magicamente badass que ocupa os palcos conduzindo a mágica de Cellar Darling, sua atual banda, que em menos de dois anos de surgimento trouxe um álbum maravilhoso e já tocou em diferentes países, sempre aclamados.

O gurdy em questão pertence à Anna Murphy. Força criativa da natureza (título dado por seu colega de banda Merlin), Anna só fez despontar no mundo da música desde o dia em que caiu nos feitiços da viela de roda. O momento no camarim, entretanto, foi apenas a cereja no bolo, uma vez que nosso papo havia começado bem antes desse momento, ainda num boteco obscuro da Cinelândia. Difícil de acreditar que isso rolou, na real. Já nos falávamos mais ou menos antes - até meio que já nos cruzamos, sem que ela soubesse. Há alguns anos eu havia encomendado o Largo por uma emergência (meu gurdy na época havia quebrado, e eu estava na Suíça) e ao voltar de lá eu vi que ela também estava tocando um Largo, achei a coincidência bizarra, uma vez que fui parar no Sebastian por indicação da Tobie Miller, que é de um outro universo musical. Inclusive queria ter trocado uma ideia com Anna sobre isso no último show dela com o Eluveitie aqui no Brasil, em 2015; o que não rolou. E fora isso, sempre trocamos algumas mensagens e comments no insta. 

Anna Murphy é incrivelmente gentil e inteligente; a sensação que tenho é de que tudo que ela fala sempre parece dizer mais do que ouvimos. Cheia das entrelinhas e comentários diretos e honestos (the meat here is so fucking good, man), Anna é de longe a artista mais pé no chão - e, na boa, ao mesmo tempo a mais etérea - com quem já conversei; e é essa incongruência maravilhosa que a torna esse furacão: a mesma pessoa que fala sobre como é foda juntar dinheiro depois de começar do zero para dar de entrada num instrumento, fala de um mundo abstrato de (re)cortes e melodias que vem de algum lugar muito profundo e misterioso; onde línguas se fundem e notas e histórias vem à tona. A realidade e a surrealidade se mesclam. Seus olhões azuis absorvem tudo que a gente fala, sempre atentos. Por alguns bons minutos não fazia sentido ela estar sentada ali na cinelândia com os rapazes da banda. E foi super estranhos eles irem passar som ALI NO RIVAL e ela ficar ali comigo chatting over caipirinhas.  2018 realmente veio cheio das surpresas.

Dinheiro, música, criatividade, cordas reafinadas em notas incomuns, comida, planos, medo de arriscar, caipirinhas e bagagens de mão foram alguns dos tópicos que contemplamos em nossa conversa.  Murphy fala como o próximo álbum de sua banda vai ter muito mais viela de roda, um instrumento para o qual ela sente em algum nível que sua música não é feita. Comentário para o qual rebati um alto e sonoro WHAT. Como assim, sabe? Mas Anna não desaponta e reafirma: o primeiro álbum foi muito tímido. Nesse viremos com força total. Vibro.

É muito bom entrar em contato com a fonte de tanta magia. Magia essa que encantou cada pessoa que estava no Teatro Rival ontem. Da primeira nota na guitarra de Ivo em Black Moon à ultima notinha de Challenge, todos foram sugados pela roda do gurdy branco. Não adianta tentar fugir.  Para mim foi uma festa, gritei sem medo de ser feliz. Nunca esperei vê-los tão cedo na vida; e o show foi uma das performances mais perfeitas que já vi - e isso vindo de alguém que já viu coisas impressionantes como sei lá, Sigur Rós. 

Impossível destacar apenas uma parte, mas se eu realmente realmente precisasse eu faria uma menção honrosa à execução de Redemption, minha música favorita do álbum, canção que compensou a ausência de Hedonia, a única música do álbum cantada em alemão suíço.

Do momento em que essa galera deixou sua antiga banda ao momento que desceram do palco aqui no Rio, a trajetória deles não deve ter sido nada menos que uma tempestade de emoções. Para mim, provar um pouco de toda essa energia em um set de uma hora foi absolutamente inesquecível. Técnica impecável, presença, simpatia e uma vibe boa que somente artistas fazendo show no Brasil podem sentir. Cellar Darling me impressionou ainda mais. 




sexta-feira, 4 de maio de 2018

Rio Harp Festival - Participação com Athy



O ano é 2009. 

Eu vivo e respiro meios de conseguir uma viela de roda. Banda começando, ideias, ideias e ideias. Para a galera da ~cena celta ~, naquela época ainda meio afastada e com menos opções ainda do que fazer, um pequeno oasis chega: Rio Harp Festival.

Música e magia no único ensaio que rolou.
Foi em 2009 que estive no festival pela primeira vez; e sem conhecer nada de nada, fui guiado pela minha amiga Ra para o show que atraía bastante público: Athy. 

Argentino apaixonado (e vindo diretamente) pelo mundo feérico, Athy sempre causou certa comoção em seus shows devido ao seu estilo obscuro e místico, delicado e muitas vezes sensual - nesse show especificamente ele tirou a camisa risos. Sua música, de acordo com ele, está aqui para trazer mensagens de outras dimensões. Todas elas devidamente captadas por seus fãs. Piadas à parte, curti o show (também rs) e comprei minha cópia de Sabour a Tiershra, ótimo álbum, companheiro de tardes e mais tardes de pensamentos e devaneios (e de algumas consultas de tarô - don't ask).

POIS DAÍ CORTA PRA 2018

Eu às voltas na madruga sem conseguir dormir devido ao não-tão-impulsivo-porém-ainda-louco ato de começar a lançar meu projeto "solo" dou de cara com um simples flyer anunciando um show do Athy em Ilha Grande. Penso rindo TAÍ, NÉ, sei lá. - muito do que eu componho dialoga com os conceitos por trás do trabalho dele - arrisco e antes mesmo de 24 horas eu me deparo com:



E daí a gente faz o quê? A gente sorri, aceita e finge que não está surtando. Foram alguns bons dias até essa terça-feira chegar. E toma ensaio... Mas chegou: dia 1 de maio. Beltane. Suits me.

Queria apenas deixar registrado a magia que foi tocar com esse rapaz. Escolhemos pra valer apenas uma peça, mas tocamos quatro - duas das quais improvisamos. O público adorou; e foi estranhamente familiar tocar no teatro do CCBB, um lugar que tanto frequento e tanto amo.

2018 chegou randomicamente épico; e essa minha primeira empreitada vielística já deu o tom do que vem por aí: novidades que até eu particularmente ainda custo a acreditar.






Pós-concerto com fãs e amigos queridos.