sexta-feira, 19 de junho de 2020
Amigos leitores, que tanto carrego perto de me coração:
Comecei esse blog para desaguar anos interessantíssimos que culminaram na realização de um sonho, que também era o início de uma estrada, estrada pela qual sempre rezei; para que fosse longa e próspera.
Tocar algo tão específico, amar coisas tão distantes - quase oníricas - é, muitas vezes, difícil. Conviver com pessoas tão diferentes de você o tempo todo pode ser muito cansativo, vocês provavelmente sabem, pois se passaram por aqui, tem pelo menos essa paixão em comum comigo; e essa paixão nos destaca (por vezes distancia) das pessoas que nos certam.
Essa estrada à qual me refiro não acabou, apenas fez uma curva e tomo um rumo inesperado para mim. E é com alegria que venho comunicar que meu canal no YouTube já foi ao ar e já está em seu terceiro vídeo. A ideia é que eu acompanhe os acontecimentos "vielísticos" por lá, uma vez que consigo atingir mais pessoas de forma mais dinâmica e com maior riqueza de informação.
Procurem, se inscrevam, curtam e aproveitem.
Eu não tenho palavras para agradecer a todos que desde o início estiveram aqui lendo, interagindo e valorizando esse cantinho tão precioso para mim. Foi aqui que ganhei confiança de tocar na rua, de subir num palco com meu instrumento e agora, finalmente, de ensinar o pouco que sei às pessoas interessadas na magia do hurdy-gurdy. Foi aqui que me senti completamente abraçado por pessoas que entendem meu amor, minha paixão e minha verdadeira devoção à música que vem dos movimentos circulares. Agradeço, agradeço e agradeço. Espero vê-los por lá. Não soltem minha mão. rs
LINK AQUI: https://www.youtube.com/riquemeirelles
TACA PLAY!
quarta-feira, 25 de março de 2020
Sérgio González no Brasil... Pra testar gurdies brasileiros.
Há algum tempo eu fiz uns posts sobre o Eduardo Luz, luthier de guitarras de Osasco (SP) que tem construído vielas de roda cada vez mais visadas e elogiadas; e quando eu digo visadas eu me refiro ao alcance que seus vídeos tiveram na comunidade internacional do hurdy-gurdy, causando certo burburinho. Eu inclusive tive a oportunidade de retornar ao seu atelier para testar mais uns gurdies:
O sentimento sempre foi de orgulho (por eu fazer parte dessa história) e alegria com um misto de missão cumprida, uma vez finalmente estávamos começando a aparecer no mapa; e nosso país mais que oficialmente contando com alguém que possa construir esses instrumentos mágicos. Minha impressão na segunda visita ao Eduardo foi bem superior à primeira; e já dava pra sacar que os gurdies dele iam além - e foram mesmo!
A Elz Guitars e seus gurdies captaram os ouvidos (e os olhos) de um vielista específico, lá de Barcelona; Sérgio Gonzáles. Uma verdadeira celebridade no mundo dos gurdies e dos músicos de rua, Sérgio sempre me encantou por conta de seu espírito animado e seu talento, fora seus vários vídeos fugindo das duras que a polícia de Barcelona dá nos músicos de rua. Seu canal se chama Zanfoneando, e lá você pode conferir tutorais, testes e muita originalidade.
Abaixo você confere o primeiro teste que ele fez nas vielas do Elz Guitars.
Parabéns ao Edu pelo trabalho internacionalmente conhecido; e para nós por estamos no mapa de luthiers de gurdies do mundo. =D
segunda-feira, 9 de dezembro de 2019
Tekerolants no Brasil
É com algum atraso e muito orgulho que venho rapidamente aqui deixar o registro desse evento lindo que ocorreu em dezembro do ano passado aqui no RJ, em Rio das Ostras. Jhonny Almeida, Makely e Pablo. Uma pena eu ter perdido esse encontro maravilhoso.
Para quem não sabe, o Tekero é a versão húngara da viela de roda. E aqui no Brasil temos dois músicos que tocam este tipo de viela: Makely Ka e Jhonny Almeida, que nesse dia se juntaram ao Pablo Lerner para um encontro mais que especial.
domingo, 30 de junho de 2019
Participação - Música Antiga da UFF
Um dos grandes prazeres que tive em 2019 foi participar de alguns concertos com a galera do Música Antiga da UFF. Não consegui vídeos dos concertos, mas fica o pequeno registro aqui, junto à minha eterna gratidão. Dias especiais, e a honra de tocar com gente que eu admiro muito.
quarta-feira, 17 de abril de 2019
Mühlhausen Spielkurs pt. 2
Nas minhas andanças com a viela de roda, eu já consegui estudar com algumas das pessoas que mais admiro musicalmente (e além!) nessa vida. As aulas que fiz até hoje foram todas particulares, dentro de um tempo mais ou menos limitado. Desta vez, ao estudar com Gemán Diaz, eu estava cercado de colegas de diferentes partes do mundo. Que vibe. Até porque o conceito de masterclass/workshop sempre me amedrontou - o tal medo da exposição, de se mostrar vulnerável e aberto à críticas.O workshop com Germán, entretanto, foi um sucesso absoluto. Com um clima super descontraído, todos estavam realmente muito à vontade. Passamos por algumas peças galegas, uma medieval, uma barroca; entre outras coisas. E o trabalho em cima dos coups (obviamente remetente às peças trabalhadas) foi bem interessante; com escolhas muito relevantes e tocantes. Estou até hoje estudando alguns! Germán é um professor genial; e ter tanto para assimilar vai ser um trabalho enriquecedor e contínuo, vou levar tempo.
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| Querida Fabi! |
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| Pablo. Verdadeiro ícone. |
É importante explicar aqui o que é um balfolk: um baile de música folk/trad, com foco em danças grupais, basicamente. Eu sempre toquei algumas danças que soaram no grande salão por aqueles dias; mas ouvi-las ao vivo, vendo aquelas pessoas dançando foi um dos momentos mais mágicos da minha vida. Dancei um pouco, timidamente, mas estava mais ocupado gravando áudios de diferentes tunes, tentando assimilar tudo aquilo no meu coração.Eu era um ET aos olhos deles, e eles personagens de um livro ganhando vida diante dos meus olhos.
Nossa rotina seguiu assim até a última noite, quando cada turma apresentou uma peça com seu respectivo professor. Nossa peça galega não foi tão bem como queríamos - Germán pode ser bem ambicioso em seus arranjos haha - mas a experiência valeu à pena, pois absolutamente todos se divertiram.
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| A turma. |
Logo após a nossa apresentação, que fechou a noite, rolou uma longa session regada à cerveja e chocolate (ái, Alemanha...) que pouco a pouco foi se esvaindo até sobrarmos eu, Pablo e Quentin, meus queridos roomies. O coração já apertava? Óbvio. Sem saber quando viveria dias assim novamente, eu só soube focar na felicidade de tudo aquilo; bem como no medo da ressaca da última manhã. Aliás, ao acordar, todos estavam claramente tristes. Havia uma magia entre os muros daquele prédio tão antigo. Algo que ficaria com a gente (ou pelo menos comigo) para sempre.
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| Largos entrando no grande hall |
A última aula foi absolutamente triste. Tentamos tocar uma peça barroca (not my cup of tea), mas não tão legal. Logo pulamos para a parte em que tirávamos fotos e trocávamos contatos, histórias e abraços. Germán estava apenas na dele, respondendo atenciosamente, gravando pequenos trechos de coisas que precisamos estudar... Provavelmente já acostumado a lidar com turmas de gurdy players malucos. Mais um fim de semana de trabalho para. O fim de semana mais perfeito da minha vida.
O que eu posso dizer é que valeu a pena. Sempre valeu, sempre vale e sempre vai valer, fazer essas minhas loucuras. Esse instrumento vale a pena, como qualquer outro. Talvez valha mais, se pensarmos que ele é mágico, né. =)
A música, amigos, quando toca a gente da melhor forma possível, faz isso: abre caminhos, nos traz pessoas, nos faz encarar nossos pontos fracos e, se os enfrentarmos, ela nos presenteia com magia pura.
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| Always in my heart. |
terça-feira, 16 de abril de 2019
Mühlhausen Spielkurs pt. 1
A tune que estava tocando me soava familiar, sabe-se lá de onde ou quando. Me remetia à Bretanha, talvez. Soava como algo muito antigo. O cheiro era de cerveja e chocolate; e era tão forte que achei que meu cachecol precisaria ser lavado. Com a cabeça meio tonta de cerveja e o coração transbordando de música e alegria como jamais senti, levantei e fui até o palco me juntar aos músicos da session: uma gaita de foles alemã (dudelsak), uma nyckelharpa e outra viela de roda. A sensação era de que queria ficar ali, preso naqueles dias, para sempre. Nunca havia sentido isso. Por mais que eu reclame, eu sempre sinto falta do calor, das pessoas e dos cantos que tanto amo no Rio de Janeiro. Como eu vim parar aqui, gente? Foi um dos mantras daquela noite. O outro era: yep, missing carnival as we speak.
Dois dias antes eu estava andando por uma longa e fria rua de Berlim, sem internet, sem google maps e apenas com dois prints de celular com partes de mapas. Obviamente perdido. Obviamente me questionando se realmente valia à pena despencar para tão longe por algo que em teoria duraria tão pouco. Claramente sem ter noção do sonho que me esperava. Vamos ser menos impulsivo, Rique? Se informe melhor antes de se inscrever em coisas. Enfim, eu precisava chegar num instituto e encontrar Birgit; a moça que gentilmente (e virtualmente) aceitou me dar carona até Mühlhausen, coração da Alemanha, na região da Turíngia, para um workshop com Germán Díaz. Ela ia para integrar a turma de canto, com sua harpa para acompanhar.
Apesar de estar perto do local, a dificuldade dos alemães para dar informações me atropelou; e depois de muita andança eu, meu instrumento e nossas mochilas chegamos ao ponto de encontro. Suado e com cara de quem havia chorado poucos momentos antes, apenas acenei e disse hey! ao ver uma mulher com seu case de violino, claramente esperando alguém.
Cheguei 12:30 em ponto. Me orgulho da minha pontualidade, na real. Mesmo quando tudo está meio que dando errado, ela prevalece. Enfim, a moça em questão era Suzana, violinista folk com foco no repertório alemão, algo bem peculiar para mim, que sempre fiquei ali pelo violino irlandês, escocês e talvez bretão. Ela me recebeu com um caloroso sorriso, sem questionar quem eu era. Nosso papo começou ali e só terminou de verdade no dia em que eu estava voltando para a casa do meu amigo em Berlim. Literalmente paramos de falar apenas quando desci no meu ponto. Que pessoa linda. E a apresentação da turma dela foi maravilhosa, e o som dela é lindo demais. Suzana fez minha viagem até a região da Turíngia algo nada constrangedor, e não tivemos sequer UM momento de silêncio indesejado.
Cheguei 12:30 em ponto. Me orgulho da minha pontualidade, na real. Mesmo quando tudo está meio que dando errado, ela prevalece. Enfim, a moça em questão era Suzana, violinista folk com foco no repertório alemão, algo bem peculiar para mim, que sempre fiquei ali pelo violino irlandês, escocês e talvez bretão. Ela me recebeu com um caloroso sorriso, sem questionar quem eu era. Nosso papo começou ali e só terminou de verdade no dia em que eu estava voltando para a casa do meu amigo em Berlim. Literalmente paramos de falar apenas quando desci no meu ponto. Que pessoa linda. E a apresentação da turma dela foi maravilhosa, e o som dela é lindo demais. Suzana fez minha viagem até a região da Turíngia algo nada constrangedor, e não tivemos sequer UM momento de silêncio indesejado.
Após mais ou menos três horas e meia dentro de um carro, a paisagem repleta de campos começou a se fechar e florestas começaram a tomar conta da nossa vista. Mühlhausen se revelou uma jóia charmosa a partir de suas casinhas, todas no estilo alemão; todas como se houvessem saído de uma fenda temporal. O workshop (Spielkurs Mühlhausen) ocorreria num dos prédios mais antigos da Alemanha, o AntoniQ; local onde o primeiro hospital da Alemanha existiu (havia sido uma igreja antes). Ao passar pelos portões e marcar presença na lista de chegada, reconheço um rosto que parece me reconhecer também: Fabi, a mocinha da viela roxa do Instagram, integrante de duas das bandas que sigo e curto (haha ai, Instagram! S2) estava bem ali. Depois de um sonoro whatthefuck e um abraço, era oficial: aqueles seriam dias positivamente difíceis de assimilar. Epicness confirmada. Fabi foi mexer com um vira-lata que entrou na vila, e eu tomei meu rumo, atordoado.
Segui para meu quarto, onde troquei uma ideia com um senhor chamado Quentinn (que eu viria a descobrir que já era meu amigo no face haha), pessoa maravilhosa, acolhedora e com o MESMÍSSIMO gosto que eu para tunes e álbums. Epicness recafirmada. Poucos minutos depois, saio, pego a roupa de cama que será minha pelos próximos dias e volto para o quarto para ser surpreendido por Pablo, idealizador, compositor e vielista da Sangre de Muerdago, essa sim provavelmente uma das bandas que mais ouço quase todas as noites. Eu queria ter falado mil coisas ali naquela hora, mas apenas nos abraçamos e nosso primeiro dialogo foi sobre onde pegar os lençóis (!) para as beliches (!) do nosso quarto (!). Nem sei, viu. Muitos momentos legais por MINUTO naquele lugar.
sábado, 19 de janeiro de 2019
Viagem a Osasco e as Vielas do Elz Guitar
É sempre muito louco pensar que a viela de roda já existia há séculos antes mesmo do Brasil ser "descoberto". Mais louco ainda é saber que apenas agora esses instrumentos estão começando a aparecer por aqui, sendo feitos pelas mãos de brasileiros. O post de hoje é sobre mais um deles: Eduardo Luz, de Osasco, São Paulo.
| Atelier do Edu, em Osasco |
Eduardo trabalha como luthier de guitarras e baixos desde 2012; e tem como objetivo a ideia de expor a beleza e a sonoridade das madeiras nacionais. Descobriu nosso amado instrumento assim, do nada, como a maioria de nós. Graças ao César Augusto Santos (que não surpreendentemente) estava com dificuldades de conseguir um instrumente, Eduardo pôde não apenas ouvir falar, como também receber uma planta e uma série de informações técnicas para que um gurdy fosse construído. Loucura, né?
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| Eduardo Luz, eu e César Augusto. Gravação de um vídeo. |
Após ter feito este primeiro instrumento, Eduardo tomou como base estética o modelo Henri III e construiu o instrumento que ele batizou de Tulip; com duas oitavas, dois trompettes, dois bordões e duas cordas melódicas. Esse primeiro instrumento foi adquirido por André Maziero, em São Paulo capital.
Mais alguns gurdies foram feitos - o segundo Tulip e um outro instrumento - e hoje ao que parece oito já foram feitos e entregues, se não me engano. Vou deixando ao longo do post algumas das fotos que estão na página do Edu no Facebook. Um trabalho bem bacana e um esforço legítimo e relevante para a história do instrumento aqui no Brasil.
Estou escrevendo esse post alguns dias após meu retorno de Osasco, onde estive para dar uma olhada nos instrumentos do Edu, gravar uns vídeos com um gurdy dele e ainda gravar um vídeo/papo com ele e o César, pessoa responsável por levar uma planta de viela de roda ao Edu. César está se preparando para lançar o primeiro canal brasileiro no youtube dedicado ao instrumento, algo que também precisamos. Ao que parece nosso vídeo será o primeiro do canal, estou animadíssimo! Com certeza vai ser uma fonte maneira de informações para os entusiastas do gurdy aqui do Brasil.
Beleza, Rique, mas e aí? E o gurdy desse cara, o que você achou?
Eu não vou negar que a diferença entre nosso trabalho aqui no Brasil e o trabalho dos gigantes lá de fora ainda é grande, não podemos fugir disso. Mas isso é apenas natural, uma vez que lá fora temos profissionais que vivem e respiram essa arte há muitos anos.
Por outro lado, nem todo mundo está disposto (ou na real pode) pagar milhares de euros ou dólares num instrumento - fora a importação ou a necessidade de ir ATÉ LÁ FORA buscá-lo. E vale lembrar que o Edu não é um vielista e caiu de paraquedas nesse mundo - e já acertando em vários aspectos. Isso me enche de certeza de que seus instrumentos só vão melhorar com o tempo, o feedback de seus clientes e o estudo dessa verdadeira arte quase hermética que é construir vielas de roda.
DITO ISSO, eu devo dizer que o meu parecer é mais positivo que negativo. Gostei especialmente do teclado no que diz respeito à precisão e afinação das notas mais agudas - um problema em quase todos os gurdies - e do som das cantoras em uníssono. Achei as teclas bem macias, fáceis de tocar. Parte do meu estranhamento está no fato de eu estar acostumado com outro instrumento, que tem tangentes (as pecinhas acionadas pelas teclas, que batem na corda) que não são de madeira e isso também conta. Não tive tanto tempo para me familiarizar com a viela do Edu, que aliás pretende experimentar outros tipos de cordas, tangentes e materiais; coisas que fazem toda diferença. Eu acho que ele está no caminho correto; e hoje, aqui no Brasil, ele foi o que mais acertou em termos de construção. (na verdade ele e o Johnny Almeida, sobre quem escrevi aqui)
Outro fator importante a ser levado em conta é a dificuldade de manutenção do instrumento. Isso é algo muito sério, e devemos ter isso em mente mesmo ANTES de adquirir QUALQUER instrumento, seja de qual procedência for. Não adianta pegar uma viela de roda de 15.000 euros se você não tiver a paciência e sensibilidade para lidar com a eterna equação que é trabalhar a quantidade de algodão nas cordas, a resina na roda, a pressão das cordas etc (ontem mesmo passei HORAS lidando com essa porra risos pardon my French). Essas são coisas que talvez pesem um pouco para quem nunca teve contato com o instrumento e vai desembolsar uma grana para "ver qual é".
Infelizmente o fato é que a viela de roda não é algo fácil de se construir, e não é apenas pegar o instrumento e sair tocando. Leva-se algum tempo até a coisa começar a andar.
Paciência, calma e determinação são fundamentais.
No mais, poder tocar um gurdy brasileiro, dar um feedback voltado pro Edu - visando o futuro de seu trabalho - e poder trocar ideia com gente que ama esse instrumento tanto quanto eu foi incrível. Eu fico muito feliz em ajudar quem quer que seja que esteja contribuindo para o mundo desse instrumento.
E literalmente retornei ao Rio com a garganta doendo de tanto falar.=D
Deixo aqui meu agradecimento e meu abraço apertado ao Edu Luz, ao César e ao Walmir, tão atencioso em seu estúdio. Foi um dia muito especial.
Até logo, com mais novidades!
terça-feira, 7 de agosto de 2018
Festival Conexões Musicais 2018 - UFF
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| Wings & Horns ao vivo, pela primeira vez. Vítor Freitas na Harpa. |
Se há seis meses alguém me dissesse que eu encararia um palco sozinho (ainda mais num festival cheio de músicos) eu não acreditaria. Já acharia suficientemente surreal conceber que lançaria uma música... Mas tudo isso rolou, sim. Com direito ao o concerto (ou show?) em questão; e foi incrível passar por isso. Mais que sair da minha zona de conforto; mais que apresentar parte do meu mundo para pessoas tão variadas, o que eu realmente levo do Festival Conexões Musicais são lições que aprendi sobre mim, sobre minha música e sobre o que pretendo levar adiante.
Ano passado eu já havia tido o prazer de ir "busking" pelos jardins da reitoria da Universidade Federal Fluminense, na feira medieval que fecha o Festival Conexões Musicais. Fui de enxerido, mais porque no ano anterior havia rolado uma viela e eu não pude estar lá. Foi esse simples ato que me trouxe de volta aos jardins da UFF - dessa vez em cima do palco - para (re) ver tanta gente legal e tocar viela para um público extremamente musical e aberto ao novo, ainda que revestido de instrumento milenar.
Contei com o auxílio, a paciência e o talento de Vítor Freitas, harpista aluno da UFRJ que há meses vem me ouvindo e gentilmente se abrindo às minhas ideias musicais. Foi um verdadeiro privilégio ensaiar, trocar ideia e evidentemente me apresentar ao lado de um harpista. Ainda mais um harpista que já se tornou um querido amigo, com quem posso contar. Fica meu agradecimento, querido.
Passado a tensão do show da quinta, me restou apenas aproveitar a delícia que foi a feira medieval de encerramento do festival, também nos jardins da reitoria. Além do público de sempre (vocês sabem quem vocês são!=]) pude divulgar meu instrumento para mais pessoas ainda, distribuir cartões e pasmem, conhecer outro vielista!
Johnny Almeida apareceu por lá com o tekerö húngaro - brasileiro, na real, já que ele mesmo o construiu - e me deixou tirar um som muito legal ao seu lado. Sorte de quem estava lá e mal sabia da raridade que é ver duas vielas tocando juntas por aqui... Ainda mais uma delas sendo brasileira. Fica também meu agradecimento ao Johnny por ter aparecido e ter sido tão gentil!
O processo de gravação de Wings & Horns segue estável, e com toda a magia envolvida em algo assim eu não poderia iniciar meu segundo semestre de forma melhor, por isso deixo aqui mais agradecimentos:
Ao Deivison Branco, pelo convite para o festival; ao Bebeto pela força lá no palco! Amei. Agradeço também ao Pedro Brandileone e à Kristina Augustin pela paciência nos e-mails; à Virgínia Van der Linden, sempre uma fofa e me indicando para mais pessoas antenadas na viela de roda.
Obrigado novamente (e principalmente) ao Vítor, meu querido cristal harpista, por absolutamente tudo.
Que esse evento tenha sido o primeiro de muitos.
segunda-feira, 25 de junho de 2018
Wings & Horns // Imaginary Music
Eu fazendo música - aos olhos dos outros - sempre foi algo em grupo.
Comecei com um pequeno duo com meu irmão. Brincadeiras em casa, algumas canções improvisadas no violão (que eu nunca toquei, mas servia para compor minhas primeiras músicas). De cara eu já sabia, muito no fundo, que o que eu queria não estaria no violão. Nem na faculdade de música. Após alguns anos de conflito, no meu primeiro dia na faculdade de Letras, conheci o Dé, meu veterano. E dali vieram os felizes anos com a Lágrima Flor; uma verdadeira escola que fez eu me enxergar como músico em vez de alguém que tentava se encontrar num violino, preso entre tradições e técnicas e rótulos. Esses anos da Lágrima se mesclaram com o nascimento do Café Irlanda, outra escola. E com ela a realização inenarrável de me encontrar no meio daqueles sons que sempre haviam feito parte de mim e não conseguiam desaguar em lugar algum.
Ainda assim, havia algo, lá no fundo. Porque ao encontrar a viela percebi que o que eu queria fazer estava além do meu instrumento; e muito além de tudo que eu havia vivido musicalmente até então. Foram anos compondo coisas que não tinham lugar em projeto algum. Ora soavam muito folk para uma banda mais pop, ora muito estranhas para um projeto Irish. E em vez de se dissiparem como névoa que pareciam ser, essas músicas se empilharam e ganharam força. Força essa que tanto pulsou, tanto doeu, que desabou sobre minha cabeça e aliviou meu coração. Uma avalanche coroada pela música acima.
O que desaguou, desaguou aqui no meu quarto ao longo de anos. E quando a viela chegou, uma porta se abriu e muita coisa simplesmente caiu de mim. Algo fluiu. Algo preso há muito, mas muito tempo.
O que desaguou, desaguou aqui no meu quarto ao longo de anos. E quando a viela chegou, uma porta se abriu e muita coisa simplesmente caiu de mim. Algo fluiu. Algo preso há muito, mas muito tempo.
Eu poderia dizer que esse projeto começa aqui. Ou quando gravei essa música. Ou quando à escrevi.
Mas não.
Esse projeto começou quando eu nasci; e quando peguei num violino pela primeira vez. Esse projeto nasceu quando alguém me disse que música não tinha nada a ver comigo. E quando me apresentei na frente de uma plateia pela primeira vez, orgulhoso por fazer minimamente bem algo que me salvou de tanta coisa, em tantos níveis que não cabe nem aqui dizer. Esse projeto nasceu quando desisti de um concerto de formatura porque fui sequestrado por um instrumento mais forte que eu.
Esse projeto sou eu, sozinho, me rendendo a algo que sempre evitei: me expor sozinho. Wings & Horns sou eu tentando existir, com o que funciona e o que precisa de melhora. É a coisa mais honesta que já fiz. E essas músicas estão chegando para o mundo. Sou eu virado ao avesso para qualquer pessoa ver e ouvir.
Músicas que vieram de livros.
Músicas que chegaram pra mim em sonho.
Músicas que vieram da lua, do amanhecer, dos amores - do amor - e das histórias que nem eu sabia que sabia.
Da luz e da sombra.
Daquilo que mais amamos em nós; assim como que daqueles cantos imperfeitos que gritam por aceitação em vão.
Essas músicas são espinhos e pétalas.
Chifres sim;
porém asas também.
Paths, o primeiro single:
iTunes: http://hyperurl.co/wingsandhornspaths
E também nas seguintes plataformas: Spotify, Deezer, Google Play, Napster e Claro Música
terça-feira, 15 de maio de 2018
Cellar Darling no Brasil
Rio de Janeiro. Teatro Rival, na Cinelândia. O camarim é o mesmo que ocupei com o Café Irlanda já duas vezes em noites de São Patrício. Tudo é familiar: o backstage, os corredores, o cheiro de centro da cidade na Cinelândia, com seus becos e botecos. O porém (muito bem-vindo) fica por conta da qualidade onírica do objeto que tenho em meu colo: um hurdy-gurdy branco. Que sonho, dá mega pra praticar tarde da noite, eu falo e ela ri concordando. O modelo é o Accento, construído por Sebastian Hilsmann, meu querido luthier. Por um segundo, o frio na espinha: o instrumento é colocado em outra cadeira e eu tremo só de pensar numa queda, num esbarrão. Eu vivo fazendo merdas assim, diz Anna, sorrindo. Eu rio desse jeito de menina desastrada - até mesmo um pouco insegura - que ela tem. O mais legal é que isso não anula a mulher magicamente badass que ocupa os palcos conduzindo a mágica de Cellar Darling, sua atual banda, que em menos de dois anos de surgimento trouxe um álbum maravilhoso e já tocou em diferentes países, sempre aclamados.
O gurdy em questão pertence à Anna Murphy. Força criativa da natureza (título dado por seu colega de banda Merlin), Anna só fez despontar no mundo da música desde o dia em que caiu nos feitiços da viela de roda. O momento no camarim, entretanto, foi apenas a cereja no bolo, uma vez que nosso papo havia começado bem antes desse momento, ainda num boteco obscuro da Cinelândia. Difícil de acreditar que isso rolou, na real. Já nos falávamos mais ou menos antes - até meio que já nos cruzamos, sem que ela soubesse. Há alguns anos eu havia encomendado o Largo por uma emergência (meu gurdy na época havia quebrado, e eu estava na Suíça) e ao voltar de lá eu vi que ela também estava tocando um Largo, achei a coincidência bizarra, uma vez que fui parar no Sebastian por indicação da Tobie Miller, que é de um outro universo musical. Inclusive queria ter trocado uma ideia com Anna sobre isso no último show dela com o Eluveitie aqui no Brasil, em 2015; o que não rolou. E fora isso, sempre trocamos algumas mensagens e comments no insta.
Anna Murphy é incrivelmente gentil e inteligente; a sensação que tenho é de que tudo que ela fala sempre parece dizer mais do que ouvimos. Cheia das entrelinhas e comentários diretos e honestos (the meat here is so fucking good, man), Anna é de longe a artista mais pé no chão - e, na boa, ao mesmo tempo a mais etérea - com quem já conversei; e é essa incongruência maravilhosa que a torna esse furacão: a mesma pessoa que fala sobre como é foda juntar dinheiro depois de começar do zero para dar de entrada num instrumento, fala de um mundo abstrato de (re)cortes e melodias que vem de algum lugar muito profundo e misterioso; onde línguas se fundem e notas e histórias vem à tona. A realidade e a surrealidade se mesclam. Seus olhões azuis absorvem tudo que a gente fala, sempre atentos. Por alguns bons minutos não fazia sentido ela estar sentada ali na cinelândia com os rapazes da banda. E foi super estranhos eles irem passar som ALI NO RIVAL e ela ficar ali comigo chatting over caipirinhas. 2018 realmente veio cheio das surpresas.
Dinheiro, música, criatividade, cordas reafinadas em notas incomuns, comida, planos, medo de arriscar, caipirinhas e bagagens de mão foram alguns dos tópicos que contemplamos em nossa conversa. Murphy fala como o próximo álbum de sua banda vai ter muito mais viela de roda, um instrumento para o qual ela sente em algum nível que sua música não é feita. Comentário para o qual rebati um alto e sonoro WHAT. Como assim, sabe? Mas Anna não desaponta e reafirma: o primeiro álbum foi muito tímido. Nesse viremos com força total. Vibro.
É muito bom entrar em contato com a fonte de tanta magia. Magia essa que encantou cada pessoa que estava no Teatro Rival ontem. Da primeira nota na guitarra de Ivo em Black Moon à ultima notinha de Challenge, todos foram sugados pela roda do gurdy branco. Não adianta tentar fugir. Para mim foi uma festa, gritei sem medo de ser feliz. Nunca esperei vê-los tão cedo na vida; e o show foi uma das performances mais perfeitas que já vi - e isso vindo de alguém que já viu coisas impressionantes como sei lá, Sigur Rós.
É muito bom entrar em contato com a fonte de tanta magia. Magia essa que encantou cada pessoa que estava no Teatro Rival ontem. Da primeira nota na guitarra de Ivo em Black Moon à ultima notinha de Challenge, todos foram sugados pela roda do gurdy branco. Não adianta tentar fugir. Para mim foi uma festa, gritei sem medo de ser feliz. Nunca esperei vê-los tão cedo na vida; e o show foi uma das performances mais perfeitas que já vi - e isso vindo de alguém que já viu coisas impressionantes como sei lá, Sigur Rós.
Impossível destacar apenas uma parte, mas se eu realmente realmente precisasse eu faria uma menção honrosa à execução de Redemption, minha música favorita do álbum, canção que compensou a ausência de Hedonia, a única música do álbum cantada em alemão suíço.
Do momento em que essa galera deixou sua antiga banda ao momento que desceram do palco aqui no Rio, a trajetória deles não deve ter sido nada menos que uma tempestade de emoções. Para mim, provar um pouco de toda essa energia em um set de uma hora foi absolutamente inesquecível. Técnica impecável, presença, simpatia e uma vibe boa que somente artistas fazendo show no Brasil podem sentir. Cellar Darling me impressionou ainda mais.
sexta-feira, 4 de maio de 2018
Rio Harp Festival - Participação com Athy
Eu vivo e respiro meios de conseguir uma viela de roda. Banda começando, ideias, ideias e ideias. Para a galera da ~cena celta ~, naquela época ainda meio afastada e com menos opções ainda do que fazer, um pequeno oasis chega: Rio Harp Festival.
Foi em 2009 que estive no festival pela primeira vez; e sem conhecer nada de nada, fui guiado pela minha amiga Ra para o show que atraía bastante público: Athy.
Argentino apaixonado (e vindo diretamente) pelo mundo feérico, Athy sempre causou certa comoção em seus shows devido ao seu estilo obscuro e místico, delicado e muitas vezes sensual - nesse show especificamente ele tirou a camisa risos. Sua música, de acordo com ele, está aqui para trazer mensagens de outras dimensões. Todas elas devidamente captadas por seus fãs. Piadas à parte, curti o show (também rs) e comprei minha cópia de Sabour a Tiershra, ótimo álbum, companheiro de tardes e mais tardes de pensamentos e devaneios (e de algumas consultas de tarô - don't ask).
POIS DAÍ CORTA PRA 2018
Eu às voltas na madruga sem conseguir dormir devido ao não-tão-impulsivo-porém-ainda-louco ato de começar a lançar meu projeto "solo" dou de cara com um simples flyer anunciando um show do Athy em Ilha Grande. Penso rindo TAÍ, NÉ, sei lá. - muito do que eu componho dialoga com os conceitos por trás do trabalho dele - arrisco e antes mesmo de 24 horas eu me deparo com:
E daí a gente faz o quê? A gente sorri, aceita e finge que não está surtando. Foram alguns bons dias até essa terça-feira chegar. E toma ensaio... Mas chegou: dia 1 de maio. Beltane. Suits me.
Queria apenas deixar registrado a magia que foi tocar com esse rapaz. Escolhemos pra valer apenas uma peça, mas tocamos quatro - duas das quais improvisamos. O público adorou; e foi estranhamente familiar tocar no teatro do CCBB, um lugar que tanto frequento e tanto amo.
2018 chegou randomicamente épico; e essa minha primeira empreitada vielística já deu o tom do que vem por aí: novidades que até eu particularmente ainda custo a acreditar.
Queria apenas deixar registrado a magia que foi tocar com esse rapaz. Escolhemos pra valer apenas uma peça, mas tocamos quatro - duas das quais improvisamos. O público adorou; e foi estranhamente familiar tocar no teatro do CCBB, um lugar que tanto frequento e tanto amo.
2018 chegou randomicamente épico; e essa minha primeira empreitada vielística já deu o tom do que vem por aí: novidades que até eu particularmente ainda custo a acreditar.
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| Pós-concerto com fãs e amigos queridos. |
quarta-feira, 31 de janeiro de 2018
Jhonny Almeida e o Tekerö Brasileiro
Há alguns meses me deparei pela primeira vez com a complicada missão de mediar uma discussão (em todos os sentidos da palavra) no Viela de Roda Brasil, nossa comunidade no Facebook. A problemática da questão é real, atual e relevante não apenas no mundo das vielas brasileiras, mas do mundo: a construção desses instrumentos. Algo que está diretamente ligado ao (im) popular preço das vielas de roda e toda a gama de questões que tais valores trazem à tona.
Pois bem, a questão é eterna: desembolsar uma grana pesada para comprar um instrumento sem saber toca-lo ou pagar pouco mas ter um instrumento em que fica difícil evoluir e estudar parece nos assombrar desde sempre. A especialização de um luthier de vielas de roda é inquestionável, e eu acredito sim que, na dúvida, talvez valha mais a pena aguardar e gastar mais num instrumento mais seguramente bom para estudo.
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| O tekerö pronto, em toda sua glória. =) |
Johnny Almeida, músico e luthier de Cabo Frio, Rio de Janeiro; defende com afinco a valorização daquilo que for feito no Brasil, acreditando no encorajamento de profissionais ou amantes da arte da liuteria - e com conhecimento de causa, ok? Aprendeu muita coisa com um discípulo de seu Darinho, luthier da tradicional loja carioca O Bandolim de Ouro, um caminho que o levou a ser mestre na Oficina Escola de Luteria, em Rio das Ostras; Johnny já esteve envolvido em vários projetos diferentes, incluindo a orquestra Kuarup e o CanalizSom (utilização de PVC na confecção de instrumentos), de sua idealização. Muito, mas muito especial!
A grande questão é que Johnny, como todos nós, se apaixonou em algum momento por instrumentos antigos e/ou tradicionais (ele também toca gaita de foles e digeridoo) e também se aáixonou à primeira vista pela viela de roda húngara, o tekerö - e o fez assistindo a uma apresentação do Pablo Lerner (argentino. tocando música nordestina. na viela húngara (!) e teve sua ajuda (incluindo seu tekerö) para construir aquela que eu acredito ser a primeira de muitas vielas. Acho fundamental notarmos que o Jhonny já tinha experiência na confecção de instrumentos e contou com a belíssima e generosa alma do Pablo Lerner para ter um contato com um instrumento bem acabado e proveniente de um luthier de confiança. Parabéns ao Jhonny, seu tekerö significa muito para a história do instrumento, de verdade.
É um verdadeiro presente ter alguém em nossas terras dando um passo TÃO importante no que diz respeito à viela. É necessário - fundamental na verdade - que tenhamos alguém qualificado para dar o ponta-pé inicial nessa etapa.
Mais sobre o Jhonny aqui.
domingo, 1 de outubro de 2017
Bardow Folk - Brasília
Dando continuidade aos posts sobre novos artistas brasileiros que incorporam a viela em seus trabalhos, hoje dou voz ao Bardow Folk, projeto nascido e criado em Brasília, idealizado pelo Weivson Andrade, que foi mais que gentil em me falar sobre seu projeto tão detalhadamente que nem me dei o trabalho de escrever. simplesmente compartilhando suas palavras abaixo.
"O Bardow é um projeto musical onde misturo diferentes segmentos artísticos com o objetivo de contar histórias. Sempre tive fascínio por História, culturas antigas, por literatura, por artes plásticas, fotografia, cinema e música. O projeto é a culminância de tudo isso dentro de um contexto onde procuro inserir o público, afim de entregar a cada um uma experiência que vá além da música em si.
Tive o privilégio de morar e estudar na Irlanda, lugar pelo qual sempre fui atraído e fascinado. Estudei gaita de foles com um músico de um pub onde trabalhei, sou apaixonado pela música tradicional irlandesa. Revezava meu tempo entre o trabalho, o curso de cinema que fiz lá e as aulas de gaita. No caminho entre um compromisso e outro conheci um músico de rua que me apresentou o hurdy-gurdy. O curioso é que meses antes eu havia passado por uma experiência intrigante, mas preciso abrir um parêntese aqui para que isso seja compreendido. Quando mais jovem em um de meus delírios adolescentes em criar algo "completamente novo e extraordinário" eu imaginei e desenhei o projeto de um instrumento semelhante a um violino, mas que fosse mais simples de tocar e que o som fosse contínuo, talvez originado em uma roda ao invés do arco. Então eu desenhei algo que se parecia com a antiga máquina de costura da minha avó, cuja força motora era um dispositivo acionado pelo pé, que girava uma roda através de uma polia. Basicamente era um projeto inexequível, mas sempre tive isso na cabeça. Voltando à experiência, fiz uma viagem à Saint Malo na Normandia e me deparei pela primeira vez com o hurdy-gurdy. Foi um choque ver aquele instrumento, primeiro porque tive aquela sensação de que diabos é isso? misturado com a excitação de ver que como aquilo funcionava e um estranho sentimento de já conhecer aquele objeto. Não consegui falar com o instrumentista pois ele só falava francês e eu não entendi uma vírgula do que disse. Bem, quando então na rua Grafton em Dublin eu tive acesso à um hurdy-gurdy e consegui me comunicar com o instrumentista, foi amor à primeira vista. Passei a trocar tempo com o instrumento, e algumas dicas e porque não dizer aulas do instrumentista, por um bom papo, café, muffins e as vezes refeições completas que fazíamos no Stephen's Green Park que ficava perto dali. Aos poucos fui me habituando com o instrumento e desenvolvi uma paixão inexplicável. Aos poucos também fui perdendo contato com o instrumentista até que voltei ao Brasil. A ideia para o criar o Projeto Bardow já estava na mente, mas o acesso à instrumentos de qualidade aqui era quase inexistente. Acabei por gastar muito do meu tempo enquanto músico na cena Rock n Roll de Brasília que é bem movimentada, mas era tudo o que eu podia fazer enquanto músico. Quando então em meados de 2016 uma amiga americana disse que havia me enviado um presente. Ela sabia da minha paixão pelo instrumento. Ela não conhece absolutamente nada sobre o instrumento apenas viu um e resolveu me presentear. Quando descobri o que ela havia postado fiquei feliz pela atitude mas triste por saber que um bom instrumento estaria muito além do que alguém como ela gastaria para presentear alguém como eu. Mas esperei ansioso pela chegada. Quando chegou minhas expectativas sobre a qualidade do instrumento se confirmaram. Era rústico, despretensioso, e faltou muito carinho no acabamento. Ele ficou parado algumas semanas, não consegui tirar qualquer som perto de algo que não fosse no mínimo irritante. Daí resolvi criar coragem de arriscar destruí-lo tentando deixa-lo ao menos funcional. E deu certo! Desmontei, tratei a madeira, mudei as cordas, desempenei a roda, ajustei as tangentes montei e consegui que ele desse um som quase satisfatório. Sobrava harmônicos ainda, mas consegui amenizar com as cordas de tripa e um algodão mais espesso. Pronto, era o que eu tinha em mãos para começar a colocar o projeto em prática, e desde então tento tocar o Bardow com o que tenho. Sonho em ter condições, em algum momento, de comprar um bom instrumento. Até lá vou me virando. Namorei por meses a viela da Raine Holtz quando ela anunciou... mas um dia chego lá!"
Muitíssimo obrigado ao Weivson, que história fantástica. Muita sorte e sucesso! E viela de roda, é claro. =)
segunda-feira, 31 de julho de 2017
Feira Medieval UFF - Niterói - RJ
- Mas é feio, o bichinho! Meu deus!
Eu já estava há algumas poucas horas tocando minha viela embaixo de uma árvore quando ele chegou. Virei para o lado já rindo em alto e bom som, sabendo que não se tratava de apenas mais um entusiasta da cultura medieval passando pelo jardim da reitoria da UFF, pronto para ouvir música antiga e provar hidromel. Ele ali, de cara, já era meu espectador mais ilustre. Incrédulo, num misto de pena, admiração e curiosidade. Ah, agora ele tá ali ó, no disérto, andando cus camelo, disse ao ouvir a menor harmônica. Nessas horas meu sorriso brota mais fácil que ao ver dinheiro caindo no meu case.
Seu modo de vida e meu instrumento tem muito mais em comum do que ele e as pessoas de forma geral imaginam. Apesar de a viela de roda ser hoje, no Brasil de 2017, um dos instrumentos mais caros de se conseguir; ela teve uma enorme parte de sua história associada a mendigos cegos, músicos itinerantes e pedintes. Dos meus visitantes na rua, os moradores dela são sempre os mais ilustres. É como se eles tivessem mais direito a ouvir a música que toco, é como se eles soubessem disso tudo. Rola uma vibe de reencontro que é mais forte que eu. E eles nunca falham em seus comentários, que muitas vezes fazem alusão a deus e ao mundo espiritual que as cordas da viela aparentemente evocam.
Esse foi apenas um dos momentos lindos que vivi esse domingo (22) na reitoria da Universidade Federal Fluminense (UFF), na feira medieval que encerrou o Festival Conexões Musicais UFF UNIRIO, que além de concertos e aulas ofereceu também tardes de palco livre para quem quisesse apresentar seu trabalho. Confesso que apesar dos meus contatos nesse meio e do fato de eu estar sempre conectado e antenado, não ouvi falar do festival e perdi absolutamente tudo que ele ofereceu, com a grata exceção da feira em questão.

Apareci na reitoria da UFF por volta de 11:45 da manhã com viela nas costas, mochila e um banquinho nos braços. Meu papel esse ano seria exatamente esse: sentar embaixo de uma árvore e praticar, chamar a atenção dos transeuntes da forma mais natural possível, longe do palco e do formato de show/concerto que tanto conhecemos. O busking me proporciona uma leveza que não sei descrever. É bem especial. Sempre. Cada vez aprimoro mais a arte de tocar repetindo "viela de roda" a cada dois minutos. =)
Apareci na reitoria da UFF por volta de 11:45 da manhã com viela nas costas, mochila e um banquinho nos braços. Meu papel esse ano seria exatamente esse: sentar embaixo de uma árvore e praticar, chamar a atenção dos transeuntes da forma mais natural possível, longe do palco e do formato de show/concerto que tanto conhecemos. O busking me proporciona uma leveza que não sei descrever. É bem especial. Sempre. Cada vez aprimoro mais a arte de tocar repetindo "viela de roda" a cada dois minutos. =)
A feira foi absolutamente linda. Barracas de artesanato temático, comidas, hidromel, vestimentas e sucos encheram o jardim de cores. E os figurinos estavam lindos demais. Consegui curtir as apresentaçãos da orsquestra do festival, do coro da UFF, do lindo dua Olam Ein Sof e o showzaÇÃO dos amigos da Banda Tailten. Todos de parabéns! De quebra, na hora da grande dança comandada pelo maravilhoso Mario Orlando (Música Antiga da UFF) o público participou e o querido Eduardo Antonello (multi-instrumentista que também contempla a viela) veio me arrancar da árvore para que eu desse uma forcinha com meus bordões e meu trompette. Foi divertidíssimo! Fica meu agradecimento especial a esse músico fantástico, pessoa tão gentil.
Depois disso voltei ao meu cantinho, onde fui carinhosamente recebido pelos que ali passavam. Aproveito para agradecer à Carol Domingues, querida amiga que me obrigou a abrir o case e conseguir uma graninha extra. Amei tanto!
Foi um dia realmente inesquecível. Pude dar um oi para pessoas que admiro muito como o Eduardo, o pessoal do Música Antiga (em especial a Virgínia =) ), a linda Kristina Augustin e meus amigos que apareceram por lá.
Que venham os próximos anos e as próximas feiras.
Foi um dia realmente inesquecível. Pude dar um oi para pessoas que admiro muito como o Eduardo, o pessoal do Música Antiga (em especial a Virgínia =) ), a linda Kristina Augustin e meus amigos que apareceram por lá.
Que venham os próximos anos e as próximas feiras.
sexta-feira, 28 de julho de 2017
No Brasil: Grupo Ucelli
Dando continuidade a série de posts sobre os nossos artistas que tem feito uso da viela de roda, seguimos para Goiânia, onde o Grupo Ucelli surgiu e tem feito música antiga há alguns anos. De acordo com Beatriz Pavan, responsável pela viela de roda e pela espineta no grupo, o nome UCCELLI significa pássaros.
O grupo surgiu em 2013 a partir do interesse em se pesquisar a música medieval utilizando instrumentos cópias dos originais. O quinteto é formado por flautas doces, rabecas, percussão, voz espineta e viela de roda. E o interesse pela viela veio a partir da necessidade de incorporar ao grupo um instrumento que fizesse bordão e mesmo melodia nos arranjos das peças, que vem basicamente do "Livro vermelho de Montserat", "Camina Burana", "Canções de Santa Maria" além de obras do cancioneiro brasileiro de tradição oral.
Os descobri porque em janeiro quando vielista do grupo, Beatriz, entrou em contato comigo. Ela havia recebido sua viela de roda (a famigerada viela do Ebay) e estava com problemas nos ajustes e manutenção de seu instrumento. Infelizmente não pude ajuda-la como gostaria, já que estamos em estados diferentes. De qualquer forma, pessoas, devemos sempre estar atentos a essas vielas - não custa lembrar - pois elas acabam sempre funcionando como armadilhas e podem frustrar quase que irreparavelmente alguém que dedicou tempo e dinheiro a sua compra.
A boa notícia é que hoje a Beatriz também possui uma symphonia (modelo medieval) contruída pelo vielista húngaro Robert Mandel. Sobre seu novo instrumento Beatriz me disse estar muito satisfeita com seu som; e acrescentou que acredita que logo logo teremos construtores de vielas por nossas terras, popularizando ainda mais o instrumento.
Obrigado Beatriz pela sua atenção. Tudo de bom a você e sua nova symphonia!
Vocês podem seguir o UCELLI no instagram. =)
quarta-feira, 26 de julho de 2017
Entrevista com Pablo Lerner (2017)
Há uns anos atrás eu já havia escrito sobre o Pablo aqui. Recentemente encontrei essa ótima entrevista com ele conduzida em janeiro (como estava viajando eu acabei me esquecendo de postá-la). Durante seu último período aqui no Brasil, Pablo integrou o grupo Cordal com seu tekerolant (nome húngaro para a viela de roda).
Descobri recentemente que Pablo não se encontra mais em terras brasileiras, ainda assim. Deixo aqui outro vídeo sensacional que fala mais que quaisquer palavras que eu possa usar para descrever sua arte.
terça-feira, 25 de julho de 2017
No Brasil: Asa de Grilo Folk
É com muita alegria que escrevo esse post. Já faz algum tempo que venho reparando o surgimento de alguns novos grupos e artistas que tem incorporado a viela de roda em seus trabalhos e eu sempre na correria esqueço de lhes dedicar o devido tempo. Hoje consegui; e só queria repetir que é sempre uma surpresa feliz ver nosso instrumento ganhar cada vez mais espaço por aqui.
O post de hoje é sobre um desses grupos que eu tenho encontrado - e um com mágica já em seu nome - o Asa de Grilo Folk (como não amar esse nome?). Os conheci há alguns meses no (pasmem!) #instagram e não demorei a entrar em contato com o André. O trio então respondeu algumas perguntas sobre o projeto. Foram super solícitos, tanto que me bastou copiar e colar suas respostas.
Com vocês, Asa de Grilo:
- De onde vocês são e como o grupo surgiu? Qual a trajetória dos membros?
Moramos em Chapecó, Santa Catarina. O grupo surgiu a partir de festas
medievais que fizemos aqui na região há alguns anos. No início,
juntamos alguns amigos que tinham interesse em repertório medieval e
folk para ensaiar alguns temas, com o intuito de toca-los nessas
festas. Deste grupo inicial, persistiram na proposta André e Thiago,
criando algumas músicas inspiradas na linguagem folk, medieval,
renascentista e céltica. Este ano Ricardo passou a integrar o Asa de
Grilo, que fez recentemente sua primeira apresentação.
- Poderia nos falar um pouco sobre a trajetória dos membros?
André Luiz Onghero - Dedica-se à música há 22 anos, compondo e tocando
vários instrumentos, principalmente guitarra. Participou de várias
bandas de rock, blues e folk. Desde 2007 começou com experiências e
pesquisas sobre construção de instrumentos musicais medievais. No Asa
de Grilo, compõe e toca violino, violão, gaita de fole, viela de roda,
flauta, escaleta e percussão. Profissionalmente, atua como historiador
e tem formação na área de história e educação.
Thiago Cardoso de Aguiar - Há cerca de 10 anos iniciou sua trajetória
musical, participando de bandas de rock e heavy metal como cantor e
compositor. O interesse pela cultura medieval o motivou a criar a
parceria musical com o André e também a fabricar hidromel. No Asa de
Grilo, além de compositor e vocalista, ele toca flauta, violão, gaita
de fole, escaleta e percussão. Profissionalmente, é atendende
comercial.
Ricardo Parizotto - Participante mais recente do grupo, dedica-se ao
violão há 8 anos. O interesse pela música medieval surgiu após
conhecer os integrantes do grupo, onde hoje toca violão e percussão.
Profissionalmente atua como professor universitário.
- De onde vem o nome Asa de Grilo?
Apesar do projeto já ter alguns anos, está mostrando sua produção
apenas agora em 2017. O nome também é recente e consideramos que ele
representa bem a proposta sonora do grupo. Afinal de contas, o grilo é
um animal que existe em todos os continentes e que é personagem do
folclore de várias culturas. Além disso, é pelo raspar das asas que
ele produz o seu som característico, o que meio que o transforma em um
instrumentista. Então a mescla destes elementos nos motivaram a
escolher Asa de Grilo como nosso nome.
- Como conheceram a viela de roda e como incorporaram o instrumento à
banda? Vocês mesmos a construíram?
Eu (André) conheci a viela de roda em 2001, em um simpósio de história
que aconteceu na UFF em Niterói, quando vi alguns grupos de música
antiga e me interessei muito por música medieval e pelos instrumentos
que eles usavam, entre os quais, a viela de roda.
Em 2007 resolvemos fazer uma festa medieval e aí comecei as tentativas
de fazer instrumentos. Inicialmente tentei fazer um alaúde, mas ficou
algo muito tosco, o que não impediu de tentar mais algumas vezes,
ainda que sem sucesso. Parti para as flautas, obtendo resultados
satisfatórios. Queria também fazer gaitas de fole e vielas de roda, e
fiz várias tentativas frustradas. Após muita pesquisa, em 2013 comprei
um torno para madeira e as ferramentas específicas, conseguindo
construir a minha primeira gaita de fole. Depois disso, continuei a
produção e já fiz várias gaitas, que usamos no grupo. Em 2015, fiz uma
viela de roda sem muito planejamento e que não deu muito certo, mas me
ajudou muito a entender as peculiaridades do instrumento. Após certo
tempo planejando, em 2016 comecei a construir esta que estou usando,
ainda em caráter experimental e já identificando vários itens a
aperfeiçoar nos próximos projetos. Mesmo ela sendo um instrumento a
ser aperfeiçoado, não nos impediu de a usarmos, inclusive
disponibilizamos alguns videos de músicas nossas tocadas com ela.
- O repertório de vocês é autoral?
Sim, nosso repertório é majoritariamente autoral. Temos vários temas
instrumentais e algumas canções, e, como forma de contextualização,
tocamos algumas músicas medievais, renascentistas e folclóricas. Fica
o convite para conhecer o nosso trabalho no youtube ou em nossa
página do facebook
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Eu sempre - sempre mesmo - fico impressionado com essa característica tão nossa quando o assunto é a viela de roda. Estamos aqui meio isolados do mundo vielístico europeu, e não são tão raras as pessoas que vem tentando construir vielas. Meus sinceros parabéns a todos vocês.
E meu muitíssimo obrigado ao André e os rapazes do Asa de Grilo. Sucesso pra vocês!
E meu muitíssimo obrigado ao André e os rapazes do Asa de Grilo. Sucesso pra vocês!
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