quinta-feira, 12 de junho de 2014

No Brasil: Raine Holtz


O algodão ruivo é o Fox Fiber, produzido pelo Mel Dorries

Este não é um post sobre algodão, diretamente.

Esse pacotinho chegou essa semana para mim, em boa hora, já que eu estava matando viela a grito com o algodão que estava usando por aqui. A boa alma que me enviou isso? Raine Holtz, diretamente de Curitiba. Acho que todo mundo que lê esse blog sabe o que um punhado de algodão significa para nós, então não tenho medo de dizer que estou até agora radiante com esse presente. hahaha

Raine abençoando o algodão que ia me enviar BRINKS
(Jantar Medieval taberna folk VI, 24/05/2014)

Engraçado mesmo é pensar que até alguns meses atrás eu estava sempre à procura de pautas para o blog e hoje, vejam só, existem "mil coisas" acontecendo na ~~~ cena vielística brasileira ~~~ e ao dizer mil coisas eu estou me referindo a uma só: Raine.

Eu já havia feito um post sobre o lindo trabalho do Through Waves - que vai muito bem, obrigado, lançando logo logo um novo EP - mas hoje estou aqui para falar do que esse ser iluminado vem aprontando por nossas terras, fazendo música ao vivo e mostrando a viela de roda para pessoas que nunca imaginaram sua existência.

Quando entrei em contato com Raine pela primeira vez, eu estava falando com um artista super reservado, com algumas ressalvas em relação a se apresentar ao vivo e expor seu trabalho, que teve uma origem mais terapêutia/catártica antes de qualquer pretensão mais, digamos, artística. (Ledo engano, Rainnsss)

And this is what I use to release the awesomeness
Fato é que Raine hoje já é praticamente uma celebridade, constantemente filmado e fotografado em suas tardes tocando pelas ruas de Curitiba e já até participou de dois jantares medievais Taberna Folk. Quem diria, um vielista brasileiro ganhando popularidade tocando nas ruas. (!)

Raine não só tem crescido enquanto artista, mas tem o feito levando a viela de roda diretamente às ruas de sua cidade, o que é um ato tão nobre, mas tão nobre, que ninguém tem noção. Essa atitude linda já gerou bons frutos para nosso pequeno mundo, e Raine apareceu em algumas matérias jornalísticas sobre seu trabalho e, claro, sua viela.

Com Luis FitzPatrick
Além de participar de jantares medievais e de embelezar as ruas de Curitiba, Raine ultimamente tem se reunido com diferentes vielistas brasileiros, algo que só pode ocorrer de forma mais imediata lá pelas bandas dele, já que o Paraná conta com nada mais nada menos que TRÊS dos raros vielistas brasileiros. Raine andou trocando figurinhas com os outros dois (!) vielistas, que fazem parte da banda Gaiteiros do Lume (em breve um post sobre eles!), a saber, Mateus Sokolowski e Luis FitzPatrick.

Raine e Mateus. Dava uma dupla folk vielíestica (Y)
Acho incrível como aquelas bandas são férteis para a viela de roda. Além de Raine, Mateus e Luis, logo contaremos com uma vielista nova também. Bom, isso é assunto para depois. Fiz esse post mais para registrar a alegria que é ver essas coisas acontecendo, música sendo feita por mais de uma viela de roda aqui no meu país. Pessoas se encontrando para tocar e trocar experiências. Isso é lindo.

Deixo aqui meu agradecimento ao Raine pelo algodão, pelo apoio e pelo carinho. E desejo sorte a esse bando de vielistas de roda jogados por aí. Continuem a divulgar nossa paixão, mostremos cada vez mais nosso instrumento lindo; e vamos abduzindo mais gente pra esse mundo nosso.



*A vielas dos Gaiteiros do Lume foram feitas por Xaime Rivas (para do Luis) e Jaime Rebollo (para o Mateus), ambas galegas.  A viela tocada por Raine Holtz vem dos EUA, tendo sido construída por Mel Dorries.

Vielisticamente,

Rique


quarta-feira, 7 de maio de 2014

Busk in Basel: meus últimos dias na Suíça



Marktplatz num dia sem feira, minha esquina
está ali naquela árvore.
Os casacos e os chapéus pomposos que se moviam dentro da loja já não me intimidavam tanto. A loja de jóias onde eles se encontravam, bem em frente ao meu banco, estava sempre cheia. Era bem pequena, na verdade. Logo ao meu lado havia uma carrocinha onde um simpático senhor vendia amendoim torrado, e nossa esquina terminava na Marktplatz, uma praça linda onde uma feira gastronômica ocorria bem em frente à câmara municipal. Era um prédio vermelho, muito característico. O cheiro do amendoim era perfeito porque todo mundo que parava para comprar seu pacotinho era obrigado a ouvir o som daquele instrumento ali.

Pouco importa se era uma quarta, quinta ou sexta-feira. Aqueles eram alguns dos meus últimos dias ali e o frio era o mesmo; na verdade era até um pouco pior naquele cantinho, onde um vento cortante insistia em passar. O frio, que até então não havia me incomodado, começava a se fazer presente. Acho que era o nervoso de estar me expondo daquela forma. Escolhi aquele banco não só porque estava vago, mas também porque o outro que estava disponível havia sido o palco de um rapaz e seu acordeon nos outros dias em que passei por lá. O meu banco era também bem discreto, não me deixando no meio de uma praça ou em um local muito aberto em que eu pudesse pegar chuva. Numa cidade tão certinha, só pega chuva quem quer.

Em Basel há toda uma organização (oh, really?) com relação à arte feita nas ruas. Há normas feitas especificamente para os músicos, que devem mudar de localização após uma hora tocando, respeitando a distância de outros músicos e levando em conta os horários específicos para o busking. Ainda assim, cada cantinho tem o seu músico de cativo, pelo menos em determinado horário, o que é bem interessante. Lembro da moça tocando flauta transversa na porta de uma loja de perfumes, do senhor do leste europeu tocando saxofone perto de um Mc Donnald's - ele certa vez atravessou a praça só para me alertar sobre o horário e as multas que eu pagaria caso fosse pego - e lembro do carinha hippie tocando um violão muito velho e tosco numa travessa. Havia uma cumplicidade nos olhares que trocávamos, reconhecíamos a dor e o prazer do que estávamos fazendo (eles, obviamente, muito mais que eu). Eu queria ter conversado com todos, mas sou tímido demais para isso. É engraçado, na verdade Os músicos de rua são admirados por toda a ideia romântica que os cerca. São trovadores. Mas ái daquele que decidir isso para sua vida. É estranho e fascinante, no fim. Eu amei todas essas pessoas, mesmo eu não sendo músico de rua. Na verdade nunca o fui. Era tão óbvio que eu vinha de longe. Um dia um rapaz carregando um alaude me viu no ponto de ônibus e mal disfarçou seu olhar de mas quem é esse? E olha que ele era um dos músicos da Schola, e não um dos músicos que tocavam na rua.  Eu não estou acostumado a tocar sem meus companheiros de banda porque me sinto nu, extremamente exposto. Amo e talvez precise de meus amigos ao meu lado fazendo música comigo. Em Basel não foi diferente, mas o frio na barriga que me atingiu após eu ter conseguido o panfleto informativo para músicos de rua não me impediu de tentar. Mesmo que ninguém soubesse, aquela cidade pertencia a mim e minha viela, pelo menos por aqueles dias.

Baffusserplatz
O primeiro dia foi estranho, saí cedo, pouco antes do almoço e da minha aula, só para estudar e procurar meu futuro spot. Sabia que seria em uma praça porque praças são lugares onde as pessoas normalmente circulam. Ainda mais em Basel, em que esses espaços são efetivamente utilizados e explorados de todas as formas possíveis e imagináveis, nem que seja apenas para acolher uma obra de arte, como uma escultura ou o que for. Por puro comodismo escolhi a Baffusserplatz, uma espécie de centro da cidade por onde quase todos os bondes passavam inevitavelmente. Me pareceu um lugar promissor, então comecei por lá. Fazendo um som pro pessoal que estava indo para o trabalho, pra escola etc. Foi bem desconfortável porque meu banco estava meio molhado, e as pessoas não prestaram a menor atenção. Eu já esperava por isso porque né, estamos falando de uma cidade extremamente cool. A cidade onde encontramos a maior escola de música antiga do mundo. Eu já imaginava que por lá a viela de roda não fosse ter um impacto muito grande. Percebi isso no dia em que vi um cara pegando o bonde, casualmente carregando o estojo épico de um theorbo como quem carrega um violãozinho nas costas. Oh, well. Fiquei um pouco lá, bem frustrado e obviamente ignorando o óbvio. Eu estava tão preocupado com o que iam pensar de mim, tão assustado com os olhares dos adolescentes, me perguntando se achariam graça, que esqueci de sentir o que eu estava tocando. Eu estava com medo de passar a maior vergonha quando o foco deveria ter sido sentir o que tocava. 

Mas Basel me inspirava a andar. Aliás, Basel me inspirava. Ponto. Com ou sem o estojo da viela nas costas, eu subia e descia suas vielas (no pun intended), fuçava cada vitrine e tirava foto de cada detalhe. Após algumas muitas idas e vindas da casa da Tobie, pude achar meu banquinho em frente à joalheria quase que por puro acidente. Então estava decidido, no dia seguinte, após meu tempo de estudo em casa, eu voltaria ali. 

Comecei tímidamente, porque estamos falando de uma cidade extretamente antiga, mas ainda assim, como disse, cool de uma maneira moderna. É quase uma cidade hipster, se pararmos para pensar na quantidade de nacionalidades que circulam por lá e na harmonia com a qual os jovens e os mais velhos se misturam naquele ambiente. Inspirado por esta energia boa e acolhido por um cantinho mais obscuro de suas ruas, comecei com tunes em sol porque os bordões soam bem e não ficam tão altos (eu não queria chamar atenção de ninguém). Para minha surpresa, logo se aproximou uma mãe com duas crianças e ela, da forma mais fofa da face da terra, mandou seu filho mais novo (um bebê!) vir até meu estojo e colocar no mesmo dois tímidos francos suíços. Meu dia já tinha sido decretado um sucesso ali. O sorriso no meu rosto só foi quebrado minutos depois, quando um casal francês - diretamente da Bretanha - me abordou. Me elogiaram bastante e ficaram atônitos quando falei que vinha do Brasil. Com uma viela que veio, por sua vez, de Gales. Jamais saberei ser gringo. Me senti um alien.

Além dessas pessoas fantásticas, outras dezenas passaram e deixaram suas contribuições, fossem elas um sorriso, uma pergunta, uma moeda ou apenas uma foto tirada de mim e minha Lyanna. Isso significou tanto para mim. Mas tanto. Acho que o sentimento de estar fazendo o que mais amo tão longe de casa, numa esquina qualquer daquela cidade, é algo que ainda não consigo colocar aqui. O frio nos meus dedos já não existia mais. A timidez, a insegurança, o medo, nada disso importava naquele momento. Era eu e minha viela ali, fazendo música numa cidade que é nada mais nada menos que arte.

A sensação que eu tinha é que tudo o que eu vivi a vida inteira teve que ser como foi para que eu estivesse exatamente ali. A viela é a viela em qualquer país, pensei.  A paixão que ela desperta aqui é a mesma que ela desperta lá, por mais que um ou outro na Europa a conheçam como vielle à roue ou ghironda.

Após ser alertado pelo meu companheiro do outro lado da praça, eu nem procurei outro ponto para tocar. Apenas peguei alguns trocados dos francos que faturei, comprei um café e fui andar pela beira do Reno. Fiquei quase duas horas por lá, apenas andando, já tentando me despedir de tanta coisa ao mesmo tempo. Tocar na rua para mim nunca foi uma questão de ganhar dinheiro. Eu queria apenas consolidar minha existência nessa cidade que me tocou de tantas formas, retribuindo tanta magia e tanto encanto vividos por um mês.

Me sentir em casa mesmo estando do outro lado do oceano é algo raro para mim. E nada naqueles prédios soava estranho. Nada naquelas ruelas, nada naquelas fontes de dragão soava estrangeiro. Suas pontes, seus moradores, seus bondes e seus músicos de rua, tudo, tudo, tudo, convivia de forma harmoniosa aos meus olhos. Ter estudado com a Tobie Miller, cuja paciência e o profissionalismo deixaram resultados permanentes em minhas mãos, foi algo indescritível. Ter participado da session também. Ter ido ao topo da Europa, subido montanhas descomunais que passavam por vales e sentir que olhei nos olhos de Deus... Nada vai me fazer esquecer nada disso.

E sabe de uma coisa, a viela é meu instrumento mesmo. E eu afirmo isso porque há uma imagem que não sai da minha cabeça, que é a imagem de mim mesmo sentado no banco do conservatório em que estudei no dia da prova de admissão. Lembro de ver um rapaz um pouco mais novo que eu tocando Bach divinamente, de uma forma tão energética que deveria ser inspiradora. A inspiração, nesse caso, nunca veio. E tudo o que eu pensava naquela tarde era que eu nunca seria assim. Era meio que uma sensação de perder um jogo antes mesmo de começar a jogar.

Não existe isso aqui com minha viela. Eu voltei para o Brasil feliz justamente porque a cada vez que vejo um grande músico deixar uma viela em chamas, eu sei que não é uma questão de se, mas sim uma questão de quando eu tocar assim. E eu acho isso o máximo. =]

Meus dois francos estão guardados para sempre.

Basilea no fim da minha última tarde por lá

quinta-feira, 17 de abril de 2014

No Brasil: descoberta chocante

OK, SURTANDO AQUI.

Tá. Quem me conhece sabe que nessas minhas andanças pelo mundo vielístico eu procuro sempre saber quem já passou por aqui girando a manivela. Eu já mencionei alguns dos quais tive conhecimento, com o Pablo Lerner e seu tekerolant pelo nordeste, o Ariel Niñas em Minas e até o Robert Mandel lá pelos anos 80 passou por aqui, tocando no Rio, se não me engano.

O problema com esse tipo de "pesquisa" é que as apresentações que trazem a viela são geralmente obscuras, com pouco alcance. Além disso, temos que definir o tipo de viela ao qual estamos nos referindo. Se tratarmos da sinfonia medieval, fica realmente complicado, já que os grupos de música antiga nas grandes universidades brasileiras já existem há muito tempo... Se nos referirmos à viela "moderna", nos moldes que surgem mais ou menos à partir do século XVIII, conseguimos detecta-las de forma mais fácil. Ainda assim, tirando a apresentação do Arcade Fire e daquele ensemble francês que esteve por aqui ano passado, fica complicado ter acesso ao que passou por aqui, por conta da não existência da internet por aqui num passado não tão distante.

Daí, minha gente, o fato é que ontem, num momento super aleatório em que eu estava de bobeira em casa, fui, como sempre, assistir a uns videos a respeito do instrumento - na verdade para deixar de música de fundo para algumas leituras. Pesquisa um pouco daqui, lê um pouco de lá... Decidi procurar aquele solo épico que o Nigel Eaton tocou numa turnê com o Robert Plant lá pelos anos 90. Achei que seria uma boa trilha sonora para o momento em questão. Daí dei de cara com isso aqui:


                                               Favor colocar no minuto 00:22

Exatamente. Nigel esteve aqui na turnê do Plant lá pelos anos 90, e tocou duas gigs, uma no Rio e outra em São Paulo, tocando aquela viela de roda maravilhosa dele, e eu infelizmente era apenas uma criança que ouvia Estoy Aquí risos não sabia da existência desse instrumento e mal sabia que anos mais tarde esse mesmo homem me inspiraria a pesquisar/catar/comer o pão que o diabo amassou para arrumar uma e, claro, tocar a viela de roda.

Tomado pelo choque de tal revelação chocante, tratei de escrever para o próprio e perguntar mais ou menos COMOFAS como foi que isso rolou, o que ele achou etc; e de acordo com o Nigel ele esteve aqui mais. de. uma. vez.  MAISDEUMAFUCKIN'VEZ, minha gente. E antes mesmo do Robert Plant convida-lo para sua turnê (!), ele já havia passado por aqui em 86 e depois em 89, rodando o Brasil com alguma programação do consulado britânico. 

Daí é isso, galera. O universo já presenteou o Brasil com Nigel Eaton e seu bom e velho gurdy, quem tinha um, quatro ou doze anos de idade na época, perdeu. Quem viu, viu.  Quem não viu, chora. MAS CHORA MESMO. /drama

Se eu procurava a primeira vez em que uma viela foi tocada ao vivo e transmitida para todo mundo (ou quase isso) ver, acho que encontrei. Mas só acho.

No mais, faço minhas as palavras dele:

"I love Brasil and Brasil loves the Hurdy-Gurdy."

Vielistica e, pelo menos agora, amargamente,

Rique


sábado, 12 de abril de 2014

Mais da Suíça: session épica e o Bourrée D'armes


No meu primeiro dia de aula com Tobie Miller, a expectativa era grande. O medo também. Estar de cara com alguém que sabe tanto quanto ela pode ser assustador; e ainda que um professor não vá ser ríspido com um aluno particular, o medinho de parecer muito menor de uma maneira negativa me perseguia.

Claro que tudo correu bem, e eu deixei a aula não só animado com a perspectiva de aprender cada vez mais, mas também com um convite super, super, super, SU-PER chique: participar de uma session que rolava vez ou outra lá em Basel.

Direto de 2011 - Session em Dublin
Antes de mais nada, devo dizer que Tobie é casada com o grande Baptiste Romain, que além de um  talento em instrumentos como o violino (medieval e renascentista), lira de braccio e gaita de fole medieval (acredito que bretã), é também professor de música medieval. Pois bem, Baptiste tem uma aluna de gaita de fole que promove uma session que agora não sei dizer se é mensal ou não, se tem uma regularidade ou não. Fato é que no dia de minha primeira aula, a tal session rolaria e Tobie e Baptiste estariam lá. Óbvio que aceitei o convite; e ainda tive a pachorra de aparecer por lá com minha viela nas costas.

Minhas experiências com sessions sempre foram positivas. Na Irlanda, na França e aqui mesmo no Brasil, sempre conheci músicos muito amáveis, que claramente estavam ali por razões que iam além do que apenas tocar. As sessions tradicionais em que toquei sempre se mostraram encontros estranhamente formais e solenes, um encontro de pessoas que amam demais aquilo que está para ser tocado. Em Basel não foi diferente, mas de fato senti uma atmosfera mais séria.

Irish Session Rio
Cheguei debaixo de uma chuvinha fina, super tímido e meio perdido, já que o estabelecimento, se era ou foi alguma vez um bar, havia sido drasticamente modificado. Digo isso porque me deparei com uma sala completamente vazia, sem nada além de uma grande mesa (com alguns petiscos, algumas velas e algumas garrafas de vinho) e algumas cadeiras para os músicos. Com músicos, óbvio. Que me encararam com um ar que não sei até agora se era de "Wtf?", ""Olha, que legal, mais um!" ou "ah, então este é o brasileiro." Fiquei atônito demais com o gigante contrabaixo acústico preto para me preocupar com isso. Me apresentei, dei um oi a todos e tratei de tirar minha viela do saco, o que gerou uma ondinha de  "ohhh"'.

Eu estava muito tenso, porque de vielistas havia apenas eu e Tobie. Havia três moças no violino, dentre elas uma senhora muito, mas muito fofa. E todas elas tocavam num estilo tradicional que não era irlandês, mas sim bretão. Na conversa do dia seguinte Tobie insistiu no fato de a session não ter sido categoricamente bretã, já que rolou um pouco de tudo: música medieval, danças inglesas, francesas, irlandesas etc. Mas ainda assim, gente. Para quem vem do Rio de Janeiro aquilo foi uma session bretã maravilhosa e eu morri.

Num certo ponto da session, quando eu revezava minha atenção entre (tentar) acompanhar algumas tunes e responder as questões de uma senhora ao meu lado (Rique, o E.T. amigo diretamente do Rio de Janeiro com uma viela, vocês não tem ideia.), a anfitriã da session e aluna do Baptiste jogou na mesa um audível "e você, não vai tocar nada?". Tá ok que em sessions sempre rola um certo climão no ar toda vez que uma tune acaba, né. Há uma expectativa a respeito de quem vai puxar alguma coisa. Bom, nesse momento o climão me pareceu mais forte. Senti um calorzinho e desenterrei um bourrée que aprendi nos primeiros meses de viela de roda, pegando umas tunes num livro de danças tradicionais do Morvan, região montanhosa da França. Mandei essa tune de forma arriscada, não sei mesmo de onde ela saiu. Só sei que Baptiste prontamente me seguiu com sua gaita de fole, e logo depois um dos violinos entrou. Nesse momento achei fofo, esse apoio. Estava morrendo de medo de estar tocando algo claramente descontextualizado, ou sei lá, gente, vai que o raio do Morvan é uma região detestada por todos e eu estivesse causando um certo desconforto. (juro que o overthinking chegou nesses níveis)

Daí que na segunda repetição da tune todos, eu disse TODOS da sala estavam tocando e eu fiquei completamente arrepiado. Minha vontade era de chorar. Na terceira e quarta (!!!) repetições um casal (um senhor do violão e uma das moças do violino) se levantou e simplesmente começou a dançar os passinhos de dança tradicional. Meu sorriso bobo disfarçou bem, porque por dentro eu estava gritando YOU GUYS JUST DON'T UNDERSTAND aos prantos, mas me segurei e me joguei naquele momento. Fiquei tão tocado, mas tão tocado. Lembro de quando aprendi essa bourrée sozinho aqui no meu quarto, sem ter ideia do que eu e minha viela tínhamos pela frente.

Foi realmente uma noite memorável, uma das mais especiais que vivi. Ninguém no mundo vai entender. Nunca. Agora só falta uma session quase puramente vielística aqui no Brasil. E eu quero sentir a mesmíssima coisa novamente. =)


Para ouvir um pouco do Bourrée em questão, clique no link abaixo, que foi o único que encontrei.


Vielisticamente,

Rique

quarta-feira, 9 de abril de 2014

No Brasil: Arcade Fire



Por essa muita gente (5 dos meus 7 leitores risos) não esperava, mas sim: vamos  falar da fantástica Arcade Fire, banda que esteve no Brasil na semana passada para um show no Rio de Janeiro e uma apresentação no Lollapalooza, em São Paulo.

Para quem não sabe, a banda faz um rock  indie, com pegadas da música pop, eletrônica e mil - literalmente mil - outras influências; e uma dezena de instrumentos em suas apresentações, entre os quais, não tão obviamente, está a viela de roda.

Quem comanda a manivela na banda é Règine Chassagne, que além de se aventurar na viela também toca acordeon, bateria, xilofone, teclado e órgão. Além de cantar.

Essa apresentação acaba sendo especial porque me parece que é a primeira vez que uma viela de roda é tocada ao vivo para o Brasil todo ver, em o que, mais ou menos 1.200 anos de instrumento. Isso é bem especial. Uma pena que eu tenha perdido isso por questão de minutos, já que perto do fim do show dos caras eu precisei assistir a estreia da quarta temporada de Game of Thrones por motivos de força maior.

Bom, aqui vai um vídeo de umas das músicas em que a viela de roda aparece no Arcade Fire; e é justamente a canção que eles tocaram no Lollapalooza.

Isso é a viela ganhando mais espaço no mundo.



Vielisticamente,

Rique

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Daí construíram.


Finalmente uma viela (uma sinfonia, na verdade) construída no Brasil. Vejo um futuro promissor para Alexsandro Novaes - famoso Caviúna! Parabéns ao luthier!

Infelizmente não consegui botar o vídeo da forma que queria para vocês, então fiquem à vontade para clicar aqui.

Grande passo para a sociedade vielística brasileira.  ;-)

Vielisticamente,

Rique

Basel's Music Museum


Ano passado eu já havia visto algumas vielas maravilhosas na Cité de la Musique, em Paris. Foi uma grande tarde em que pude curtir até mesm o som de um erhu tocado ao vivo. Esse ano, como vocês sabem, fui atrás de mais vielas, mas lá em Basel; e esses tesouros atrás de mim estão lá, no Music Museum, um espaço modesto e bem simples, mas que guarda tesouros incalculáveis.

A tarde que passei lá foi maravilhosa, e o número de instrumentos que pude ver de perto, inacreditável. As salas eram separadas não só por períodos, mas por grupos de instrumentos. Então existia uma sala para violões, uma para violinos (quase morri), outra para flautas e por aí vai. Surreal. Abaixo, algumas fotos:


Eu sabia o nome disso. Juro.


Tambores tradicionais no caranval de Basel

Mais manivelas...

A parte das vielles era realmente bem limitada, mas não estou reclamando. Construtores como Pajot e Jean Louvet estavam ali diante de mim; e seus instrumentos, ainda irresistíveis. Não preciso dizer que fiquei babando horas por  essas vielas. Eu saía, dava um ~rolezinho~ pelo museu, fingia que estava interessado numa exposição sobre a historia do Rock n' Roll que estava rolando por lá e voltava para babar mais. 

Trombas Marinas
Além das vielas, pude babar um pouco nas trombas marinas (trompette marine). Esse inusitado instrumento que soa como um verdadeiro E.T. aos nosso ouvidos é um priminho distante da viela de roda, no sentido em que seu mecanismo é exatamente o mesmo do trompette da viela: há uma pequena peça de madeira que fica parcialmente solta no tampo do instrumento que, ao entrar em contato com a corda e responder a vibrações, emite um som bem característico. 

Nesse vídeo aqui (em português!) Carlos Ramos fala um pouco do instrumento.

Aparentemente a tromba marina teve seu auge no século XV, mas teria surgido séculos antes, derivando de um objeto de estudo musical para monges estudavam as distâncias e escalas. 

Nos resta saber se o nosso bom e velho trompette da viela recebeu esse nome por conta da semelhança entre os sons ou se isso se trata apenas de uma mera coincidência. De qualquer forma, fica o singelo registro desse dia tão especial para mim. =)

Aqui está o site do museu, para quem se interessar.

Vielisticamente,

Rique