sábado, 12 de abril de 2014

Mais da Suíça: session épica e o Bourrée D'armes


No meu primeiro dia de aula com Tobie Miller, a expectativa era grande. O medo também. Estar de cara com alguém que sabe tanto quanto ela pode ser assustador; e ainda que um professor não vá ser ríspido com um aluno particular, o medinho de parecer muito menor de uma maneira negativa me perseguia.

Claro que tudo correu bem, e eu deixei a aula não só animado com a perspectiva de aprender cada vez mais, mas também com um convite super, super, super, SU-PER chique: participar de uma session que rolava vez ou outra lá em Basel.

Direto de 2011 - Session em Dublin
Antes de mais nada, devo dizer que Tobie é casada com o grande Baptiste Romain, que além de um  talento em instrumentos como o violino (medieval e renascentista), lira de braccio e gaita de fole medieval (acredito que bretã), é também professor de música medieval. Pois bem, Baptiste tem uma aluna de gaita de fole que promove uma session que agora não sei dizer se é mensal ou não, se tem uma regularidade ou não. Fato é que no dia de minha primeira aula, a tal session rolaria e Tobie e Baptiste estariam lá. Óbvio que aceitei o convite; e ainda tive a pachorra de aparecer por lá com minha viela nas costas.

Minhas experiências com sessions sempre foram positivas. Na Irlanda, na França e aqui mesmo no Brasil, sempre conheci músicos muito amáveis, que claramente estavam ali por razões que iam além do que apenas tocar. As sessions tradicionais em que toquei sempre se mostraram encontros estranhamente formais e solenes, um encontro de pessoas que amam demais aquilo que está para ser tocado. Em Basel não foi diferente, mas de fato senti uma atmosfera mais séria.

Irish Session Rio
Cheguei debaixo de uma chuvinha fina, super tímido e meio perdido, já que o estabelecimento, se era ou foi alguma vez um bar, havia sido drasticamente modificado. Digo isso porque me deparei com uma sala completamente vazia, sem nada além de uma grande mesa (com alguns petiscos, algumas velas e algumas garrafas de vinho) e algumas cadeiras para os músicos. Com músicos, óbvio. Que me encararam com um ar que não sei até agora se era de "Wtf?", ""Olha, que legal, mais um!" ou "ah, então este é o brasileiro." Fiquei atônito demais com o gigante contrabaixo acústico preto para me preocupar com isso. Me apresentei, dei um oi a todos e tratei de tirar minha viela do saco, o que gerou uma ondinha de  "ohhh"'.

Eu estava muito tenso, porque de vielistas havia apenas eu e Tobie. Havia três moças no violino, dentre elas uma senhora muito, mas muito fofa. E todas elas tocavam num estilo tradicional que não era irlandês, mas sim bretão. Na conversa do dia seguinte Tobie insistiu no fato de a session não ter sido categoricamente bretã, já que rolou um pouco de tudo: música medieval, danças inglesas, francesas, irlandesas etc. Mas ainda assim, gente. Para quem vem do Rio de Janeiro aquilo foi uma session bretã maravilhosa e eu morri.

Num certo ponto da session, quando eu revezava minha atenção entre (tentar) acompanhar algumas tunes e responder as questões de uma senhora ao meu lado (Rique, o E.T. amigo diretamente do Rio de Janeiro com uma viela, vocês não tem ideia.), a anfitriã da session e aluna do Baptiste jogou na mesa um audível "e você, não vai tocar nada?". Tá ok que em sessions sempre rola um certo climão no ar toda vez que uma tune acaba, né. Há uma expectativa a respeito de quem vai puxar alguma coisa. Bom, nesse momento o climão me pareceu mais forte. Senti um calorzinho e desenterrei um bourrée que aprendi nos primeiros meses de viela de roda, pegando umas tunes num livro de danças tradicionais do Morvan, região montanhosa da França. Mandei essa tune de forma arriscada, não sei mesmo de onde ela saiu. Só sei que Baptiste prontamente me seguiu com sua gaita de fole, e logo depois um dos violinos entrou. Nesse momento achei fofo, esse apoio. Estava morrendo de medo de estar tocando algo claramente descontextualizado, ou sei lá, gente, vai que o raio do Morvan é uma região detestada por todos e eu estivesse causando um certo desconforto. (juro que o overthinking chegou nesses níveis)

Daí que na segunda repetição da tune todos, eu disse TODOS da sala estavam tocando e eu fiquei completamente arrepiado. Minha vontade era de chorar. Na terceira e quarta (!!!) repetições um casal (um senhor do violão e uma das moças do violino) se levantou e simplesmente começou a dançar os passinhos de dança tradicional. Meu sorriso bobo disfarçou bem, porque por dentro eu estava gritando YOU GUYS JUST DON'T UNDERSTAND aos prantos, mas me segurei e me joguei naquele momento. Fiquei tão tocado, mas tão tocado. Lembro de quando aprendi essa bourrée sozinho aqui no meu quarto, sem ter ideia do que eu e minha viela tínhamos pela frente.

Foi realmente uma noite memorável, uma das mais especiais que vivi. Ninguém no mundo vai entender. Nunca. Agora só falta uma session quase puramente vielística aqui no Brasil. E eu quero sentir a mesmíssima coisa novamente. =)


Para ouvir um pouco do Bourrée em questão, clique no link abaixo, que foi o único que encontrei.


Vielisticamente,

Rique

quarta-feira, 9 de abril de 2014

No Brasil: Arcade Fire



Por essa muita gente (5 dos meus 7 leitores risos) não esperava, mas sim: vamos  falar da fantástica Arcade Fire, banda que esteve no Brasil na semana passada para um show no Rio de Janeiro e uma apresentação no Lollapalooza, em São Paulo.

Para quem não sabe, a banda faz um rock  indie, com pegadas da música pop, eletrônica e mil - literalmente mil - outras influências; e uma dezena de instrumentos em suas apresentações, entre os quais, não tão obviamente, está a viela de roda.

Quem comanda a manivela na banda é Règine Chassagne, que além de se aventurar na viela também toca acordeon, bateria, xilofone, teclado e órgão. Além de cantar.

Essa apresentação acaba sendo especial porque me parece que é a primeira vez que uma viela de roda é tocada ao vivo para o Brasil todo ver, em o que, mais ou menos 1.200 anos de instrumento. Isso é bem especial. Uma pena que eu tenha perdido isso por questão de minutos, já que perto do fim do show dos caras eu precisei assistir a estreia da quarta temporada de Game of Thrones por motivos de força maior.

Bom, aqui vai um vídeo de umas das músicas em que a viela de roda aparece no Arcade Fire; e é justamente a canção que eles tocaram no Lollapalooza.

Isso é a viela ganhando mais espaço no mundo.



Vielisticamente,

Rique

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Daí construíram.


Finalmente uma viela (uma sinfonia, na verdade) construída no Brasil. Vejo um futuro promissor para Alexsandro Novaes - famoso Caviúna! Parabéns ao luthier!

Infelizmente não consegui botar o vídeo da forma que queria para vocês, então fiquem à vontade para clicar aqui.

Grande passo para a sociedade vielística brasileira.  ;-)

Vielisticamente,

Rique

Basel's Music Museum


Ano passado eu já havia visto algumas vielas maravilhosas na Cité de la Musique, em Paris. Foi uma grande tarde em que pude curtir até mesm o som de um erhu tocado ao vivo. Esse ano, como vocês sabem, fui atrás de mais vielas, mas lá em Basel; e esses tesouros atrás de mim estão lá, no Music Museum, um espaço modesto e bem simples, mas que guarda tesouros incalculáveis.

A tarde que passei lá foi maravilhosa, e o número de instrumentos que pude ver de perto, inacreditável. As salas eram separadas não só por períodos, mas por grupos de instrumentos. Então existia uma sala para violões, uma para violinos (quase morri), outra para flautas e por aí vai. Surreal. Abaixo, algumas fotos:


Eu sabia o nome disso. Juro.


Tambores tradicionais no caranval de Basel

Mais manivelas...

A parte das vielles era realmente bem limitada, mas não estou reclamando. Construtores como Pajot e Jean Louvet estavam ali diante de mim; e seus instrumentos, ainda irresistíveis. Não preciso dizer que fiquei babando horas por  essas vielas. Eu saía, dava um ~rolezinho~ pelo museu, fingia que estava interessado numa exposição sobre a historia do Rock n' Roll que estava rolando por lá e voltava para babar mais. 

Trombas Marinas
Além das vielas, pude babar um pouco nas trombas marinas (trompette marine). Esse inusitado instrumento que soa como um verdadeiro E.T. aos nosso ouvidos é um priminho distante da viela de roda, no sentido em que seu mecanismo é exatamente o mesmo do trompette da viela: há uma pequena peça de madeira que fica parcialmente solta no tampo do instrumento que, ao entrar em contato com a corda e responder a vibrações, emite um som bem característico. 

Nesse vídeo aqui (em português!) Carlos Ramos fala um pouco do instrumento.

Aparentemente a tromba marina teve seu auge no século XV, mas teria surgido séculos antes, derivando de um objeto de estudo musical para monges estudavam as distâncias e escalas. 

Nos resta saber se o nosso bom e velho trompette da viela recebeu esse nome por conta da semelhança entre os sons ou se isso se trata apenas de uma mera coincidência. De qualquer forma, fica o singelo registro desse dia tão especial para mim. =)

Aqui está o site do museu, para quem se interessar.

Vielisticamente,

Rique

domingo, 30 de março de 2014

A Mão Direita

Imagem tirada do livo La Vielle Et L'univers de l'infinie Archet, do Valentin Clastrier

Se há uma coisa na qual todos os vielistas concordam, esta coisa é a dificuldade da técnica da mão direita. Ela é complicada porque precisamos fazer pequenos movimentos (golpes) com a palma da mão fechada, utilizando tanto a palma da mão em si como o polegar, gerando aquele bzz bzz característico da viela, que leva o som do instrumento a um outro nível, realmente. Eu nunca imaginei a importância que a forma como eu seguro uma maçaneta teria em minha vida, e se você está lendo isso, eu imagino que também seja o seu caso.

Pois bem, esse assunto é complexo, porque  - NEWSFLASH - cada músico, no final das contas, encontra o seu jeito mais confortável de acomodar sua mão na maçaneta, atingindo um melhor controle do instrumento. Bom, isso quer dizer, basicamente, que o seu jeito de executar os coups de poignet (golpes de pulso, na tradução literal) vai depender de: 1) o tamanho de sua mão 2) o tamanho da sua maçaneta (isso soa estranho, sorry) 3) o tamanho da roda do instrumento (já que isso afeta a circunferência onde os [a princípio] quatro pontos da roda se encontram.

Para ser sincero, eu não tenho a menor pretensão de dar uma aula de coup de poignet aqui, porque ainda estou aprendendo e porque a internet nos oferece grandes mestres abordando o assunto de maneira didática através de vídeos informais ou vídeo-aulas como a famosa Zanfona Sen Palabras, do Oscar Fernandez ou as aulas do Alexis Vacher, para os francófonos. Então depois de pensar bastante, achei que o mais válido seria falar da minha experiência pessoal com a Tobie Miller, porque suas aulas foram realmente um divisor de águas nessa minha estrada; e embora eu ainda não esteja da forma ideal, eu já entendi por onde seguir para chegar onde quero.

Bem, antes de mais nada, para aqueles que ainda não estão 100% familiarizados com a relação entre a manivela e o trompette, segue uma foto:

Hurdy-Gurdy Method, da Doreen Muskett
Existem esses quatro pontos principais da roda, pontos que podem ser "acionados" através de leve golpes que damos na maçaneta da manivela para gerar um som extra no instrumento. Esses pontos são fundamentais para colorirmos certas músicas; e cada ritmo musical (bourrée, scottish, valsa, polka etc) vai exigir uma combinação mais ou menos diferente de golpes. Por exemplo, num bourrée, os pontos 1 e 3 seriam seu ponto de partida, já que uma vez que estejamos à vontade tocando a gente pode incrementar esses golpes, e usar e abusar de suas intervenções. É quase como se estivéssemos tocando dois instrumentos ao mesmo tempo. =)

Anotações by Tobie Miller (Y)
Também é bom notar que nós vielistas geralmente usamos uma notação específica para praticar apenas os coups, e essa notação é 90% das vezes baseada apenas em números, principalmente porque muitos vielistas vem do universo folk/trad, e não necessariamente sabem ler/escrever música. Claro que se você sabe ler partitura a coisa fica mais fácil, porque estamos o tempo todo lidando com divisão de tempos e pausas, como vocês podem ver na foto ao lado. De qualquer forma, não sou o maior leitor de música que vocês já viram (eu sou bem emperrado, na verdade), e para quem acha que não tem muito ritmo pegar os golpes de vista/ouvido pode ser um bom exercício, e foi justamente assim que comecei a internaliza-los nesta última viagem que fiz à Basilea.

Tobie me ensinou primeiro o Bourrée de la Plaix, e já nessa música percebi o padrão através do qual eu deveria estudar. É uma espécie de rotina que usamos nas músicas que trabalhamos enquanto estive em Basel, a saber:

1) Antes de mais nada, aprenda a melodia. Seja de ouvido, seja lendo a partitura; aprenda de modo que você consiga tocar sem precisar ler. Sabe quando você toca algo tão naturalmente que consegue falar e tocar ao mesmo tempo? Nem eu, mas é por aí.

2) Uma vez que a melodia esteja bem internalizada, vamos deixar a mão esquerda descansar e focar na mão direta. Apenas na direita, faça o ritmo que a melodia pede. No meu caso a primeira música que trabalhamos era um bourrée, então eu teria que trabalhar com os pontos 1 e 3, basicamente. Algo meio 1,  1-3, 3-1, 1-3  (ummm * um-três  * trêsummmm * um-três), como numa valsa. Depois a coisa ficou um pouco mais complexa, mas não cabe aqui porque isto é um blog. Talvez lá pra frente, num vídeo. 

3) Agora você deve cantarolar a melodia que aprendemos no passo 1, enquanto gira a manivela no ritmo desejado. Faça isso exaustivamente, novamente, de modo que você consiga faze-lo sem pensar muito no fato de estar fazendo duas coisas distintas ao mesmo tempo. Essa é, provavelmente, a parte mais importante desse processo.

4) Finalmente, toque a melodia acompanhada do ritmo. Vale a pena diminuir um pouco a velocidade num primeiro momento, para que tudo se encaixe de forma não muito afoita.

Esses quatro passos foram seguidos a risca por mim, e a Tobie me deixava quanto tempo fosse necessário neles. Me lembro de uma aula em que estávamos trabalhando outra música, no caso um pouco mais complicadinha, e  fiquei tanto tempo nos passos 1, 2 e 3 que tivemos que deixar para terminar no dia seguinte.

Na verdade, essa é a chave do mistério: repetição. Você precisa fazer de novo e de novo e de novo, até atingir aquilo que quer. Tobie me mostrou que é possível fazer isso com calma, porque é uma questão de tempo, mesmo.

Um ponto importante para mim foi como o meu ponto 1 na roda - e provavelmente o de todo mundo - tem que ser muito bem medido, dependendo do ritmo que quero tocar. No bourrée, por exemplo, meu 1 podia ser mais livre, não precisa ser muito controlado. Já numa scottish, ritmo que nos permite usar os quatro pontos da roda, o meu 1 tinha que ser bem curtinho, para que eu tivesse tempo de chegar no ponto 2 com espaço suficiente para faze-lo soar e, consequentemente, chegar no 3 e no 4. Entendem como isso pode ser complicado? Pois é.

Outra coisa fundamental e life chaging foi a noção da roda da viela como uma roda no ar. Tentem imaginar a roda como um círculo girando no ar, diante de você. Você obrigatoriamente tem que passar por todos os pontos dessa circunferência, a cada revolução. Isso exige uma certa memória/noção de espaço, para saber exatamente em que ponto a sua mão está passando em cada nota da música. É essa noção de totalidade que a Tobie me passou e abriu um mundo de possibilidades.

Os coups não são nenhum mistério, os pontos estão todos ali, a gente só precisa achar a nossa própria forma natural de toca-los durante uma música. Eles estão ali para te servir, para embelezar sua música. Seu dever, consequentemente, é poder aciona-los sempre que quiser.  =)


Vielisticamente,

Rique

sexta-feira, 14 de março de 2014

Basilea e Tobie Miller: primeira aula


Esse ano escolhi estudar com a Tobie Miller não apenas por ela ser ~A Tobie Miller~, mas pelo fato de se tratar de uma musicista que chegou na viela de roda através da música antiga - isso quer dizer, de certa forma, que ela é alguém que chegou ao instrumento pela veia mais "erudita" da coisa; e não pelo mundo da música folk/tradicional.

Ano passado, quando estive com o Laurant Bitaud, lembro de ser diariamente liberado do "fardo da tradição" por ele, que cismava que por eu ser brasileiro eu teria a liberdade para fazer o que eu quisesse com o instrumento. Eu até gosto (muito) desse discurso, mas a verdade é que para a gente ir contra uma tradição temos conhece-la a fundo e saber, de fato, a que estamos nos opondo.

A caminho da aula, dragões. #Khaleesi
Fato é que não é esse o meu propósito. Amo a música tradicional e, mal ou bem, meu foco é esse. É pelo menos uma fonte da qual procuro beber constantemente e esse ano, na verdade, isso pouco importou.

Em relação a tradições e à nossa liberdade artística, com a Tobie o buraco é mais embaixo as coisas são um pouco diferentes. Eu já imaginava que alguém do mundo erudito seria mais firme em relação a estudos (não me levem a mal, conheço mil pessoas do mundo trad que são extremamente disciplinadas e não deixariam de estudar por um dia sequer. beijo, Kevin, meu amigo e colega de banda) e no fim das contas, apesar de ter aprendido MUITA coisa com o Laurent, era exatamente disso que eu precisava: alguém que não se importasse com o fato de eu ser ou não parte de uma tradição, alguém que não estava muito ligado no fato de eu ser fluente na linguagem em questão ou não. O foco da Tobie era apenas me fazer tocar e deixar os movimentos da minha mão direita tão naturais quanto os da esquerda. Percebi isso logo no nosso primeiro encontro. Aliás, nessa minha primeira aula eu cheguei super assustado e fingindo que não tinha chegado na vizinhança 30 minutos antes do horário marcado. Se já sou awkward no Brasil, imagina na Suíça. Ainda assim, foi tudo maravilhoso, superando minhas expectativas.

Saber quem alguém é através de vídeos e depois conhecer pessoalmente já é, por si só, uma experiência interessante. Conhecer e admirar alguém de vídeos do youtube por anos e depois ter aulas na casa dessa pessoa, do outro lado do planeta, beira a surrealidade. Tobie foi super solicita e amistosa, literamente uma fofa, com suas pantufas e sua voz baixinha (e sim, ela parece uma pintura barroca que ganhou vida). E nosso primeiro encontro, apesar de suas curiosidades sobre minha viagem e minha história. foi quase todo voltado para o set up do meu instrumento, que tinha acabado de voltar de um reparo.

Magic happens.
There's no reason for you not being able to play a note. Foi o que ouvi quando falei que pensava que não conseguiria nunca executar certas notas mais agudas. A Tobie me dava uns dados assim, com um ar que no fundo, no fundo, parecia dizer oh, you poor summer child... ahaha Mas o que me deixou mais impressionado nela não foi nem a destreza de suas mãos, nem a sua didática maravilhosa, mas sim a atenção dada aos detalhes. A precisão dela em reconhecer e encontrar problemas no meu som era bizarra, sem mais. 

Eu tocava uma nota e ela sabia se o que faltava era algodão, resina, pressão da corda na roda ou - pasmem - a espessura do vão por onde a corda passa. No cavalete. Sério, como assim? Fiquei boquiaberto quando ela simplesmente foi cortando, colando e lixando pontinhas de palitos de dente para deixar o vão do meu cavalete mais estreito para a chanterelle aguda. E foi exatamente o que resolveu alguns, ou melhor, todos os meus grandes problemas.

A viela de roda tem dessas coisas, né. Cada um toca um instrumento feito por uma pessoa, com cordas diferentes, resina diferente, algodão diferente e medidas diferentes. Quantidades, manias, estilos... Tudo influencia o som e não há regras no sentido estrito da coisa. É muito legal ter estado ao lado de alguém tão lúcido e sagaz no que diz respeito à manutenção de uma viela. E a dica fica para vocês: nem sempre dobrar papelzinho embaixo da corda dá jeito. A técnica do palitinho foi um achado, porque tentei de tudo nessa vida: papel, cartolina, plástico... E nada funcionava. Além disso, é praticamente um fato que depois que a coisa é feita você nunca mais vai precisar passar por isso novamente. 

Outro ponto interessante foi ver que a resina que ela usa no algodão das cordas dela é em pó (da pirastro, podem porcurar). Confesso que eu ia morrer sem saber que isso existia, e é muito útil porque desta forma a resina é seca sem ser em pedra (não danifica a roda); e utiliza-la não é tão perigoso para a madeira como a resina líquida. (falando em resina, a Tobie fabrica sua própria resina líquida, triturando a resina em pedra e misturando ao álcool. Ok que não é uma necessidade porque podemos comprar, mas ainda assim! I mean. Badass.)

No fim das contas, nosso primeiro encontro se resumiu a deixar o som da minha viela mais apresentável (o que de fato ocorreu) e a começar o ritmo de bourrée na mão direita.  E falamos sobre o equilibrio entre presão, resina e algodão. Foi bem, bem, BEM esclarecedor.

S2
Resumindo: Tentem a resina em pó, por favor! E prestem atenção na forma pela qual as cordas estão atravessando o cavalete. Vez ou outra, não conseguimos o som que queremos das cordas cantoras por causa de algodão e resina, mas no meu caso, minha cantora aguda não estava soando tão bem porque estava muito solta no cavalete. Vale realmente a pena dar uma olhada em sua viela e ver como é a pressão da corda na roda. Me parece que para as cordas agudas, menos pressão (na medida certa, é claro) facilita muito a vida, já que o som não fica arranhado e tudo parece mais leve - o som, principalmente.

Vou dedicar meu próximo post somente ao que eu e Tobie falamos e fizemos sobre a mão direita, utilizando a boa e velha "notação numérica" (1, 2, 3 e 4) para se referir aos pontos da roda.

Até logo, então. ;-)

Vielisticamente,

Rique

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Freiburg e o Resgate de Lyanna


Ir à Suíça por causa da viela de roda foi provavelmente a coisa mais sábia que eu poderia ter feito enquanto vielista. Saber disso no meu primeiro dia de viagem, contudo, não foi possível. E nem vou entrar nessa onda ~misteriosa e circular~ e dizer que eu acho que certas coisas estão destinadas a acontecer dei sorte. Vou sim falar da Basiléia e de tudo que aquela cidade me trouxe nos próximos posts, então por hora vou apenas contar para vocês o que rolou depois de eu ter me deparado com uma fucking rachadura no fundo da minha Lyanna.

Chorar teria sido a reação mais natural, e eu juro que eu quis chorar, de verdade. Mas nem isso consegui. Fiquei sentado no meu banquinho, no meio de Heathrow, me sentindo sem chão. Não tive reação nenhuma, e só depois de mais de uma hora é que eu levantei e fui procurar um lugar para dormir.

#PartiuFreiburg
Uma vez no hotel, pude inspecionar a rachadura e tudo que eu podia pensar era que ela tinha sido causada pela mudança temperatura, elemento que não deveria ter tido esse impacto, por mais forte que fosse. Depois pude confirmar que de fato o reparo feito nela antes de eu compra-la não havia sido feito da melhor forma possível. Enfim, um pouco mais tranquilo (prêmio Nobel de ser humano mais tranquilo para mim PRA ONTEM obg) e tentando raciocinar, escrevi para a minha professora tentando manter a calma. Tobie Miller, sábia que é, me disse que na Suíça em si eu não encontraria nenhum luthier, mas que o mais próximo estava "ali na Alemanha", há exatos 40 minutos da Basiléia (viva a Europa, que é do tamanho do meu bairro). Okay, then foi tudo o que eu pude dizer. Então mal cheguei à Basiléia e fui até Freiburg ver o que poderia ser feito.

Mais uma vez esse instrumento lindo me fazendo madrugar e pegar uma penca de ônibus e trens até um remoto lugar. Dessa vez a coisa foi um pouquinho mais tensa. Precisei ir até a estação de trem alemã da Basiléia, já que de lá as passagens eram mais baratas. Eu só não contava com o fato de ninguém falar nem inglês nem francês por lá - falei em inglês anyway porque né? O que eu podia fazer? - E civis me ajudaram porque a galera da cabine de informações nem sinais queria fazer. risos.

Bom, se tem uma coisa que aprendi nessa vida vielística é que luthiers nunca nunca nunca nunca NUNCA moram onde eles dizem morar. Gales não quer dizer Cardiff, França não quer dizer Paris e... Freiburg não quer dizer Freiburg, mas sim:

Uma "cidade" de três ruas há 20 minutos de Freiburg. Sério.

Daí quer dizer: leso que sou, ainda levei um tempo para encontrar o que procurava (uma loja de pianos) e pasmem, ela realmente existia, e era linda! Pois bem, nos fundos do terreno da loja, nas últimas salas do último prédio (risos), estava o atelier do Sebastian Hilsmann, indicação da Tobie Miller. Cheguei lá super desconfiado, porque ele não é muito popular, mas como situações extremas exigem medidas extremas (não sei usar o ditado popular rs), e como aparentemente todos os luthiers de viela do planeta vivem em obscuros locais de difícil acesso, eu fui. E gente, como valeu a pena. Assim que entrei eu já fiquei impressionado com a quantidade de madeiras espalhadas pelos corredores do prédio, vi desde enormes pedaços de troncos até finíssimas tábuas. Havia uma sala de violinos, provavelmente de outro luthier, e só encontrei as salas do Sebastian por causa de uma discreta plaquinha no fundo de um corredor aleatório.


Sebastian foi super atencioso, tratou de fuçar o instrumento todo, e disse que de fato a temperatura fez a madeira ceder. Por outro lado, como eu havia desconfiado, isso só aconteceu porque quem a reparou antes o fez meio que às pressas, aparentemente. Então Sebastian disse que eu precisaria deixa-la lá (EM OUTRO PAÍS) por dois dias, para que ele pudesse consertar de vez o corpo do instrumento, tirando a roda (I know) e utilizando algo que deixasse o corpo dela estável por dentro também. Fui pra casa com o coração na mão, e fiz o favor de pegar um trem errado que começou a me levar para os fucking Alpes por engano - mas isso não vem ao caso.

Passar um dia inteiro longe da viela foi mais fácil do que eu imaginei; provavelmente porque eu sabia que eu precisava disso. Ao mesmo tempo, eu não sabia se xingava muito no twitter por algo tão escroto chato ter rolado, ou se agradecia ao universo por isso ter se passado com a gente num momento em que eu podia ir a um profissional. De qualquer forma, voltei em Freiburg e o resultado, meus amigos, foi mágico. O som ficou muito mais consistente, muito mais encorpado, então fiquei mais do que satisfeito, fiquei feliz e seguro. Lyanna sobreviveu e está muito bem, gordinha e alta para cacete soando melhor que nunca.

Meu aniversário é dia 23 de Setembro. obg
Para coroar esse pequeno susto da porra que levamos, algo muito legal: enquanto esperava o Sebastian, tive a oportunidade de ver um pouco de seu trabalho, que é verdadeiramente apaixonante e minuciosamente bem pensado. Pude tocar no seu modelo Largo - uma viela mais grave, muito linda e irresistível e ver de perto outras dependências de seu atelier. As possibilidades de tons, texturas sonoras e combinações em suas vielas é descomunal. Realmente seguindo a linha dos grandes luthiers contemporâneos, seus instrumentos nos oferecem cavaletes reguláveis, capos,  um sistema de cravelhas super confortável e trompettes para todos os gostos. Fora o sistema de captação, que te abre um UNIVERSO de possibilidades. Quero chorar só ao lembrar.

Também quero chorar porque infelizmente não pude fotografar  muito. Fiquei sem graça (é o ambiente de trabalho dele, algo super pessoal, ainda mais se pensarmos que ele é um construtor de vielas de roda. Em Kirchzarten.), mas garanto que foi fantástico ver vielas e mais vielas em estantes, vielas de cores e tamanhos diferentes (havia uma verde!) e um aprendiz/ajudante que parecia um elfo perdido de algum RPG qualquer. Enfim, os minutos que passei com a viela Largo pareceram dias, fiquei realmente vidrado e por alguns minutos esqueci que eu tinha meu próprio instrumento. Alíás, foi interessante ver que o Sebastian ficou interessadíssimo em minha viela, por ser algo tão diferente para ele, por conta da afinação tipicamente francesa, a altura das notas e seu timbre. Nossa conversa foi extremamente enriquecedora.

Nesse dia voltei para a Basiléia com um sorriso de orelha a orelha, prontinho para ter minha primeira aula e ver se teria coragem de levar Lyanna às ruas suíças para descolar uma graninha, algo que acabei fazendo mais de uma vez e sobre o qual escrevei logo, logo, e bem feliz. Foi como se Londres nunca tivesse existido, e minha viela nunca tivesse precisado de ajuda. 

Sei lá, algumas coisas parecem TER que acontecer para que outras coisas cheguem até nós. E de fato eu sinto isso até agora. Os dias que seguiram foram alguns dos melhores de toda a minha vida musical, e de fato me fizeram ver que todo esforço vale a pena quando fazemos aquilo que amamos.

Para mais informações sobre esse talento secreto do mundo vielístico que atende por Sebastian Hilsmann, vocês podem visistar o site oficial dele aqui.

       

Vielisticamente,

Rique