quinta-feira, 17 de abril de 2014

No Brasil: descoberta chocante

OK, SURTANDO AQUI.

Tá. Quem me conhece sabe que nessas minhas andanças pelo mundo vielístico eu procuro sempre saber quem já passou por aqui girando a manivela. Eu já mencionei alguns dos quais tive conhecimento, com o Pablo Lerner e seu tekerolant pelo nordeste, o Ariel Niñas em Minas e até o Robert Mandel lá pelos anos 80 passou por aqui, tocando no Rio, se não me engano.

O problema com esse tipo de "pesquisa" é que as apresentações que trazem a viela são geralmente obscuras, com pouco alcance. Além disso, temos que definir o tipo de viela ao qual estamos nos referindo. Se tratarmos da sinfonia medieval, fica realmente complicado, já que os grupos de música antiga nas grandes universidades brasileiras já existem há muito tempo... Se nos referirmos à viela "moderna", nos moldes que surgem mais ou menos à partir do século XVIII, conseguimos detecta-las de forma mais fácil. Ainda assim, tirando a apresentação do Arcade Fire e daquele ensemble francês que esteve por aqui ano passado, fica complicado ter acesso ao que passou por aqui, por conta da não existência da internet por aqui num passado não tão distante.

Daí, minha gente, o fato é que ontem, num momento super aleatório em que eu estava de bobeira em casa, fui, como sempre, assistir a uns videos a respeito do instrumento - na verdade para deixar de música de fundo para algumas leituras. Pesquisa um pouco daqui, lê um pouco de lá... Decidi procurar aquele solo épico que o Nigel Eaton tocou numa turnê com o Robert Plant lá pelos anos 90. Achei que seria uma boa trilha sonora para o momento em questão. Daí dei de cara com isso aqui:


                                               Favor colocar no minuto 00:22

Exatamente. Nigel esteve aqui na turnê do Plant lá pelos anos 90, e tocou duas gigs, uma no Rio e outra em São Paulo, tocando aquela viela de roda maravilhosa dele, e eu infelizmente era apenas uma criança que ouvia Estoy Aquí risos não sabia da existência desse instrumento e mal sabia que anos mais tarde esse mesmo homem me inspiraria a pesquisar/catar/comer o pão que o diabo amassou para arrumar uma e, claro, tocar a viela de roda.

Tomado pelo choque de tal revelação chocante, tratei de escrever para o próprio e perguntar mais ou menos COMOFAS como foi que isso rolou, o que ele achou etc; e de acordo com o Nigel ele esteve aqui mais. de. uma. vez.  MAISDEUMAFUCKIN'VEZ, minha gente. E antes mesmo do Robert Plant convida-lo para sua turnê (!), ele já havia passado por aqui em 86 e depois em 89, rodando o Brasil com alguma programação do consulado britânico. 

Daí é isso, galera. O universo já presenteou o Brasil com Nigel Eaton e seu bom e velho gurdy, quem tinha um, quatro ou doze anos de idade na época, perdeu. Quem viu, viu.  Quem não viu, chora. MAS CHORA MESMO. /drama

Se eu procurava a primeira vez em que uma viela foi tocada ao vivo e transmitida para todo mundo (ou quase isso) ver, acho que encontrei. Mas só acho.

No mais, faço minhas as palavras dele:

"I love Brasil and Brasil loves the Hurdy-Gurdy."

Vielistica e, pelo menos agora, amargamente,

Rique


sábado, 12 de abril de 2014

Mais da Suíça: session épica e o Bourrée D'armes


No meu primeiro dia de aula com Tobie Miller, a expectativa era grande. O medo também. Estar de cara com alguém que sabe tanto quanto ela pode ser assustador; e ainda que um professor não vá ser ríspido com um aluno particular, o medinho de parecer muito menor de uma maneira negativa me perseguia.

Claro que tudo correu bem, e eu deixei a aula não só animado com a perspectiva de aprender cada vez mais, mas também com um convite super, super, super, SU-PER chique: participar de uma session que rolava vez ou outra lá em Basel.

Direto de 2011 - Session em Dublin
Antes de mais nada, devo dizer que Tobie é casada com o grande Baptiste Romain, que além de um  talento em instrumentos como o violino (medieval e renascentista), lira de braccio e gaita de fole medieval (acredito que bretã), é também professor de música medieval. Pois bem, Baptiste tem uma aluna de gaita de fole que promove uma session que agora não sei dizer se é mensal ou não, se tem uma regularidade ou não. Fato é que no dia de minha primeira aula, a tal session rolaria e Tobie e Baptiste estariam lá. Óbvio que aceitei o convite; e ainda tive a pachorra de aparecer por lá com minha viela nas costas.

Minhas experiências com sessions sempre foram positivas. Na Irlanda, na França e aqui mesmo no Brasil, sempre conheci músicos muito amáveis, que claramente estavam ali por razões que iam além do que apenas tocar. As sessions tradicionais em que toquei sempre se mostraram encontros estranhamente formais e solenes, um encontro de pessoas que amam demais aquilo que está para ser tocado. Em Basel não foi diferente, mas de fato senti uma atmosfera mais séria.

Irish Session Rio
Cheguei debaixo de uma chuvinha fina, super tímido e meio perdido, já que o estabelecimento, se era ou foi alguma vez um bar, havia sido drasticamente modificado. Digo isso porque me deparei com uma sala completamente vazia, sem nada além de uma grande mesa (com alguns petiscos, algumas velas e algumas garrafas de vinho) e algumas cadeiras para os músicos. Com músicos, óbvio. Que me encararam com um ar que não sei até agora se era de "Wtf?", ""Olha, que legal, mais um!" ou "ah, então este é o brasileiro." Fiquei atônito demais com o gigante contrabaixo acústico preto para me preocupar com isso. Me apresentei, dei um oi a todos e tratei de tirar minha viela do saco, o que gerou uma ondinha de  "ohhh"'.

Eu estava muito tenso, porque de vielistas havia apenas eu e Tobie. Havia três moças no violino, dentre elas uma senhora muito, mas muito fofa. E todas elas tocavam num estilo tradicional que não era irlandês, mas sim bretão. Na conversa do dia seguinte Tobie insistiu no fato de a session não ter sido categoricamente bretã, já que rolou um pouco de tudo: música medieval, danças inglesas, francesas, irlandesas etc. Mas ainda assim, gente. Para quem vem do Rio de Janeiro aquilo foi uma session bretã maravilhosa e eu morri.

Num certo ponto da session, quando eu revezava minha atenção entre (tentar) acompanhar algumas tunes e responder as questões de uma senhora ao meu lado (Rique, o E.T. amigo diretamente do Rio de Janeiro com uma viela, vocês não tem ideia.), a anfitriã da session e aluna do Baptiste jogou na mesa um audível "e você, não vai tocar nada?". Tá ok que em sessions sempre rola um certo climão no ar toda vez que uma tune acaba, né. Há uma expectativa a respeito de quem vai puxar alguma coisa. Bom, nesse momento o climão me pareceu mais forte. Senti um calorzinho e desenterrei um bourrée que aprendi nos primeiros meses de viela de roda, pegando umas tunes num livro de danças tradicionais do Morvan, região montanhosa da França. Mandei essa tune de forma arriscada, não sei mesmo de onde ela saiu. Só sei que Baptiste prontamente me seguiu com sua gaita de fole, e logo depois um dos violinos entrou. Nesse momento achei fofo, esse apoio. Estava morrendo de medo de estar tocando algo claramente descontextualizado, ou sei lá, gente, vai que o raio do Morvan é uma região detestada por todos e eu estivesse causando um certo desconforto. (juro que o overthinking chegou nesses níveis)

Daí que na segunda repetição da tune todos, eu disse TODOS da sala estavam tocando e eu fiquei completamente arrepiado. Minha vontade era de chorar. Na terceira e quarta (!!!) repetições um casal (um senhor do violão e uma das moças do violino) se levantou e simplesmente começou a dançar os passinhos de dança tradicional. Meu sorriso bobo disfarçou bem, porque por dentro eu estava gritando YOU GUYS JUST DON'T UNDERSTAND aos prantos, mas me segurei e me joguei naquele momento. Fiquei tão tocado, mas tão tocado. Lembro de quando aprendi essa bourrée sozinho aqui no meu quarto, sem ter ideia do que eu e minha viela tínhamos pela frente.

Foi realmente uma noite memorável, uma das mais especiais que vivi. Ninguém no mundo vai entender. Nunca. Agora só falta uma session quase puramente vielística aqui no Brasil. E eu quero sentir a mesmíssima coisa novamente. =)


Para ouvir um pouco do Bourrée em questão, clique no link abaixo, que foi o único que encontrei.


Vielisticamente,

Rique

quarta-feira, 9 de abril de 2014

No Brasil: Arcade Fire



Por essa muita gente (5 dos meus 7 leitores risos) não esperava, mas sim: vamos  falar da fantástica Arcade Fire, banda que esteve no Brasil na semana passada para um show no Rio de Janeiro e uma apresentação no Lollapalooza, em São Paulo.

Para quem não sabe, a banda faz um rock  indie, com pegadas da música pop, eletrônica e mil - literalmente mil - outras influências; e uma dezena de instrumentos em suas apresentações, entre os quais, não tão obviamente, está a viela de roda.

Quem comanda a manivela na banda é Règine Chassagne, que além de se aventurar na viela também toca acordeon, bateria, xilofone, teclado e órgão. Além de cantar.

Essa apresentação acaba sendo especial porque me parece que é a primeira vez que uma viela de roda é tocada ao vivo para o Brasil todo ver, em o que, mais ou menos 1.200 anos de instrumento. Isso é bem especial. Uma pena que eu tenha perdido isso por questão de minutos, já que perto do fim do show dos caras eu precisei assistir a estreia da quarta temporada de Game of Thrones por motivos de força maior.

Bom, aqui vai um vídeo de umas das músicas em que a viela de roda aparece no Arcade Fire; e é justamente a canção que eles tocaram no Lollapalooza.

Isso é a viela ganhando mais espaço no mundo.



Vielisticamente,

Rique

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Daí construíram.


Finalmente uma viela (uma sinfonia, na verdade) construída no Brasil. Vejo um futuro promissor para Alexsandro Novaes - famoso Caviúna! Parabéns ao luthier!

Infelizmente não consegui botar o vídeo da forma que queria para vocês, então fiquem à vontade para clicar aqui.

Grande passo para a sociedade vielística brasileira.  ;-)

Vielisticamente,

Rique

Basel's Music Museum


Ano passado eu já havia visto algumas vielas maravilhosas na Cité de la Musique, em Paris. Foi uma grande tarde em que pude curtir até mesm o som de um erhu tocado ao vivo. Esse ano, como vocês sabem, fui atrás de mais vielas, mas lá em Basel; e esses tesouros atrás de mim estão lá, no Music Museum, um espaço modesto e bem simples, mas que guarda tesouros incalculáveis.

A tarde que passei lá foi maravilhosa, e o número de instrumentos que pude ver de perto, inacreditável. As salas eram separadas não só por períodos, mas por grupos de instrumentos. Então existia uma sala para violões, uma para violinos (quase morri), outra para flautas e por aí vai. Surreal. Abaixo, algumas fotos:


Eu sabia o nome disso. Juro.


Tambores tradicionais no caranval de Basel

Mais manivelas...

A parte das vielles era realmente bem limitada, mas não estou reclamando. Construtores como Pajot e Jean Louvet estavam ali diante de mim; e seus instrumentos, ainda irresistíveis. Não preciso dizer que fiquei babando horas por  essas vielas. Eu saía, dava um ~rolezinho~ pelo museu, fingia que estava interessado numa exposição sobre a historia do Rock n' Roll que estava rolando por lá e voltava para babar mais. 

Trombas Marinas
Além das vielas, pude babar um pouco nas trombas marinas (trompette marine). Esse inusitado instrumento que soa como um verdadeiro E.T. aos nosso ouvidos é um priminho distante da viela de roda, no sentido em que seu mecanismo é exatamente o mesmo do trompette da viela: há uma pequena peça de madeira que fica parcialmente solta no tampo do instrumento que, ao entrar em contato com a corda e responder a vibrações, emite um som bem característico. 

Nesse vídeo aqui (em português!) Carlos Ramos fala um pouco do instrumento.

Aparentemente a tromba marina teve seu auge no século XV, mas teria surgido séculos antes, derivando de um objeto de estudo musical para monges estudavam as distâncias e escalas. 

Nos resta saber se o nosso bom e velho trompette da viela recebeu esse nome por conta da semelhança entre os sons ou se isso se trata apenas de uma mera coincidência. De qualquer forma, fica o singelo registro desse dia tão especial para mim. =)

Aqui está o site do museu, para quem se interessar.

Vielisticamente,

Rique

domingo, 30 de março de 2014

A Mão Direita

Imagem tirada do livo La Vielle Et L'univers de l'infinie Archet, do Valentin Clastrier

Se há uma coisa na qual todos os vielistas concordam, esta coisa é a dificuldade da técnica da mão direita. Ela é complicada porque precisamos fazer pequenos movimentos (golpes) com a palma da mão fechada, utilizando tanto a palma da mão em si como o polegar, gerando aquele bzz bzz característico da viela, que leva o som do instrumento a um outro nível, realmente. Eu nunca imaginei a importância que a forma como eu seguro uma maçaneta teria em minha vida, e se você está lendo isso, eu imagino que também seja o seu caso.

Pois bem, esse assunto é complexo, porque  - NEWSFLASH - cada músico, no final das contas, encontra o seu jeito mais confortável de acomodar sua mão na maçaneta, atingindo um melhor controle do instrumento. Bom, isso quer dizer, basicamente, que o seu jeito de executar os coups de poignet (golpes de pulso, na tradução literal) vai depender de: 1) o tamanho de sua mão 2) o tamanho da sua maçaneta (isso soa estranho, sorry) 3) o tamanho da roda do instrumento (já que isso afeta a circunferência onde os [a princípio] quatro pontos da roda se encontram.

Para ser sincero, eu não tenho a menor pretensão de dar uma aula de coup de poignet aqui, porque ainda estou aprendendo e porque a internet nos oferece grandes mestres abordando o assunto de maneira didática através de vídeos informais ou vídeo-aulas como a famosa Zanfona Sen Palabras, do Oscar Fernandez ou as aulas do Alexis Vacher, para os francófonos. Então depois de pensar bastante, achei que o mais válido seria falar da minha experiência pessoal com a Tobie Miller, porque suas aulas foram realmente um divisor de águas nessa minha estrada; e embora eu ainda não esteja da forma ideal, eu já entendi por onde seguir para chegar onde quero.

Bem, antes de mais nada, para aqueles que ainda não estão 100% familiarizados com a relação entre a manivela e o trompette, segue uma foto:

Hurdy-Gurdy Method, da Doreen Muskett
Existem esses quatro pontos principais da roda, pontos que podem ser "acionados" através de leve golpes que damos na maçaneta da manivela para gerar um som extra no instrumento. Esses pontos são fundamentais para colorirmos certas músicas; e cada ritmo musical (bourrée, scottish, valsa, polka etc) vai exigir uma combinação mais ou menos diferente de golpes. Por exemplo, num bourrée, os pontos 1 e 3 seriam seu ponto de partida, já que uma vez que estejamos à vontade tocando a gente pode incrementar esses golpes, e usar e abusar de suas intervenções. É quase como se estivéssemos tocando dois instrumentos ao mesmo tempo. =)

Anotações by Tobie Miller (Y)
Também é bom notar que nós vielistas geralmente usamos uma notação específica para praticar apenas os coups, e essa notação é 90% das vezes baseada apenas em números, principalmente porque muitos vielistas vem do universo folk/trad, e não necessariamente sabem ler/escrever música. Claro que se você sabe ler partitura a coisa fica mais fácil, porque estamos o tempo todo lidando com divisão de tempos e pausas, como vocês podem ver na foto ao lado. De qualquer forma, não sou o maior leitor de música que vocês já viram (eu sou bem emperrado, na verdade), e para quem acha que não tem muito ritmo pegar os golpes de vista/ouvido pode ser um bom exercício, e foi justamente assim que comecei a internaliza-los nesta última viagem que fiz à Basilea.

Tobie me ensinou primeiro o Bourrée de la Plaix, e já nessa música percebi o padrão através do qual eu deveria estudar. É uma espécie de rotina que usamos nas músicas que trabalhamos enquanto estive em Basel, a saber:

1) Antes de mais nada, aprenda a melodia. Seja de ouvido, seja lendo a partitura; aprenda de modo que você consiga tocar sem precisar ler. Sabe quando você toca algo tão naturalmente que consegue falar e tocar ao mesmo tempo? Nem eu, mas é por aí.

2) Uma vez que a melodia esteja bem internalizada, vamos deixar a mão esquerda descansar e focar na mão direta. Apenas na direita, faça o ritmo que a melodia pede. No meu caso a primeira música que trabalhamos era um bourrée, então eu teria que trabalhar com os pontos 1 e 3, basicamente. Algo meio 1,  1-3, 3-1, 1-3  (ummm * um-três  * trêsummmm * um-três), como numa valsa. Depois a coisa ficou um pouco mais complexa, mas não cabe aqui porque isto é um blog. Talvez lá pra frente, num vídeo. 

3) Agora você deve cantarolar a melodia que aprendemos no passo 1, enquanto gira a manivela no ritmo desejado. Faça isso exaustivamente, novamente, de modo que você consiga faze-lo sem pensar muito no fato de estar fazendo duas coisas distintas ao mesmo tempo. Essa é, provavelmente, a parte mais importante desse processo.

4) Finalmente, toque a melodia acompanhada do ritmo. Vale a pena diminuir um pouco a velocidade num primeiro momento, para que tudo se encaixe de forma não muito afoita.

Esses quatro passos foram seguidos a risca por mim, e a Tobie me deixava quanto tempo fosse necessário neles. Me lembro de uma aula em que estávamos trabalhando outra música, no caso um pouco mais complicadinha, e  fiquei tanto tempo nos passos 1, 2 e 3 que tivemos que deixar para terminar no dia seguinte.

Na verdade, essa é a chave do mistério: repetição. Você precisa fazer de novo e de novo e de novo, até atingir aquilo que quer. Tobie me mostrou que é possível fazer isso com calma, porque é uma questão de tempo, mesmo.

Um ponto importante para mim foi como o meu ponto 1 na roda - e provavelmente o de todo mundo - tem que ser muito bem medido, dependendo do ritmo que quero tocar. No bourrée, por exemplo, meu 1 podia ser mais livre, não precisa ser muito controlado. Já numa scottish, ritmo que nos permite usar os quatro pontos da roda, o meu 1 tinha que ser bem curtinho, para que eu tivesse tempo de chegar no ponto 2 com espaço suficiente para faze-lo soar e, consequentemente, chegar no 3 e no 4. Entendem como isso pode ser complicado? Pois é.

Outra coisa fundamental e life chaging foi a noção da roda da viela como uma roda no ar. Tentem imaginar a roda como um círculo girando no ar, diante de você. Você obrigatoriamente tem que passar por todos os pontos dessa circunferência, a cada revolução. Isso exige uma certa memória/noção de espaço, para saber exatamente em que ponto a sua mão está passando em cada nota da música. É essa noção de totalidade que a Tobie me passou e abriu um mundo de possibilidades.

Os coups não são nenhum mistério, os pontos estão todos ali, a gente só precisa achar a nossa própria forma natural de toca-los durante uma música. Eles estão ali para te servir, para embelezar sua música. Seu dever, consequentemente, é poder aciona-los sempre que quiser.  =)


Vielisticamente,

Rique

sexta-feira, 14 de março de 2014

Basilea e Tobie Miller: primeira aula


Esse ano escolhi estudar com a Tobie Miller não apenas por ela ser ~A Tobie Miller~, mas pelo fato de se tratar de uma musicista que chegou na viela de roda através da música antiga - isso quer dizer, de certa forma, que ela é alguém que chegou ao instrumento pela veia mais "erudita" da coisa; e não pelo mundo da música folk/tradicional.

Ano passado, quando estive com o Laurant Bitaud, lembro de ser diariamente liberado do "fardo da tradição" por ele, que cismava que por eu ser brasileiro eu teria a liberdade para fazer o que eu quisesse com o instrumento. Eu até gosto (muito) desse discurso, mas a verdade é que para a gente ir contra uma tradição temos conhece-la a fundo e saber, de fato, a que estamos nos opondo.

A caminho da aula, dragões. #Khaleesi
Fato é que não é esse o meu propósito. Amo a música tradicional e, mal ou bem, meu foco é esse. É pelo menos uma fonte da qual procuro beber constantemente e esse ano, na verdade, isso pouco importou.

Em relação a tradições e à nossa liberdade artística, com a Tobie o buraco é mais embaixo as coisas são um pouco diferentes. Eu já imaginava que alguém do mundo erudito seria mais firme em relação a estudos (não me levem a mal, conheço mil pessoas do mundo trad que são extremamente disciplinadas e não deixariam de estudar por um dia sequer. beijo, Kevin, meu amigo e colega de banda) e no fim das contas, apesar de ter aprendido MUITA coisa com o Laurent, era exatamente disso que eu precisava: alguém que não se importasse com o fato de eu ser ou não parte de uma tradição, alguém que não estava muito ligado no fato de eu ser fluente na linguagem em questão ou não. O foco da Tobie era apenas me fazer tocar e deixar os movimentos da minha mão direita tão naturais quanto os da esquerda. Percebi isso logo no nosso primeiro encontro. Aliás, nessa minha primeira aula eu cheguei super assustado e fingindo que não tinha chegado na vizinhança 30 minutos antes do horário marcado. Se já sou awkward no Brasil, imagina na Suíça. Ainda assim, foi tudo maravilhoso, superando minhas expectativas.

Saber quem alguém é através de vídeos e depois conhecer pessoalmente já é, por si só, uma experiência interessante. Conhecer e admirar alguém de vídeos do youtube por anos e depois ter aulas na casa dessa pessoa, do outro lado do planeta, beira a surrealidade. Tobie foi super solicita e amistosa, literamente uma fofa, com suas pantufas e sua voz baixinha (e sim, ela parece uma pintura barroca que ganhou vida). E nosso primeiro encontro, apesar de suas curiosidades sobre minha viagem e minha história. foi quase todo voltado para o set up do meu instrumento, que tinha acabado de voltar de um reparo.

Magic happens.
There's no reason for you not being able to play a note. Foi o que ouvi quando falei que pensava que não conseguiria nunca executar certas notas mais agudas. A Tobie me dava uns dados assim, com um ar que no fundo, no fundo, parecia dizer oh, you poor summer child... ahaha Mas o que me deixou mais impressionado nela não foi nem a destreza de suas mãos, nem a sua didática maravilhosa, mas sim a atenção dada aos detalhes. A precisão dela em reconhecer e encontrar problemas no meu som era bizarra, sem mais. 

Eu tocava uma nota e ela sabia se o que faltava era algodão, resina, pressão da corda na roda ou - pasmem - a espessura do vão por onde a corda passa. No cavalete. Sério, como assim? Fiquei boquiaberto quando ela simplesmente foi cortando, colando e lixando pontinhas de palitos de dente para deixar o vão do meu cavalete mais estreito para a chanterelle aguda. E foi exatamente o que resolveu alguns, ou melhor, todos os meus grandes problemas.

A viela de roda tem dessas coisas, né. Cada um toca um instrumento feito por uma pessoa, com cordas diferentes, resina diferente, algodão diferente e medidas diferentes. Quantidades, manias, estilos... Tudo influencia o som e não há regras no sentido estrito da coisa. É muito legal ter estado ao lado de alguém tão lúcido e sagaz no que diz respeito à manutenção de uma viela. E a dica fica para vocês: nem sempre dobrar papelzinho embaixo da corda dá jeito. A técnica do palitinho foi um achado, porque tentei de tudo nessa vida: papel, cartolina, plástico... E nada funcionava. Além disso, é praticamente um fato que depois que a coisa é feita você nunca mais vai precisar passar por isso novamente. 

Outro ponto interessante foi ver que a resina que ela usa no algodão das cordas dela é em pó (da pirastro, podem porcurar). Confesso que eu ia morrer sem saber que isso existia, e é muito útil porque desta forma a resina é seca sem ser em pedra (não danifica a roda); e utiliza-la não é tão perigoso para a madeira como a resina líquida. (falando em resina, a Tobie fabrica sua própria resina líquida, triturando a resina em pedra e misturando ao álcool. Ok que não é uma necessidade porque podemos comprar, mas ainda assim! I mean. Badass.)

No fim das contas, nosso primeiro encontro se resumiu a deixar o som da minha viela mais apresentável (o que de fato ocorreu) e a começar o ritmo de bourrée na mão direita.  E falamos sobre o equilibrio entre presão, resina e algodão. Foi bem, bem, BEM esclarecedor.

S2
Resumindo: Tentem a resina em pó, por favor! E prestem atenção na forma pela qual as cordas estão atravessando o cavalete. Vez ou outra, não conseguimos o som que queremos das cordas cantoras por causa de algodão e resina, mas no meu caso, minha cantora aguda não estava soando tão bem porque estava muito solta no cavalete. Vale realmente a pena dar uma olhada em sua viela e ver como é a pressão da corda na roda. Me parece que para as cordas agudas, menos pressão (na medida certa, é claro) facilita muito a vida, já que o som não fica arranhado e tudo parece mais leve - o som, principalmente.

Vou dedicar meu próximo post somente ao que eu e Tobie falamos e fizemos sobre a mão direita, utilizando a boa e velha "notação numérica" (1, 2, 3 e 4) para se referir aos pontos da roda.

Até logo, então. ;-)

Vielisticamente,

Rique