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quarta-feira, 11 de novembro de 2015
terça-feira, 27 de outubro de 2015
Enfrentando medos: tangentes.
Já se foram quase quatro anos desde que eu pude tocar numa viela de roda pela primeira vez. Estando no Brasil, absolutamente exilados do "universo" que rodeia o instrumento na Europa e até mesmo na América do Norte, nós acabamos nos tornando luthiers também, de certa forma - ou deveríamos, em teoria.
Eu achei que já havia recebido minha parcela de perrengues de liuteria quando, há algum tempo, precisei não só retirar algumas teclas da viela antiga, mas também lixa-las na medida certa e coloca-las de volta sem problema algum. A humidade havia chegado de vez nela e algumas teclas haviam literalmente inchado. Filho da %$#@, pensei. Bem que o luthier avisou. A mesma coisa rolou recentemente quando meu dó grave quebrou. Eu havia sido avisado, fiquei possesso, mas tudo correu bem. O primeiro perrengue, contudo, foi muito tenso. Retirar teclas... Olhando o teclado de uma boa e velha viela de roda, a tarefa não pareceria tão assustadora, não fosse por um pequeno detalhe: as tangentes. (BOOM!)
Essas pecinhas fofas e delicadas que se encontram presas nas teclas são nada mais nada menos que a (s) alma(s) da viela de roda. São elas que encostam nas cordas, encurtando-as e produzindo as notas. Um poder que pode tanto simplificar quanto complicar a vida, daí o medo absurdo de brincar com elas.
Uma coisa que aprendi é que quando falamos da afinação de uma viela de roda não precisamos necessariamente mexer nas tangentes. Aliás, na maioria das vezes esse não será o caso. Quando tocamos viela de roda, temos de lidar com milhares de possibilidades que podem influenciar o instrumento, a saber:
1) A quantidade de algodão nas cordas - Muito algodão deixa o som abafado e com interrupções - as notas precisam ser continuas, de forma natural. Pouco algodão, por outro lado, pode deixar o som meio arranhado e nada agradável.
2) A quantidade de resina na roda - Novamente, muita resina na roda vai resultar num som também arranhado, você não vai conseguir produzir uma nota que preste; enquanto pouca resina na roda vai deixar o som baixinho e distante. Algumas notas mal soariam.
3) A pressão das cordas na roda - Isso é regulado nas vielas mais tradicionais com pequenos pedaços de papel ou plástico colocados por baixo das cordas ali no cavalete, de modo que a corda não fique tão pressionada contra a roda, algo que também gera o som arranhado e uma série de barulhos nada bem-vindos.
Certa vez, depois de passar dias tentando consertar a forma como um dó sustenido soava, um luthier teve a cara de pau de me dizer "ah, tudo bem. Você não vai usar muito essa nota, mesmo". Bom, eu tendo a concordar mais com uma professora minha que disse que pagamos caro por um instrumento e que todas as notas devem soar dignamente. Não existe uma tecla não funcionar, uma nota não existir. Devemos fazer tudo para que todas estejam em ordem. A questão aqui é que se nos certificarmos de que tudo que mencionei ali em cima está ok e ainda assim tivermos algumas notinhas soando fora, sejam elas mais agudas ou graves (geralmente as problemáticas são as mais agudas) teremos que mexer nas tangentes. .(NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOO!) - Sim. E acreditem, não é esse bicho de sete cabeças. Se eu tivesse tomado coragem de fazer isso há mais tempo, eu teria aproveitado muito mais minha antiga viela de roda. Mas enfim, vamos lá.
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| Exemplo tirado do site richard-york.co.uk |
As vielas mais tradicionais possuem tangentes de madeira, como as da imagem ao lado. Para mexermos nelas, precisamos apenas de uma chave de fenda básica e um lápis. As tangentes estão presas em diferentes direções que não são nada aleatórias. Elas estão do jeito que estão por uma razão: a afinação. Para alterarmos suas alturas, precisamos apenas afrouxar um pouco os parafuzinhos que as seguram e girarmos elas levemente para um lado ou para o outro. Eu sei que isso soa extremamente simples, mas é necessário muito cuidado para não perdermos de vista a posição em que ela se encontra inicialmente. Um afinador eletrônico vai te ajudar muito, mas ainda assim, né. Ficar atento não custa nada. E POR FAVOR CERTIFIQUEM-SE DE AFINAR A CORDA SOLTA antes de qualquer coisa. Mesmo.
Além disso, existem dois aspectos fundamentais que precisamos ter em mente ao mexermos nas tangentes:
1) A direção para qual a tangente apontava originalmente. Antes de move-la, marque um pontinho com de lápis bem em frente à sua ponta, desta forma, se a afinação for de vez pro espaço você saberá para onde apontar a sua tangente novamente e recomeçar.
2) Certifique-se de que ambas as tangentes (de ambas as cordas cantoras) encostem nas cordas ao mesmo tempo, para ter certeza disso é necessário que ambas as cordas estejam acionadas, isto é, fora do suporte que suspendem elas. Uma tangente encostar antes da outra nas cordas pode gerar problemas sonoros indesejáveis.
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| Exemplo tirado do drehleierworstatt.com - tangentes de metal |
As minhas tangentes são de metal, um tipo mais moderno, como as da foto acima - de um instrumento também construído pelo Sebastian Hislmann. Estas tangentes são reguláveis tanto da esquerda para a direita como de baixo para cima, me permitindo assim ver pela marca do próprio parafuso a altura correta para que ambas tamgentes tocassem as cordas ao mesmo tempo. Já em relação à direção, não foi preciso utilizar o lápis para marcar a posição original. O truqe aqui é afrouxar o parafuso na medida certa para que a tangente não fique tão solta, de modo que possamos move-la muito sutilmente até atingirmos a finação desejada. O resultado foi magnífico e o som ficou perfeito. Foi libertador, fazer isso. Praticamente um rito de iniciação.
O importante é manter a calma e tentar, sempre. Apenas assim veremos que somos capazes de mexer nesse instrumento tão complicado. Nós ouvimos o tempo todo o quão cuidadosos devemos ser com a viela, como é um instrumento delicado, que requer cuidados etc. Acho que isso nos inibe muito na hora de tomarmos atitudes em relação à manutenção. Vamos lembrar que esse instrumento está aí há pouco mais de que, dez séculos? São instrumentos que levam tempo para serem feitos, então não vão ser pequenas manutenções que vão quebra-los para sempre. Lembrem-se que afinação é fundamental para qualquer músico, em qualquer instrumento. E que nossa viela já foi muito rotulada como algo que soa dolorosamente ruim durante séculos. Tá na hora de darmos um desconto a ela. =)
Mãos à obra!
quinta-feira, 22 de outubro de 2015
Viela de Roda no Jornal - Rioshow
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| Fotinho pelo Davi Paladini |
E dia desses (semana passada) saiu um matéria no Rioshow sobre instrumentos incomuns; fui convidado pela jornalista Paula Lacerda a conversar com pouco sobre a viela de roda, minha banda e minha história com o instrumento. Foi uma experiência bem bacana e os frutos apareceram domingo, na nossa session mensal em Botafogo. Muitas carinhas novas, animadas e encantadas não só pela viela mas por tudo que rola em nossa session. =)
Confira a matéria clincando aqui.
Vielisticamente,
(Logo logo retomo com novidades vielisticas sobre meu amado Rio de Janeiro)
segunda-feira, 17 de agosto de 2015
Busk in Rio ;-)
Sábado, 19:30 PM. Ipanema. Uma senhora sisuda e austera passa por nós de cara amarrada. Mais uns passos à frente para, olha pra trás e retorna. Gelei. Essa daí não gostou, não, penso.
- Que engraçado. Que instrumento é esse?
- É uma viela de roda.
- Nossa... Que inusitado. Parabéns, vocês são inusitados. Essa foi a coisa mais inusitada que vi hoje.
- Obrigado! =)
Ela se retira - dessa vez com um sorriso no rosto - para ceder ao impulso por uma segunda vez e voltar pro nosso cantinho.
- Olha, toma: não é dinheiro, não. Mas é inusitado também.
Assim eu e Pedro concluímos mais um dia de busking nas ruas do Rio. Ele com sua flauta doce, eu com minha viela de roda. Terminar o dia recebendo arte em troca de arte foi um momento extremamente especial, e agora dividimos a custódia da inusitada tela que abre este post.
| Feirinha do Lavradio |
Busking. Taí uma coisa que nunca havia pensado que ia amar fazer na vida. Ultimamente eu tenho refletido muito sobre a música que toco e o que quero, e tocar nas ruas é um ótimo lugar para fazer música de forma leve e descompromissada. Me ajuda a pensar. Além de ser também uma ótima forma de estudar sem se sentir muito observado - meus vizinhos obviamente sabem muito bem quando estou ensaiando, ao passo que na rua o meu público muda a cada alguns minutos.
A ideia é aparecermos aos fins de semanas em alguns pontos bem característicos, como a feirinha da rua do Lavradio, na Lapa; a rua Voluntários da Pátria, em Botafogo ou a praça General Osório, em Ipanema.
Essa experiência tem sido cada vez mais enriquecedora. Pessoas de todos os tipos param e ficam encantados pelo som da flauta com a viela, principalmente as crianças. O mais interessante é ver como algumas reações são previsíveis: durante algum tempo a sensação é de ser invisível. Ninguém dá a mínima... Até uma pessoa interromper seu trajeto e parar. Basta UMA alma fazer isso para que outras tomem coragem e parem, sorriam e te abordem. =)
Sei que pode parecer besteira, mas fica meu registro. E meu agradecimento às pessoas que chegaram aqui após pararem e terem tido a curiosidade de me perguntar sobre esse instrumento fascinante. Com o tempo vou postando uma pequena agenda dos locais e horários em que estaremos nas ruas com nosso pequeno projeto itinerante.
Vielisticamente,
;-)
sexta-feira, 10 de julho de 2015
Berimbau + Viela de Roda
Eu não consegui encontrar absolutamente nada sobre este projeto na internet - e não sei nada de alemão, mas uma brasileira com um berimbau e uma alemã (eu acho) na viela de roda deve ser no mínimo interessante. A ideia de unir uma viela a um instrumento tão diferente dela (e provavelmente mais antigo) me fascina. O berimbau pode ser - e é na maioria das vezes - tão intrigante quanto a viela para a maioria das pessoas lá fora. Achei a ideia simplesmente genial.
Ficarei ligado para trazer mais informações. =)
Vielisticamente,
quarta-feira, 8 de julho de 2015
As Rosas Não Falam
As voltas que o mundo dá.
Passei a vida ouvindo falar sobre esta música. A ouvi uma vez ou outra. mas a descobri realmente no show de uma talentosíssima cantora... Irlandesa. E foi essa mesma canção que escolhi para esse vídeo gravado há algumas semanas pelo meu amado amigo Pedro Costa, companheiro de drinks, chás, tarots e Irish sessions.
Além de uma belíssima canção, As Rosas Não Falam foi também uma belíssima desculpa para eu brincar na minha corda dó, grave e poderoso atributo do instrumento feito pelo sagaz Sebastian Hilsmann.
Espero que vocês gostem.
Vielisticamente,
quarta-feira, 20 de maio de 2015
Lyanna's Farewell
A sensação que estou vivendo no momento é das mais estranhas que já senti. É dessas que a gente acha que nunca vai vivenciar...
É que as coisas vem e vão, né. Tudo em sua hora. E o tempo passa, e a gente nunca vê e nunca se dá conta até aquele momento de olhar pra trás e ficar embasbacado. Bom, falando em tempo e em hora, é chegado o momento de você, meu xodó - e companheira da maior aventura que já vivi - finalmente seguir em frente. Isso mesmo, com outra pessoa. Nunca pensei. Você mais uma vez me surpreendeu e se mostrou com vida própria. E as pessoas acham que você tem um rosto humano esculpido por nenhuma razão aparente...
Escrever isso aqui ainda é inacreditável, parece que vou acordar a qualquer momento de um sonho estranho. E eu digo isso por tudo aquilo que só a gente sabe. Você me acompanhou em coisas inconcebíveis. São muitas memórias. Uma vida inteira vivida em três anos e meio. Diversos vôos e trens, diferentes países e cidades. Caminhadas, histórias... Da Lapa carioca aos muros medievais de Carcassonne, passando pela floresta negra, na Alemanha, e Galway e Gales, com seus dragões e aviões de papelão... São memórias eternas, desde a primeira semana, quando você dormia na mesma cama que eu, lá na Irlanda... Passando pela primeira vez num palco com ao seu lado, caindo de amores pelo encanto nos olhos das pessoas nos vendo pela primeira vez aqui no Brasil, depois de dois anos de trabalho e perrengue para te trazer aqui. Incontáveis estratégias para escaparmos das tripulações aéreas. Muita tensão, mas uma tensão recheada de uma ansiedade gostosa. Fazer música com você para mim é sinônimo de viajar. Com você ganhei meu primeiro dinheirinho tocando na rua. Com você me descobri.
Escrever isso aqui ainda é inacreditável, parece que vou acordar a qualquer momento de um sonho estranho. E eu digo isso por tudo aquilo que só a gente sabe. Você me acompanhou em coisas inconcebíveis. São muitas memórias. Uma vida inteira vivida em três anos e meio. Diversos vôos e trens, diferentes países e cidades. Caminhadas, histórias... Da Lapa carioca aos muros medievais de Carcassonne, passando pela floresta negra, na Alemanha, e Galway e Gales, com seus dragões e aviões de papelão... São memórias eternas, desde a primeira semana, quando você dormia na mesma cama que eu, lá na Irlanda... Passando pela primeira vez num palco com ao seu lado, caindo de amores pelo encanto nos olhos das pessoas nos vendo pela primeira vez aqui no Brasil, depois de dois anos de trabalho e perrengue para te trazer aqui. Incontáveis estratégias para escaparmos das tripulações aéreas. Muita tensão, mas uma tensão recheada de uma ansiedade gostosa. Fazer música com você para mim é sinônimo de viajar. Com você ganhei meu primeiro dinheirinho tocando na rua. Com você me descobri.
Escrever isso aqui é me despedir de uma irmã e uma melhor amiga. Mas eu prefiro pensar que estaria levando você a um altar, dando o adeus simbólico de um momento que a gente sempre sabe que vai chegar mas se faz de desentendido. A gente faz o que deve - eu tento - e eu acho que isso é o que eu devo fazer agora, por uma série de razões.
Eu só sei que no fim do dia seria injusto - um verdadeiro sacrilégio - manter você aqui quando há tanta gente querendo trilhar esse caminho também.Você merece isso, merece ser tocada constantemente, mantendo sua tradição viva por mais centenas de anos, levando suas cordas a estilos cada vez mais inesperados, e fazendo bonito.
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| Primeira gig. |
Foi desabafando com alguém que respeito e admiro muito que seu destino ficou claro. Era tão óbvio, né. Parece que eu fui o último a saber. E por isso tudo hoje foi difícil te deixar lá, viu. Mas é isso aí. Vida nova pra gente. Nem você sabe o que te espera à frente, mas sabemos que vai ser mágico.
Eu te busquei em Gales em 2011, pessoalmente; extasiado com a beleza de um instrumento de que já possuía tanta história para contar. Entre esse ano e o ano de 2014, seu reparo nunca havia me impedido de absolutamente nada. Ano passado você chegou a fazer birra por conta da temperatura, e ao reagir à mudança entre o Brasil e a Europa, sua rachadura cedeu. Foi assim que você me levou lá no Sebastian Hilsmann em Kirchzarten. O resultado foi maravilhoso, e o reparo foi permanente. Nossa separação foi decidida ali, também, quando pude encomendar uma nova viela. Hoje o ciclo se completa. Parabéns a nós dois.
Por você passaram Chris Allen e Sebastian Hilsmann. Juntos também contamos com a ajuda de Laurent Bitaud, em Bourges, na França, e da fera Tobie Miller, na Suíça. Todos eles nos ajudaram e por conta deles hoje a sua história é também uma pequena parte dessas pessoas muito especiais. E mais importante ainda, parte fundamental da minha história.
É uma honra vê-la seguir esse caminho. E apesar do aperto no coração, a felicidade e a certeza de que o certo foi feito prevalecem.
Obrigado pelas viagens.
Obrigado pelas lições inesquecíveis.
Obrigado pela música.
E obrigado pela jornada que apenas começou.
Foi uma honra.
É uma honra vê-la seguir esse caminho. E apesar do aperto no coração, a felicidade e a certeza de que o certo foi feito prevalecem.
Obrigado pelas viagens.
Obrigado pelas lições inesquecíveis.
Obrigado pela música.
E obrigado pela jornada que apenas começou.
Foi uma honra.
Vielisticamente,
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