segunda-feira, 16 de março de 2015

2015 e suas novidades

E é com muito prazer que depois de um longo e merecido descanso, eu volto ao blog para dar início a este que já é um ano memorável.

Nosso pequeno mundo à manivela abre 2015 com alguns lançamentos muito importantes para a cena brasileira, começando com minha querida amiga e artista de quem sou fã, Raine Holtz.



Raine Holtz está lançando seu novo álbum, Confluence: The rivers of Sorrow, que vem atingindo metas (e o sonho!) de ser financiado através do site kickante, possibilitando um lançamento físico para este projeto tão lindo e tão rico, cheio de viela de roda e outros instrumentos apaixonantes. Este álbum representa tanto, em tantos aspectos... É, antes de mais nada, o sucesso e a visibilidade de uma mulher trans, algo raro de se ver dentro e fora de nosso país. É a música independente mostrando seu poder. E é o passeio pelo mundo fantástico que a Raine cria em seus sons, e a viela de roda florescendo através de uma artista brasileira. Orgulho.

Sobre seu novo trabalho, o primeiro lançado enquanto uma mulher que sabe e ama quem é, Raine nos diz:

“Confluence: The Rivers of Sorrow” é, sob este contexto, meu primeiro álbum, e eu ouso dizer que é a melhor coisa que eu já fiz. Ele ultrapassa “Schadenfreude” em beleza e refinamento; “Santuário” em sabedoria e clareza; “Deconstruct the Debris” em força e propósito, e “Sail, Schooner” em estória e significado. É o epítome da minha auto-descoberta, minha honestidade e coragem; e ainda sim é tão delicado e confortante quanto os últimos momentos de pura lucidez antes da morte. É a jornada de um espírito desde suas origens até sua vinda à carne, e subsequente partida. É a primeira coisa que faz sentido para mim."

Raine tem tocado também por Curitiba, e eu deixo aqui um vídeo de sua última apresentação, dia 13 de março.

Mais informações:

http://www.throughwaves.com
http://www.kickante.com.br/confluence


Vielisticamente,

;-)

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

2014 - Um gatilho musical


2014 foi um ano que começou seriamente épico, tirando o me fôlego; mas terminou tranquilo como uma brisa. Isso é lindo.

Das ruelas da Basilea em meio as aulas com Tobie Miller às ruas da Lapa, passando pela serra de Petrópolis, pelo terreirão do samba - até por Curitiba, no maravilhoso encontro nacional de vielas de roda - e terminando em Niterói, no último show do Café Irlanda para 2014, eu e Lyanna tivemos um ano cheio. Não necessariamente cheio de desafios, mas de crescimento e difusão de nosso trabalho. Esse post é uma pequena retrospectiva dos momentos que marcaram meu ano ~vielístico~. E deixo aqui um forte abraço a cada um que fez parte dele.


Comecei 2014 como o aluno que sempre vou ser, amando descobrir tudo que posso sobre a viela de roda, tentando no meu próprio tempo avançar nesse instrumento tão instigante e intrigante. Essa paixão que só aumenta só foi mais alimentada pela Tobie e suas aulas sensacionais, pelos museus com aqueles tesouros. E pela visita inesperada ao fantástico atelier do Sebastian Hilsmann, em Kirchzarten, na Alemanha. Não me parecia que 2014 fosse reservar muito mais que isso para minha alma vieleira, mas... Ledo engano.

Os shows para o Café Irlanda foram vários. Casamentos, pubs, festas... Sempre com a viela perto de mim, sempre aprendendo a afinar cada vez mais rápido antes de uma música. Eu diria que esse foi o ano de aprender a lidar com afinação ao vivo, um verdadeiro desafio para alguém que tem um instrumento tão tradicional feito o meu. Aprendi a me portar melhor num palco com minha viela; e o melhor: aprendi a cantar. Poder tocar viela e cantar é uma das coisas mais lindas que pude fazer, é um sonho distante que chegou. Saber me portar num palco nessas condições é o tipo de coisa que a gente aprende uma vez só na vida, por isso sou grato.

Bom, mais alguns meses à frente e a bomba cai: Matthias Loibner passaria por Brasília e Curitiba esbanjando simpatia e musicalidade com sua viela de roda. Preso pelo trabalho no Rio, só pude curtir e ficar feliz pelos meus companheiros de roda e seus dias inesquecíveis ao lado desse verdadeiro mestre.

Tamanho foi o gás que essa visita inesperada deu em nossa inspiração que pouquíssimo tempo depois nosso filho brasileiro nasceu: o I Encontro Nacional de Vielas de Roda rolou em Curitiba e a maior parte de nós compareceu e fez aquele fim de semana de novembro entrar para a história. Conheci pessoas maravilhosas que acabaram de realizar o sonho de ter uma viela, de tocar com outras pessoas. Pessoas que acabaram de começar novos projetos, e pessoas que apenas queriam ver os instrumentos de perto. Esse foi provavelmente o highlight do nosso ano; e eu não preciso entrar em detalhes a respeito do que sinto em relação àquele fim de semana.

Rabequeiros de Roda

Mondial de la Bière - Terreirão do Samba - RJ
Tudo passou muito rápido, na verdade. Por isso essa semana que passou soou como outra qualquer - não parece o final do ano. E fazer esse último show com a minha banda no novo Bar do Turco, em Itaipu, foi engraçado. Digo isso porque foi um show totalmente diferente do que estamos acostumados. Um público um pouco mais velho, sentadinho, todos compenetrados, como se estivessem num concerto. Geralmente não gosto disso, mas tivemos uma atenção diferente; e a viela, como sempre, 100% de atenção, a ponto de eu ficar tão nervoso quanto a primeira vez em que a toquei ao vivo. Shows com a viela são geralmente complicados; basta eu segura-la para que um certo silêncio corra pela sala e todos me ouçam com curiosidade. Eu fico TENSO. Fora que leva-la comigo é sempre um perrengue, ainda mais nessa época do ano. Como o instrumento é uma grande caixa abaulada de madeira e cordas, a influência da temperatura pode ser devastadora e me deixar com a cara no chão na hora começar a tocar, perdendo alguns minutos afinando. No fim, os sorrisos. E todas as perguntas que eu já sei responder até em libras... E tudo vale a pena. =)

Meu primeiro aluno.
Após tanta emoção, termino esse ano tendo uma vivência muito importante para minha trajetória e meus planos: seguindo a ideia da querida amiga Raine Holtz, estou contemplando a ideia de começar a dar aulas de viela de roda em 2015. Nada muito elaborado, apenas o básico, com o intuito de difundir o interesse pelo instrumento e claro, traçar uma carreira mais concreta com o mesmo. Tirar a viela de roda dessa névoa de mistério, tira-la um pouco desse pedestal inalcançável. Já tive minhas primeiras experiências agora pelo fim do ano, e confesso que gostei muito. Até porque ensinando a gente aprende; e aprendendo a gente ensina melhor.

A galera se divertindo,
O último fim de semana do ano, que chegou de mansinho, me levou a um delicioso pique-nique tolkiano no aterro do Flamengo, onde eu e Lyanna pudemos entreter um pouco os meus amigos leitores elfos e hobbits. A viela foi um sucesso, do jeito que merece ser; e meu ano, por sua vez, se fecha com chave de ouro e a promessa de muitas revoluções em 2015. Que girem as rodas e venham os novos vielistas, que a semente do nosso instrumento finalmente floresça nesse canto do mundo, sempre tão fértil musicalmente.

Obrigado a todos que fizeram parte do meu 2014. Vamos quebrar tudo em 2015, que essa roda é infinita. ;-)


Vielisticamente,

Primeiro material em português totalmente
voltado para viela de roda. Saiu na semana do nosso encontro.


quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Game of Thrones na Viela de Roda



Mateus e Francisco Sokolowski e sua versão de Game of Thrones postada essa semana no Facebook.
Já é o segundo cover vielístico dessa música aqui em nossas terras, então estamos bem! =D Para quem não lembra, minha banda também toca esse cover, sempre uma sensação em shows.




Parabéns aos rapazes pelo arranjo, tão bonito.





Vielisticamente,





sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Doreen Muskett


E essa semana faleceu uma das pessoas que mais contribuíram para a existência e popularidade da viela de roda na atualidade.

Impulsionada pela falta de um método mais atual para a viela de roda, Doreen Muskett dedicou sua parte de sua vida à criação do Hurdy-Gurdy Method, livro que teve sua primeira edição em 1979 - a primeira de quatro edições até o presente momento.

Esse livro foi a primeira indicação literária que me foi dada a respeito da viela; e até hoje eu o utilizo, aqui no Brasil. 

Foto postada por Sheila Sheppard, filha de Doreen

Doreen, que lutou contra o mal de Parkinson por 44 anos, foi uma figura de extrema importância para basicamente toda a nova geração de vielistas; e até o virtuoso Nigel Eaton comentou que ela foi a primeira pessoa a colocar uma viela em suas mãos.

Seu marido, Michael Muskett, nos comunicou sobre sua morte nesta terça-feira, dia 16 de dezembro, muito emocionado; nos dizendo que Doreen partiu pouco depois de ele ter tocado uma dança francesa em sua viela, ao seu lado.





Que a obra dessa mulher fantástica seja eterna; e que muitos vielistas ainda possam brotar das páginas de seu livro.


Vielisticamente,


segunda-feira, 24 de novembro de 2014

I Encontro Nacional de Vielas de Roda


Estávamos eu e Raine na grama, falando besteiras e rindo da vida, quando vimos um pontinho laranja vindo lá longe, do outro lado do parque. Eram Nayane e Adriano, finalmente. O frio na barriga voltou com o pé na porta e eu sabia que ali sim, oficialmente, começava o dia que coroaria um dos fins de semanas mais épicos do ano. Um dia que há alguns anos eu não pensava que viveria para ver. Éramos apenas três pessoas ali, mas estávamos compartilhando pela primeira vez o peso de uma tradição antiga e fascinante que não nunca foi parte de nosso país, tradição esta que estamos trazendo aos poucos, divulgando um instrumento que nos sequestra de forma deliciosamente violenta.

Dia desses, após um show do Café Irlanda, eu conversava com um rapaz sobre a viela de roda, respondendo as perguntas básicas de sempre (como, quando, onde etc) quando fui pego de surpresa por seu ar decepcionado, afirmando que aqui no Brasil não seria possível ter sucesso com esse instrumento porque não temos cultura pra isso, não. Antes de ele terminar sua frase eu já sabia que eu não poderia discordar mais dele. Ora, a viela encontra terreno fértil no Brasil, sim. Está crescendo aqui de forma assustadoramente rápida, sim. E eu presenciei parte dessa história na semana passada, num evento que vai deixar saudades para sempre.

O primeiro encontro nacional de vielas de roda ocorreu dia 15 de Novembro em Curitiba, carinhosamente apelidada por nós como a capital da viela de roda no Brasil, já que a cidade possui quatro dos vielistas brasileiros. Foi um dia histórico e muito, mas muito importante não só para mim, mas para todos que lá estavam. Aliás, foi um fim de semana realmente épico; desses para os quais a viela sempre me arrasta. Eu adorei conhecer um pouco de Curitiba e conhecer meus amigos vielistas, com quem tanto falei apenas virtualmente. Participaram do encontro: Nayane Texeira, Mateus Solowski, Luis Fitzpatrick, Fernando Kinach, Raine Holtz e eu. Também contamos com Carlos Simas e sua nyckelharpa, que foi uma grande sensação no evento. Que instrumento lindo!


Temos muito em comum, apesar das diferentes histórias e trajetos. E apesar de sermos todos vielistas, temos vielas completamente diferentes umas das outras, o que só reforçou a ideia de um instrumento estranho aos olhos de todo mundo que nos vê tocar. Aliás, por tocarmos tal instrumento, acabamos pegando um pouco de sua aura peculiar, e as pessoas acabam nos olhando da mesma forma curiosa, se perguntando como chegamos ali. Em alguns momentos esse encontro parecia uma reunião de feiticeiros, e as pessoas ao redor apenas olhavam hipnotizadas. Parte dessa curiosidade provavelmente vem dessa diversidade existente entre apenas seis vielas. Cada uma em um formato e configuração diferente, construídas por diferentes luthiers de diferentes países, refletindo a estranha e fascinante trajetória desse instrumento que beirou a extinção diversas vezes e sempre deu um jeito de sobreviver, mesmo sendo diminuído e rejeitado em vários níveis. É impressionante ver que a viela parece sempre oscilar entre algo pobre e tronxo e algo raro, caro e nobre, sua situação hoje no mundo inteiro.

O fim de semana já havia começado de forma muito especial, comigo sendo recebido pela Raine, com quem já havia trocado inúmeras mensagens. Conversamos horrores, trocamos figurinhas, rimos e claro, tiramos fotos. Pude ver de perto parte do universo imenso do Through Waves, e foi como conhecer uma grande artista que admiramos há muito tempo - só que com direito a busking na manhã seguinte com ela, arrecadando R$10,00 em uma feira. Fiquei impressionado com a técnica da Raine, que está se tornando expert em improvisos - com direito ao uso do trompette. Que experiência gostosa. Inesquecível. E o Bourrée à Aurore Sand ganhou um novo significado. 

Enfim, como eu dizia: o fim de semana já havia começado maravilhosamente bem, mas terminou superando minhas expectativas. Eu ainda não sei se amo ou odeio esse gostinho agridoce que fica quando algo termina porque é preciso, mas deixa uma saudadezinha forte. O que me anima é pensar que ano que vem esse evento vai ser maior ainda; e contaremos com mais colegas vielistas e um público ainda maior. Esse foi um fim de semana que me marcou para sempre; e eu espero que ano que vem todos possam comparecer e compartilhar com a gente suas histórias, questões e claro, suas músicas. 

Obrigado a todos que foram ao encontro, obrigado também a quem não foi mas divulgou o evento, chamou pessoas e nos apoiou de alguma forma. Obrigado aos grandes nomes lá de fora que nos apoiaram dando going no evento ou mandando lembranças: Germán Díaz, Ariel Niñas, Nigel Eaton, Oscar Fernandez. À Raine, à Nay, à Letícia e aos meninos Mateus, Fernando e Luís: um abraço apertado e meu desejo de revê-los em breve, com mais música e mais vielas por perto. Amei tocar com vocês! Meus parabéns a cada um de vocês, todos estão tocando muito bem, fazendo a variedade de estilos e propostas corresponder às diferentes cores e formas de nossos instrumentos. Fiquei verdadeiramente maravilhado. Obrigado por realizarem esse sonho.

Agora ninguém mais nos segura.  ;-)

Vielisticamente, 

PS.: Para assistirem o vídeo gentilmente editado pela Raine, basta clicar aqui.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Do Brasil... Em Gales.


Bem-vindo, Gabriel Inague!

Mais um para o time, galera. E mais uma vez com uma viela prima da minha, também construída por Neil Brook.

Gabriel se encontra em Gales cursando parte de sua graduação; e apaixonado por música, foi sugado para nosso pequeno universo.

Sua viela é literalmente peculiar (como se só o fato de ser uma viela não bastasse, ainda mais com esse desenho lindo), por ter seu corpo feito de cabaça africana, o que enriquece o som do instrumento de forma incrível, principalmente nos graves. O modelo foi inventado pelo Neil, e você pode conferir seu som aqui. O nome "hurdy-gourdy" é uma piada com o termo inglês para a cabaça. =)

Parabéns ao novo vielista brasileiro; e vamos seguindo.
Semana que vem promete, hein. Aguardem.

Vielisticamente,


quarta-feira, 5 de novembro de 2014

No Brasil: Raine Holtz, a primeira professora de viela do país



É realmente impressionante a velocidade com a qual as coisas tem se desenrolado para nós, vielistas, aqui no Brasil. Além da visita de pessoas ilustres como Matthias Loibner, e do crescente número de novos vielistas, o Brasil conta agora com sua primeira - eu disse PRIMEIRA - professora de viela de roda. Foi dado mais um passo importantíssimo na cena "vielística" brasileira.

Não bastasse ser uma das poucas pessoas a se aventurarem no instrumento - com o bônus de utiliza-lo muito sabiamente em seu projeto, o Through Waves -, Raine agora se lança como professora do nosso maravilhoso instrumento.

Essa preciosidade se encontra, obviamente, em Curitiba, aparentemente a capital da viela de roda no Brasil. Portanto, minha dica é: se você mora em Curitiba ou redondezas, AGARRE essa oportunidade. Se você não mora em Curitiba, vale a pena se organizar para passar por lá uma vez por mês e fazer uma aula?

A ideia é genial porque, não tendo um instrumento, o aluno pode sentir na pele se a viela de roda o agrada; see vale a pena investir em uma ou não etc. Deixo aqui meus parabéns à nossa talentosíssima Raine. Que sua estrada seja cada vez mais iluminada.


Vielisticamente,